As revelações sobre a relação entre Alexandre de Moraes e Daniel Vorcaro chegaram à campanha eleitoral em um terreno que o bolsonarismo conhece bem.

Há tempos, Flávio Bolsonaro apresenta o ministro do Supremo como um dos responsáveis por perseguir Jair Bolsonaro e dificultar politicamente sua candidatura. Agora, pela primeira vez nesta campanha, é o próprio Moraes quem está no centro de questionamentos públicos ligados ao Banco Master.

Isso não muda automaticamente o voto do eleitor. Mas muda uma coisa importante para a campanha de Flávio: dá um fato novo a uma narrativa que até então dependia principalmente das decisões tomadas pelo ministro contra Jair Bolsonaro e sua família.

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Moraes já fazia parte da campanha

O confronto não começou com Daniel Vorcaro.

Em julho, Moraes proibiu Flávio de visitar Jair Bolsonaro por 90 dias depois que o senador divulgou uma carta escrita pelo pai, que cumpria prisão domiciliar e tinha restrições ao uso de redes sociais.

Flávio transformou imediatamente a decisão em assunto eleitoral.

“É algo desproporcional, configura tentativa de Alexandre de Moraes de interferir nas eleições deste ano.”

O argumento usado pelo candidato era simples: os 90 dias terminariam somente depois do primeiro turno. Flávio questionou publicamente se o prazo seria uma coincidência e passou a apresentar a restrição como uma tentativa de deixar Jair Bolsonaro incomunicável durante a campanha.

Essa leitura passou a fazer parte da própria identidade eleitoral do candidato. O site oficial de Flávio afirma atualmente que ele “enfrentou perseguição” e recebeu do pai a missão de continuar o projeto iniciado por Jair em 2018.

A narrativa encontrou espaço além da base bolsonarista

Um dado ajuda a entender por que esse discurso interessa tanto à campanha.

Quando o Datafolha perguntou aos eleitores sobre a proibição das visitas, 59% disseram que Moraes havia agido mal. Outros 36% avaliaram positivamente a decisão.

Ao mesmo tempo, a mesma pesquisa mostrou apoio a outras restrições impostas a Jair Bolsonaro. Ou seja, o resultado não significava uma rejeição geral às decisões contra o ex-presidente. Mostrava algo mais específico: naquela medida concreta, a crítica a Moraes alcançou pessoas que iam além do eleitorado fiel ao bolsonarismo.

Até um adversário de Flávio percebeu o efeito político.

Depois da proibição das visitas, Renan Santos, candidato do Missão, chamou Moraes de “cabo eleitoral” e “marqueteiro” de Flávio. O argumento de Renan era justamente que decisões consideradas excessivas ajudavam os Bolsonaro a se apresentarem como vítimas de perseguição.

Esse episódio aconteceu quase dois meses antes das revelações atuais.

O que o caso Vorcaro acrescenta

Até agora, a narrativa funcionava mais ou menos assim: Moraes toma uma decisão contra Bolsonaro, e o bolsonarismo afirma que houve perseguição.

O caso Master introduz um elemento diferente.

As novas mensagens e documentos colocam Moraes na posição de ter de explicar sua própria relação com Daniel Vorcaro, enquanto o Banco Master mantinha contrato milionário com o escritório de Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro.

Para o bolsonarismo, isso permite tentar inverter o enquadramento.

Em vez de discutir apenas se Moraes aplicou corretamente a lei aos Bolsonaro, a campanha passa a questionar quem é o ministro que tomou essas decisões.

Foi exatamente o movimento feito por Flávio nesta terça-feira.

Poucas horas depois das revelações, ele defendeu a saída de Moraes do STF. Posteriormente, no plenário do Senado, passou a cobrar seu impeachment imediato e ligou o episódio a um argumento muito mais amplo sobre investigações supostamente utilizadas para pressionar políticos e partidos.

Em seu discurso, Flávio chegou a fazer a comparação diretamente com o pai:

“Vamos dar a Moraes o que ele não deu a Bolsonaro, o direito de se explicar.”

A frase resume a estratégia política.

O caso Vorcaro deixa de ser apresentado apenas como um problema envolvendo o ministro. Ele passa a ser usado para revisitar o tratamento dado a Jair Bolsonaro.

É esse o ganho potencial para Flávio

Jair Bolsonaro não está na urna, mas continua sendo um dos principais ativos políticos da candidatura do filho.

Quanto mais a campanha gira em torno da relação entre Bolsonaro e Moraes, mais Flávio consegue disputar a eleição como herdeiro de uma causa política construída pelo pai.

A nova crise permite uma mensagem particularmente simples para o eleitor bolsonarista: o ministro que, na visão desse grupo, perseguiu Bolsonaro agora precisa responder por sua própria conduta.

Não é necessário que o eleitor acompanhe contratos, petições ou detalhes técnicos do Banco Master para compreender essa mensagem. E justamente por isso ela tem potencial de circular com facilidade nas redes e nos atos de campanha.

O timing também ajuda.

Flávio já vinha promovendo o ato de 7 de Setembro na Avenida Paulista como uma das grandes mobilizações desta fase da campanha. A data apareceu inclusive escrita em sua mão durante a entrevista ao Jornal Nacional. A própria comunicação oficial do candidato trata o evento como chamado às ruas.

A oposição já pretende levar as revelações sobre Moraes para essas manifestações.

Assim, um assunto revelado no início da semana poderá chegar poucos dias depois a um ambiente já preparado para discursos sobre STF, Moraes e Jair Bolsonaro.

Vorcaro, porém, continua sendo um problema para Flávio

Existe uma contradição que impede uma leitura simples de que o episódio beneficia automaticamente o candidato.

Daniel Vorcaro também está no centro de questionamentos envolvendo o próprio Flávio, especialmente pelo financiamento do filme Dark Horse, sobre Jair Bolsonaro. Na última terça-feira, foi divulgado ainda um repasse adicional de US$ 1,6 milhão ao fundo ligado ao projeto.

Quando questionado sobre o novo pagamento, Flávio afirmou que a produtora deveria prestar os esclarecimentos.

Isso cria uma disputa bastante clara para as próximas semanas.

Os adversários de Flávio têm interesse em manter a pergunta sobre a relação dele com Vorcaro.

Já a campanha bolsonarista tem interesse em ampliar a questão: qual era a relação de Vorcaro com diferentes centros de poder, especialmente Alexandre de Moraes?

Flávio já fazia esse movimento antes das revelações atuais. Em maio, no Senado, pediu uma CPMI do Banco Master e afirmou que queria Vorcaro explicando publicamente suas relações com ele próprio, com Lula e com Moraes.

Agora essa estratégia ganhou um fato novo muito mais poderoso.

O efeito eleitoral ainda terá de ser medido pelas próximas pesquisas. Mas a vantagem política imediata é mais clara: o caso devolve ao centro da campanha exatamente o confronto que Flávio vinha tentando explorar: Bolsonaro contra Moraes, com a família novamente apresentada como alvo de um sistema que ela acusa de persegui-la.