Em 22 minutos na tribuna da ONU, Lula passou de Gaza ao Pix e terminou falando diretamente da eleição brasileira.

Algumas das frases mais fortes do discurso desta terça-feira (22) remetiam a disputas que não cabiam inteiras na fala: o poder de veto na ONU, as sanções contra uma relatora que investiga os territórios palestinos, a estratégia de Donald Trump para a América Latina, a classificação de PCC e Comando Vermelho pelos Estados Unidos e o embate comercial em torno dos pagamentos digitais.

O Trendahora reuniu o contexto de sete pontos para mostrar o que estava por trás das referências feitas pelo presidente.

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Por que Lula disse que a ONU está falhando

Lula abriu o discurso afirmando que este é o momento mais crítico da ONU desde que subiu à tribuna pela primeira vez, em 2003. Disse que a credibilidade da organização nunca esteve tão baixa e colocou parte do problema no Conselho de Segurança.

O Conselho tem 15 integrantes. Cinco deles: Estados Unidos, China, Rússia, França e Reino Unido; ocupam assentos permanentes e possuem poder de veto. Para uma decisão substantiva ser aprovada, são necessários pelo menos nove votos e nenhum voto contrário de um desses cinco países.

Na prática, uma única grande potência pode impedir uma resolução mesmo quando existe apoio dos demais integrantes.

A crítica não apareceu isoladamente. Horas antes, o secretário-geral António Guterres havia aberto a Assembleia dizendo que as divisões internacionais se transformaram em “abismos” e que os mecanismos de ação coletiva estão sob pressão crescente.

É esse desequilíbrio entre uma organização formada por 193 países e um Conselho no qual cinco potências mantêm privilégios especiais que Lula voltou a pedir que seja reformado.

Gaza: genocídio, Hamas e a disputa sobre o que acontece no território

Ao entrar no Oriente Médio, Lula afirmou que gerações de palestinos carregarão o trauma do que chamou de “genocídio praticado pelo governo Netanyahu”. Na frase seguinte, condenou o radicalismo e os “atos terroristas do Hamas”.

Os números ajudam a dimensionar o primeiro lado dessa fala. Até 30 de junho de 2026, mais de 73 mil palestinos haviam sido reportados mortos em Gaza desde 7 de outubro de 2023. Pelo menos 21,7 mil eram crianças, segundo a UNICEF.

Em uma população de aproximadamente 2,1 milhões de pessoas, o número reportado de mortos corresponde a cerca de 3,5% dos habitantes. A maior parte da população permanece deslocada, e a ONU registra que os moradores estão confinados a menos da metade da área de Gaza.

“Genocídio”, porém, não é uma conclusão judicial definitiva da Corte Internacional de Justiça. A África do Sul abriu um processo contra Israel, e a Corte determinou medidas provisórias, mas o caso ainda não teve julgamento final sobre o mérito.

Separadamente, uma comissão independente de investigação criada pelo Conselho de Direitos Humanos da ONU concluiu em 2025 que havia fundamentos razoáveis para considerar que autoridades israelenses cometeram atos de genocídio. Trata-se de uma conclusão daquela comissão, não de uma sentença da Corte Internacional de Justiça.

Do lado israelense, o ataque de 7 de outubro de 2023 matou cerca de 1.200 pessoas, segundo registros reunidos pela ONU. Hamas e outros grupos armados também levaram 251 pessoas para Gaza como reféns. A comissão de investigação da ONU classificou assassinatos e tomada de reféns cometidos naquele ataque como crimes de guerra.

Quem é Francesca Albanese e por que Lula falou em “silenciamento”

No mesmo bloco, Lula citou Francesca Albanese e afirmou que a relatora da ONU “não pode ser silenciada por dizer a verdade”.

Albanese é uma jurista italiana que ocupa o mandato independente de relatora especial da ONU para os direitos humanos nos territórios palestinos ocupados desde 1967.

O ponto central para entender a frase é que ela está sob sanções dos Estados Unidos.

O governo americano incluiu Albanese em sua lista de pessoas sancionadas vinculadas à disputa com o Tribunal Penal Internacional. Em 27 de maio de 2026, o Tesouro dos EUA voltou a registrar formalmente o nome dela na lista de Specially Designated Nationals.

A frase de Lula, portanto, ocorreu dentro de uma disputa concreta entre Washington e uma relatora que tem feito acusações severas contra a atuação de Israel em Gaza.

Ainda nesse trecho, Lula criticou os assentamentos israelenses na Cisjordânia. Em termos simples, eles são comunidades destinadas a civis israelenses construídas em áreas do território palestino ocupado desde 1967, incluindo Jerusalém Oriental.

Um relatório do secretário-geral da ONU registrou 503.732 colonos israelenses na Cisjordânia e outros 233.600 em Jerusalém Oriental, mais de 737 mil pessoas no total. A expansão vem acompanhada de moradias, estradas e outras estruturas que fragmentam o território palestino.

O Conselho de Segurança da ONU considera os assentamentos sem validade legal e um grande obstáculo à solução de dois Estados.

“O Brasil não cabe no quintal de ninguém”: o antecedente nos EUA

Um dos trechos mais aplaudidos ocorreu quando Lula falou da América Latina.

Ele mencionou a proximidade da região com “a maior potência militar do mundo”, criticou o que chamou de “tentações hegemônicas” e afirmou que “o Brasil não cabe no quintal de ninguém”.

A escolha da expressão tem um antecedente relevante em Washington.

Em 2 de junho, o secretário de Estado Marco Rubio apresentou um depoimento ao Congresso americano afirmando que Trump havia “retomado o controle do nosso hemisfério”. Logo depois, disse que os EUA haviam permitido por tempo demais que regimes hostis, cartéis e adversários estrangeiros agissem “no nosso próprio quintal”.

Rubio também afirmou naquele documento que Washington usou relações comerciais, poder financeiro e influência diplomática para aproximar países da América Central e do Sul das prioridades americanas.

Lula não citou Rubio nem Trump nesse trecho da ONU. Mas meses depois daquela declaração americana, usou a mesma metáfora do “quintal” para rejeitar o que apresentou como hegemonia sobre a América Latina.

Logo em seguida, o presidente brasileiro afirmou que a região voltou a presenciar “ingerência externa em processos eleitorais”.

“Não precisamos de porta-aviões”: por que crime organizado entrou na relação com os EUA

Minutos depois, Lula voltou aos Estados Unidos ao falar de segurança.

O presidente reconheceu a dimensão do crime organizado no Brasil, mas disse que o país não terceirizaria a responsabilidade de defender suas fronteiras. Foi então que afirmou que o Brasil não precisa de “porta-aviões vigiando nossas águas”, e sim de cooperação para interromper o fluxo de armas e dinheiro.

O contexto é uma mudança relevante na política americana para o crime brasileiro.

No mesmo depoimento em que falou no “quintal” americano, Rubio afirmou que embarcações de narcotraficantes na região haviam sido enfrentadas com “o peso total do poder de fogo americano”.

Isso não significa que a classificação de PCC e CV autorize automaticamente uma intervenção militar americana no Brasil. A designação produz efeitos jurídicos principalmente sobre apoio material, financiamento, sanções e imigração.

A divergência está na estratégia: o governo Trump ampliou o uso da arquitetura antiterrorismo e do poder militar contra cartéis na região, enquanto Lula defendeu na ONU cooperação financeira e policial sem terceirizar o controle territorial brasileiro.

Pix: os EUA querem mesmo “privatizar”?

Quando chegou à tecnologia, Lula afirmou que o Brasil não cederá a pressões de multinacionais que, segundo ele, querem “privatizar o nosso Pix”.

A investigação comercial da USTR afirma que o Brasil prejudica empresas americanas concorrentes no setor de pagamentos eletrônicos e diz que políticas brasileiras favorecem o que Washington chama de “national champion” (campeão nacional) sem citar uma proposta para vender ou privatizar o Pix.

A disputa faz parte de uma investigação mais ampla da Seção 301 sobre comércio digital, pagamentos, tarifas, propriedade intelectual, etanol, anticorrupção e desmatamento. Em julho, o processo resultou em uma tarifa adicional de 25% sobre determinados produtos brasileiros.

O Pix, por sua vez, foi criado pelo Banco Central. É um sistema aberto a instituições financeiras, fintechs, cooperativas e instituições de pagamento; para pessoas físicas, seu uso é em regra gratuito.

Portanto, existe uma disputa real dos EUA sobre as condições de concorrência no mercado brasileiro de pagamentos.

Bets, big techs e 6x1: a pauta doméstica chega à ONU

O discurso mudou gradualmente de política externa para temas diretamente ligados ao cotidiano brasileiro.

Lula criticou o poder das grandes empresas de tecnologia, chamou seus dirigentes de “tecnooligarcas”, defendeu regras para inteligência artificial e afirmou que a indústria das bets transforma vício em lucro.

Ao defender dois dias livres por semana na Assembleia Geral, Lula levou para uma tribuna internacional uma disputa trabalhista que está em tramitação no Brasil e também faz parte da campanha presidencial.

O discurso termina dentro da eleição brasileira

Nos minutos finais, a mudança de público fica explícita.

Lula disse que queria concluir com “uma mensagem sobre o meu país” e lembrou que os brasileiros irão às urnas em 4 de outubro.

A data é a do primeiro turno oficial das Eleições 2026. Um eventual segundo turno ocorrerá em 25 de outubro.

Lula afirmou que o eleitor decidirá entre “democracia e negacionismo”, falou em candidatos que se associam a “interesses estrangeiros contrários ao país” e disse que não permitirá que “inimigos da democracia, internos e externos” atentem contra a vontade popular.

Ele não mencionou Donald Trump nem nenhum candidato pelo nome nessa parte.

O fechamento, porém, completa a lógica que atravessou diferentes partes do discurso: questões internacionais como hegemonia, tarifas, plataformas digitais e atuação americana na América Latina foram conectadas por Lula à disputa política que será decidida nas urnas brasileiras em menos de duas semanas.

Mais do que uma lista de temas globais, o discurso teve dois destinatários ao mesmo tempo: os líderes reunidos em Nova York e o público que acompanha a campanha no Brasil.