O fim da Segunda Guerra Mundial deixou uma lição clara para a comunidade internacional: o uso irrestrito da força leva ao colapso, à destruição em massa e a ciclos de violência difíceis de conter. A resposta a esse trauma coletivo foi a criação de mecanismos destinados a limitar conflitos e evitar novas guerras globais, com destaque para a Organização das Nações Unidas (ONU) e o fortalecimento do direito internacional.
A lógica do pós-guerra não era idealista. Ela partia do reconhecimento de que, sem regras mínimas, países mais fracos se tornariam alvos recorrentes de disputas entre potências, enquanto crises regionais poderiam rapidamente se transformar em conflitos de alcance global. A contenção da força, a mediação diplomática e o respeito à soberania passaram a ser princípios centrais da nova ordem internacional.
Décadas depois, esse consenso começa a se fragilizar. Em diferentes regiões do mundo, o uso do poder militar volta a ser tratado como instrumento central de política externa, e não como último recurso. Conflitos armados, intervenções diretas, sanções coercitivas e demonstrações de força passaram a ocupar espaço cada vez maior no discurso e na prática das grandes potências.
Um dos sinais mais claros dessa mudança é o enfraquecimento da própria ONU. Criada para atuar como fórum de negociação e contenção de crises, a organização frequentemente se vê paralisada por vetos, disputas políticas internas e pela falta de disposição das potências em submeter suas ações a instâncias multilaterais quando seus interesses estratégicos estão em jogo. A instituição continua existindo formalmente, mas sua capacidade de influenciar decisões centrais vem sendo constantemente testada.
Outro fator que torna esse retorno à lógica da força ainda mais preocupante é o contexto tecnológico atual. Diferentemente do cenário do século passado, os conflitos contemporâneos envolvem armamentos muito mais sofisticados, com maior poder destrutivo e alcance ampliado. Drones, mísseis de precisão e sistemas avançados de vigilância reduzem barreiras operacionais e tornam o uso da força mais rápido, menos custoso politicamente e, em alguns casos, mais difícil de conter.
Nesse ambiente, a relação entre fortes e fracos volta a se desequilibrar. Estados com maior capacidade militar e econômica passam a impor sua vontade de forma mais direta, enquanto países com menos recursos veem sua margem de manobra diminuir. A negociação cede espaço ao fato consumado, e a diplomacia passa a operar muitas vezes apenas depois que a força já foi empregada.
A normalização desse padrão levanta um alerta histórico. As regras construídas no pós-guerra surgiram justamente para evitar que o mundo retornasse a uma dinâmica marcada pela imposição do poder bruto. Ignorar essas lições não significa apenas abandonar princípios abstratos, mas assumir o risco de repetir erros que já tiveram custos humanos e políticos elevados.
O cenário atual sugere que a ordem internacional atravessa um período de transição delicada. Se o aprendizado do pós-guerra for deixado de lado, o preço dessa escolha pode não ser imediato, mas a história mostra que ele tende a ser cobrado, e de forma severa.


