Daniel Vorcaro queria saber onde estava o contrato milionário firmado entre o Banco Master e o escritório de Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF). Em 1º de abril de 2025, perguntou a um então dirigente do banco se outras pessoas tinham acesso ao documento. Ao saber que seria necessário localizá-lo, deu uma ordem direta.

Em versão com ajustes ortográficos, a mensagem dizia:

“Ninguém pode ter acesso. Você pega e não deixa ninguém ter acesso a isso.”

A conversa faz parte do material extraído pela Polícia Federal do celular de Vorcaro e tornado público nesta terça-feira (1º). A ordem para restringir o acesso não aparece isolada. Em outras mensagens, o ex-dono do Master tratava os pagamentos ao Barci de Moraes como prioridade, cobrava funcionários quando uma parcela atrasava e demonstrava preocupação com a forma como os repasses eram feitos.

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O contrato é apenas uma parte de uma relação que, segundo o novo material da PF, começou antes da contratação do escritório de Viviane, continuou durante sua vigência e chegou aos meses que antecederam a prisão de Vorcaro. Nesse período, aparecem encontros entre o banqueiro e Moraes, a participação do ministro na análise da minuta contratual e, mais tarde, mensagens em que Vorcaro buscava informações e ajuda enquanto investigações avançavam sobre o Master.

O que era o contrato

O acordo com o Barci de Moraes foi fechado em janeiro de 2024 e previa 36 parcelas mensais de R$ 3 milhões líquidos, R$ 108 milhões líquidos ao longo de três anos. Considerados os tributos e a forma de remuneração prevista, reportagens e documentos sobre o caso passaram a se referir ao negócio como um contrato de aproximadamente R$ 129 milhões a R$ 131 milhões.

A relação não chegou ao fim previsto porque o Banco Central liquidou o Master em novembro de 2025. Documentos fiscais examinados pela CPI do Crime Organizado do Senado registraram cerca de R$ 80,2 milhões pagos ao escritório entre 2024 e 2025.

O próprio escritório afirmou anteriormente que prestou consultoria jurídica ampla ao banco. Em nota, informou ter produzido 36 pareceres e opiniões legais e realizado dezenas de reuniões durante a vigência do acordo.

Mas as novas mensagens ajudam a entender como o contrato era tratado dentro do Master.

Quando uma parcela atrasou, em março de 2024, Vorcaro reagiu imediatamente. Fábio Faria, ex-ministro das Comunicações e personagem central na aproximação entre o banqueiro e Moraes, também havia cobrado o pagamento.

“O careca não pode atrasar.”

Na sequência, Vorcaro classificou aquele acordo como o contrato “mais importante” do banco e cobrou a liberação do dinheiro.

Pouco depois, orientou uma funcionária responsável pelo repasse:

“Pode pagar sempre, sem nota. Do jeito que for.”

Um comprovante posteriormente enviado na conversa registrou transferência de cerca de R$ 3,4 milhões para o escritório. A mensagem se referia à forma de liberar o pagamento; as conversas também indicam que funcionários tratavam da obtenção posterior da nota fiscal.

Mais de um ano depois veio a ordem que abre esta matéria: Vorcaro perguntou onde estava o contrato e determinou que outras pessoas não tivessem acesso ao documento.

E, em outubro de 2025, surgiu outra preocupação. Ao ser informado de um pagamento ao Barci de Moraes, Vorcaro perguntou se ele havia sido realizado por Pix. Após receber a confirmação, respondeu que aquilo “não é bom”.

Como Moraes entra na história

A cronologia recuperada pela PF mostra que a relação entre Vorcaro e Alexandre de Moraes antecedeu o contrato.

> 21 de dezembro de 2023 — primeiro encontro: Fábio Faria intermediou uma visita de Vorcaro à residência de Moraes em São Paulo. Mensagens mostram Faria orientando o banqueiro sobre a entrada do carro na garagem.

> 26 de dezembro de 2023 — novo encontro e telefone direto: Vorcaro voltou a se encontrar com Moraes. Após a reunião, Faria enviou ao banqueiro um contato salvo como “Alexandre de Moraes BRASILIA”, que foi adicionado imediatamente à agenda de Vorcaro.

> 11 de janeiro de 2024 — chega a primeira minuta: Viviane Barci encaminhou a Vorcaro uma proposta de contrato. A análise dos metadados feita pela PF encontrou como responsável pela última modificação um usuário identificado como “Ministro Alexandre de Moraes”.

> 15 de janeiro de 2024 — negociação continua: Vorcaro devolveu uma minuta revisada. No mesmo período, Fábio Faria conversou com o banqueiro sobre a duração do acordo com “Vivi”. Uma nova modificação no arquivo também foi associada nos metadados ao perfil “Ministro Alexandre de Moraes”.

> 17 a 23 de janeiro de 2024 — contrato fechado: a versão final foi enviada e Vorcaro assinou digitalmente o documento em 23 de janeiro. O acordo previa três anos de prestação de serviços.

> 15 de março de 2024 — pagamento vira prioridade: Fábio Faria cobrou Vorcaro sobre uma parcela. O banqueiro reclamou internamente, classificou o contrato como o mais importante do Master e ordenou o pagamento imediato.

> 1º de abril de 2025 — ordem para limitar acesso: Vorcaro perguntou onde o contrato estava guardado e determinou que ninguém tivesse acesso ao documento.

> 2025 — novas tratativas com o escritório: a PF localizou minutas relacionadas a outro negócio de R$ 50 milhões, que envolvia cotas relacionadas a um jatinho e um helicóptero. O Barci de Moraes afirma que esse segundo contrato não foi celebrado.

> 2 de outubro de 2025 — cartões para os filhos: mensagens mostram que Vorcaro autorizou a emissão de cartões do Master para Giuliana e Alexandre Barci de Moraes, filhos de Viviane e do ministro, após pedido encaminhado por um administrador do escritório. A executiva do banco informou a Vorcaro que o limite seria de R$ 300 mil para cada um, e ele respondeu “Ok”.

A participação de Moraes na análise do contrato não é negada pelo escritório de Viviane. Em nota divulgada nesta terça-feira, a banca afirmou que seu setor de compliance consultou o ministro, na condição de marido da sócia-diretora, para verificar se existia algum impedimento legal à contratação do Banco Master.

Segundo a explicação, Moraes verificou questões como a eventual existência de processos do Master sob sua relatoria ou participação em julgamentos de interesse do banco. O escritório afirma que não encontrou impedimentos, que não havia previsão de atuação perante o STF e que Moraes nunca havia julgado causa envolvendo o Master.

A relação continuou depois do contrato

As mensagens encontradas no celular de Vorcaro também apontam que o contato pessoal entre os dois continuou depois da assinatura.

A PF encontrou referências a pelo menos seis encontros entre Moraes e Vorcaro ao longo de 2024 e 2025, além dos registros da aproximação no fim de 2023. Em diferentes momentos, o banqueiro avisou familiares, funcionários ou pessoas próximas de que estava ou estaria com o ministro.

Esse contexto ganha outra dimensão no segundo semestre de 2025, quando a crise do Master se aprofundava.

As mensagens deixam de tratar principalmente de encontros e negócios e passam a mencionar Banco Central, Polícia Federal e Procuradoria-Geral da República.

Em 30 de outubro, Vorcaro escreveu a Moraes, segundo a identificação feita pela PF, sobre informações que recebia de dentro do Banco Central. Também pediu que fossem reforçadas conversas com Andrei Rodrigues, diretor-geral da PF, e Paulo Gonet, procurador-geral da República, para impedir que medidas tomadas por integrantes dessas instituições prejudicassem o banco.

Nos dias seguintes, o banqueiro continuou tentando entender a dimensão das medidas que poderiam atingir seus negócios.

Às vésperas da prisão, perguntou ao interlocutor:

“Acha que segunda já tenho que estar fora?”

A mensagem é de 15 de novembro de 2025. Vorcaro seria preso dois dias depois, em 17 de novembro.

A forma de comunicação também chamou a atenção dos investigadores. Segundo a PF, Vorcaro escrevia textos no bloco de notas do telefone, fazia capturas de tela e enviava as imagens pelo WhatsApp no modo de visualização única. A técnica dificultou a recuperação integral das respostas recebidas.

Por que tudo isso voltou ao centro do caso agora

Parte das mensagens já havia sido encontrada anteriormente pela PF, mas o interlocutor não estava identificado nos relatórios iniciais.

André Mendonça, relator dos processos relacionados à Operação Compliance Zero no STF, determinou que a Polícia Federal atualizasse a investigação sobre a chamada rede de monitoramento e influência de Vorcaro e buscasse identificar quem aparecia nas conversas.

A corporação então apresentou a Informação de Polícia Judiciária IPJ-A nº 3298613/2026, acompanhada de quatro documentos. Após uma análise preliminar, Mendonça mandou retirar esse conjunto do procedimento original e criar uma petição autônoma, a PET 16.662.

No despacho divulgado nesta terça-feira, Mendonça registra que, na avaliação da autoridade policial, as mensagens indicam que Vorcaro teve conhecimento antecipado de investigações criminais e de apurações do Banco Central e buscou intervenção junto a autoridades envolvidas nos processos decisórios.

O ministro abriu vista do novo material à Procuradoria-Geral da República.

E definiu o próximo passo institucional: independentemente do posicionamento apresentado pela PGR, os novos elementos serão levados ao plenário do STF.

Mendonça determinou ainda que a análise ocorra de forma pública e presencial. A data deverá ser definida pela Presidência do Supremo.

É esse movimento que transforma as mensagens agora reveladas em mais do que um novo capítulo sobre o contrato do Master. O material reúne em uma mesma sequência a aproximação entre Vorcaro e Moraes, a contratação milionária do escritório de Viviane, a forma como o acordo era tratado dentro do banco e os contatos posteriores do banqueiro quando as investigações começaram a ameaçar diretamente seus negócios.