O documento enviado por Flávio Bolsonaro ao Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos, o USTR, não se limita a pedir a suspensão da tarifa de 25% contra produtos brasileiros. O texto propõe uma troca política e comercial: suspender a medida, manter a investigação aberta e abrir uma negociação com prazo, metas e possibilidade de retomada da pressão americana.

A audiência do USTR faz parte da investigação da Seção 301 sobre práticas atribuídas ao Brasil em áreas como comércio digital, serviços de pagamento eletrônico, tarifas preferenciais, combate à corrupção, propriedade intelectual, etanol e desmatamento ilegal.

Flávio aparece na agenda oficial da audiência de 7 de julho como senador brasileiro. Em documento escrito, ele se apresenta como senador, figura da oposição parlamentar e pré-candidato à Presidência na eleição de outubro de 2026.

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A frase central do documento é política: Flávio pede que os Estados Unidos suspendam a ação proposta, mas não pede que o USTR abandone a investigação contra o Brasil.

Em uma frase: Flávio tenta trocar a aplicação imediata da tarifa por uma negociação de 180 dias em que os Estados Unidos mantêm a investigação e a capacidade de pressão sobre o Brasil.

Essa é a diferença entre pedir o cancelamento da tarifa e pedir a suspensão da medida. No desenho proposto pelo senador, a pressão americana não desaparece. Ela muda de formato.

O que Flávio pede

O pedido principal é que o USTR suspenda a tarifa adicional de 25% e abra um mecanismo bilateral de negociação com o Brasil. A proposta cobre as seis áreas citadas na investigação americana: comércio digital e pagamentos eletrônicos, tarifas preferenciais, anticorrupção, propriedade intelectual, etanol e desmatamento ilegal.

O documento argumenta que a tarifa não atingiria os responsáveis pelas práticas criticadas pelos Estados Unidos. Segundo a tese apresentada por Flávio, a medida puniria exportadores, consumidores americanos, empresas dos dois países e brasileiros que defendem uma relação mais próxima com Washington.

A leitura política do senador é que a tarifa poderia fortalecer o governo Lula internamente, ao permitir que o Planalto transformasse a pressão americana em discurso eleitoral contra a oposição.

O que ele aceita manter

O ponto mais sensível é que o documento não pede o encerramento da investigação. Pelo contrário: Flávio afirma que o USTR poderia reafirmar o resultado da apuração americana e, ao mesmo tempo, suspender a implementação da tarifa.

Na prática, isso preservaria a alavanca de pressão dos Estados Unidos. A tarifa ficaria suspensa, mas a investigação continuaria como base para uma eventual retomada da medida.

Esse é o núcleo da troca proposta: alívio econômico imediato em troca de uma negociação monitorada, com os Estados Unidos mantendo o poder de reativar a pressão se não considerar que houve avanço.

O gatilho de 180 dias

O documento propõe um mecanismo de “snap-back”, expressão usada para a retomada automática de uma medida suspensa. A janela seria de 180 dias, com possibilidade de prorrogação por mais 90 dias se houvesse negociação de boa-fé e progresso concreto.

Durante esse período, o atual governo teria a chance de negociar. Ao mesmo tempo, a oposição no Congresso poderia pressionar o governo brasileiro a avançar nas conversas com Washington.

O texto também prevê um cenário eleitoral. Em caso de vitória da oposição, o presidente eleito indicaria imediatamente um negociador para conduzir a agenda bilateral com os Estados Unidos.

Isso coloca a eleição de 2026 no centro da proposta. A tarifa deixa de ser apenas instrumento comercial e passa a funcionar como elemento de calendário político.

O Pix como compromisso geopolítico

O Pix aparece em dois níveis no documento. Primeiro, Flávio defende o sistema brasileiro de pagamentos instantâneos. Ele afirma que o Pix é infraestrutura pública soberana e argumenta que tarifa ou sanção seriam instrumentos inadequados contra o sistema.

Depois, o texto propõe um compromisso mais específico: impedir que o Pix seja interconectado a arranjos transfronteiriços de liquidação “não ocidentais”.

Essa referência não trata do uso cotidiano do Pix dentro do Brasil. O alvo é uma possível conexão do sistema brasileiro com redes internacionais de pagamentos associadas à agenda de desdolarização, especialmente em torno de BRICS, China, Rússia e Índia.

O próprio documento cita, em seus anexos, a ideia de interconexão entre plataformas nacionais como Pix, CIPS, SPFS e UPI para criar uma infraestrutura multilateral capaz de reduzir a dependência do dólar e do sistema SWIFT.

O movimento é politicamente relevante porque transforma o Pix em peça de alinhamento geopolítico. Flávio defende o sistema brasileiro contra a tarifa americana, mas propõe dar a Washington uma garantia contra sua integração a redes financeiras fora da arquitetura ocidental.

Sanções e vistos entram como comparação

Outro trecho sensível trata de sanções financeiras e restrições de visto. O documento afirma que os Estados Unidos já possuem instrumentos direcionados contra autoridades e familiares, mas diz que Flávio não pede a aplicação dessas medidas.

A comparação serve para sustentar a tese de que a tarifa de 25% seria um instrumento amplo demais. Na visão apresentada no documento, sanções e restrições de visto atingiriam responsáveis específicos, enquanto a tarifa atingiria a economia brasileira e também consumidores e empresas americanas.

Esse ponto precisa ser lido com cuidado. O documento não faz um pedido formal para novas sanções. O que ele faz é mencionar esses instrumentos para argumentar que a tarifa seria um remédio errado para o problema apontado pelos Estados Unidos.

Mercosul como obstáculo

O documento também trata das regras do Mercosul. Flávio afirma que o Brasil não poderia revogar unilateralmente certas preferências comerciais porque elas estão vinculadas a instrumentos da Aladi e do Mercosul, citando o ACE-53 como exemplo.

Em seguida, defende que o Brasil busque formas de se libertar de amarras do Mercosul que, segundo ele, impediram governos anteriores de negociar acordos bilaterais com os Estados Unidos.

O texto cita o caminho adotado pela Argentina de Javier Milei como precedente que o senador estaria disposto a examinar e perseguir.

Essa parte não equivale a uma defesa explícita de saída do Mercosul. O documento fala em flexibilizar limitações do bloco e abrir caminho para acordos bilaterais com Washington.

A troca em seis pontos:

  1. Tarifa: Flávio pede a suspensão da tarifa de 25%. Em troca: propõe manter a investigação americana e abrir uma negociação com metas.
  2. Investigação: O documento não pede que o USTR abandone a apuração contra o Brasil. A pressão continuaria ativa como instrumento de negociação.
  3. Prazo: A proposta cria uma janela de 180 dias. Se não houver avanço, a medida poderia voltar à mesa.
  4. Eleição: O texto argumenta que aplicar a tarifa antes da eleição poderia gerar ganho político para Lula. A suspensão deslocaria a decisão para depois do voto.
  5. Pix: Flávio defende o Pix contra tarifa ou sanção direta. Ao mesmo tempo, propõe impedir sua integração a redes internacionais “não ocidentais”.
  6. Mercosul: O documento critica amarras do bloco. A proposta é abrir espaço para acordos bilaterais mais diretos com os Estados Unidos.

Por que isso importa

A proposta de Flávio desloca a audiência do USTR para além do comércio. O que estava formalmente em debate era uma tarifa contra produtos brasileiros. O documento, porém, leva a discussão para eleição, política externa, Pix, Mercosul, alinhamento internacional e arquitetura financeira.

Essa é a camada que torna o episódio maior do que uma disputa tarifária. A proposta não é apenas reduzir o custo econômico imediato. É reorganizar a pressão americana sobre o Brasil em torno de uma negociação que atravessa a eleição de 2026.

Para os Estados Unidos, o desenho preservaria a investigação e manteria instrumentos de pressão. Para Flávio, evitaria que a tarifa fosse aplicada antes da eleição e virasse munição política para Lula. Para o Brasil, colocaria temas internos, como Pix e Mercosul, dentro de uma negociação direta com Washington.