O PL oficializou neste sábado, 25 de julho, a candidatura de Flávio Bolsonaro à Presidência da República durante uma convenção em São Paulo marcada pela presença do presidente argentino Javier Milei e pela exibição de um vídeo de Jair Bolsonaro produzido com inteligência artificial. Em Campinas, o PT confirmou a chapa estadual liderada por Fernando Haddad e transformou o evento em uma apresentação do palanque paulista do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Os dois atos definiram etapas diferentes da disputa eleitoral. Flávio saiu da convenção como candidato oficial do PL, mas sem um nome anunciado para vice-presidente e sem o apoio formal dos principais partidos de centro-direita. Já o PT fechou sua chapa majoritária em São Paulo, mas Lula ainda terá de ser homologado candidato à reeleição na convenção nacional da legenda, marcada para 2 de agosto.

Na véspera das convenções, o Datafolha mostrou Lula com 48% e Flávio Bolsonaro com 43% em uma eventual disputa de segundo turno.

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Milei pede apoio a Flávio

Javier Milei foi a principal presença internacional na convenção do PL. Em seu discurso, o presidente argentino defendeu a eleição de Flávio, criticou Lula e apresentou a disputa brasileira como parte de um confronto regional contra governos de esquerda.

Milei afirmou que Flávio seria o nome capaz de derrotar Lula e pediu aos brasileiros que votassem no candidato do PL em outubro. O argentino também atacou o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, ao comentar a decisão que o impediu de visitar Jair Bolsonaro.

A declaração provocou uma reação do presidente do STF, Edson Fachin. Em nota, o ministro afirmou que a Presidência da Corte repudia manifestações incompatíveis com a civilidade entre os Estados e classificou a referência a Moraes como desrespeitosa.

Antes da convenção, Milei também se reuniu com o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas. A presença de Tarcísio no lançamento reforçou o apoio político ao candidato do PL, mas não representou uma adesão formal do Republicanos à chapa presidencial.

A convenção contou ainda com mensagens gravadas do primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, e da ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro. Michelle, que havia protagonizado uma divergência pública com Flávio, desejou proteção e sucesso à candidatura do senador.

PL ainda procura candidato a vice

Apesar dos apoios apresentados no palco, o PL terminou a convenção sem informar quem será o candidato a vice-presidente. Flávio também não conseguiu, até o evento, consolidar uma aliança com as principais legendas de centro-direita.

No discurso, o senador prometeu reduzir impostos, endurecer as políticas de segurança pública e dar continuidade ao projeto político do pai. Ele apresentou a candidatura como uma disputa contra Lula e afirmou que pretende receber de Jair Bolsonaro a faixa presidencial caso seja eleito.

A definição do vice poderá ocorrer durante o restante do período das convenções partidárias. Conforme o calendário eleitoral, as legendas podem realizar esses encontros até 5 de agosto e, posteriormente, apresentar os pedidos de registro das candidaturas à Justiça Eleitoral.

Bolsonaro aparece em vídeo produzido por IA

Sem comparecer ao evento, Jair Bolsonaro foi representado por um vídeo que recriou sua imagem e sua voz com inteligência artificial. O conteúdo transmitiu uma mensagem de apoio à candidatura do filho e buscou reproduzir a presença do ex-presidente no lançamento.

As regras eleitorais de 2026 determinam que conteúdos sintéticos ou significativamente modificados por inteligência artificial sejam identificados de forma explícita, destacada e acessível. A obrigação vale para imagens, textos, áudios e vídeos usados em propaganda eleitoral.

PT lança chapa completa em São Paulo

Na convenção realizada em Campinas, o PT oficializou Fernando Haddad como candidato ao governo de São Paulo. O ex-governador Márcio França, do PSB, será o candidato a vice. Marina Silva, da Rede, e Simone Tebet, do PSB, disputarão as duas vagas paulistas no Senado.

Lula participou do encerramento e elogiou individualmente os quatro integrantes da chapa. O presidente apresentou a composição como um contraponto ao governo de Tarcísio de Freitas e afirmou que a campanha paulista deverá priorizar a defesa dos serviços públicos e as críticas às privatizações estaduais.

Haddad concentrou seu discurso nas áreas de transporte, educação, segurança e desenvolvimento econômico. Geraldo Alckmin, que também participou do evento, criticou os processos de privatização e citou os problemas recentes registrados no sistema ferroviário paulista.

Lula critica interferência externa após veto a enviados dos EUA

Durante o discurso, Lula afirmou que a decisão sobre o futuro do país cabe exclusivamente ao eleitorado brasileiro e advertiu contra tentativas de interferência estrangeira nas eleições.

A declaração ocorreu um dia após o governo brasileiro negar vistos a dois funcionários do Departamento de Estado dos Estados Unidos que pretendiam viajar a Brasília para reuniões com autoridades eleitorais. A missão era tratada pelo governo brasileiro como parte de uma iniciativa da administração de Donald Trump para levantar questionamentos sobre o sistema eleitoral do país.

“Que não venha ninguém de fora querer meter o dedo nas nossas eleições”, afirmou Lula. “Quem quiser de fora vir se meter nas eleições brasileiras, já vou avisando logo: vão apanhar muito aqui nas eleições.”

Lula não mencionou Trump nem os Estados Unidos nominalmente nesse trecho. Pelo contexto dos acontecimentos, porém, a declaração foi associada à movimentação do governo norte-americano, e não à presença de Javier Milei na convenção do PL.

O tema da presença estrangeira na eleição também apareceu dias antes, quando Flávio Bolsonaro pediu o envio de observadores internacionais e falou sobre as urnas brasileiras diante de representantes diplomáticos.

Em outro momento do discurso, Lula afirmou que seus adversários deverão utilizar inteligência artificial e redes digitais para produzir informações falsas e tentar influenciar os eleitores durante a campanha.

São Paulo concentra as duas estratégias

A realização das duas convenções no estado mostra a importância de São Paulo para a eleição presidencial. O estado possui 34.104.226 eleitores, equivalentes a 21,48% de todo o eleitorado brasileiro, e permanece como o maior colégio eleitoral do país.

Uma pesquisa Datafolha divulgada em julho mostrou Lula e Flávio empatados com 35% no primeiro turno em São Paulo, enquanto o senador apareceu numericamente à frente em uma simulação de segundo turno, dentro da margem de erro.

Para o PL, o evento serviu para nacionalizar a candidatura de Flávio com apoios estrangeiros e a presença de aliados do bolsonarismo. Para o PT, a prioridade foi montar uma chapa estadual completa, capaz de funcionar como palanque para Lula e disputar votos tanto na capital quanto no interior.

O resultado político das convenções é uma assimetria que deverá orientar os próximos dias: Flávio já é o candidato presidencial do PL, mas ainda procura um vice e alianças; Lula ainda será oficializado nacionalmente, mas já conta com uma chapa completa no estado que concentra mais de um quinto dos eleitores brasileiros.