Lula colocou uma pergunta direta no centro da campanha nesta quarta-feira (16):

“Cadê os R$ 130 milhões que ele pegou do Vorcaro para o filme do seu pai?”

A cobrança foi dirigida a Flávio Bolsonaro durante entrevista ao Desce a Letra Show.

O número, porém, precisa ser explicado. Os documentos da investigação não mostram R$ 130 milhões entregues a Flávio e depois desaparecidos. Eles mostram uma negociação para financiar Dark Horse, filme sobre Jair Bolsonaro, que previa até US$ 24 milhões, valor que ficou na faixa dos R$ 130 milhões nas conversões divulgadas sobre o caso.

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Do total previsto, a Polícia Federal identificou sete remessas que somaram US$ 12,33 milhões da Entre Investimentos para o Havengate Development Fund, nos Estados Unidos. É pouco mais da metade do valor originalmente negociado.

Então, a principal pergunta hoje não é onde foram parar R$ 130 milhões, porque esse total não aparece como efetivamente pago. É o que aconteceu com os US$ 12,33 milhões que de fato saíram, por que o dinheiro passou por essa estrutura nos Estados Unidos e quem terminou com esses recursos.

Flávio negociava diretamente com Vorcaro

A participação de Flávio não aparece apenas como uma indicação ou apoio distante ao projeto.

Segundo a investigação, ele manteve contato direto com Daniel Vorcaro, participou das negociações e cobrou pagamentos quando os recursos atrasavam. Documentos encontrados no celular do ex-banqueiro registram o acordo de até US$ 24 milhões para a produção.

Essa relação levou a Polícia Federal a pedir a abertura de uma investigação específica. Em 22 de julho, André Mendonça autorizou a apuração de possíveis crimes de lavagem de dinheiro, evasão de divisas, corrupção e outros delitos relacionados ao financiamento de Dark Horse. A PGR concordou com a abertura.

Flávio nega irregularidades. Em pronunciamento no Congresso, afirmou que o filme recebeu investimento privado e disse não ter “nada a esconder”.

A investigação de Flávio ficou sob sigilo

A autorização de Mendonça para investigar Flávio ocorreu em julho. Mas o conteúdo permaneceu sob sigilo e só veio a público em 11 de setembro, cerca de sete semanas depois.

A diferença de tratamento em relação a outro braço do caso Master se tornou um dos focos da crise no STF.

A Petição 16.662, formada a partir de material da PF relacionado a Alexandre de Moraes, foi autuada em 28 de agosto. Em 1º de setembro, quatro dias depois, Mendonça determinou o levantamento do sigilo do procedimento. O andamento oficial do STF registra as duas datas.

Já quando Edson Fachin pediu a abertura dos procedimentos ligados ao Banco Master, na noite de 10 de setembro, Mendonça tornou pública uma primeira leva de processos. A investigação sobre Dark Horse e Flávio Bolsonaro ficou de fora.

No dia seguinte, Alexandre de Moraes afirmou que ainda havia ao menos 180 peças sem acesso. A PGR também considerou incompleta a primeira abertura, e Fachin deu prazo para que Mendonça ampliasse a liberação dos documentos.

Mendonça reagiu dizendo que não havia feito seleção política e que as peças efetivamente disponíveis haviam sido liberadas, com preservação de dados protegidos por sigilo legal ou ligados a diligências em andamento.

Depois dessa nova pressão, o ministro ampliou a abertura dos processos e a investigação sobre Dark Horse finalmente se tornou pública.

O dinheiro chegou aos Estados Unidos

O caminho dos recursos é outro ponto central da investigação.

O Havengate é administrado por Paulo Calixto, advogado ligado a Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos, e permaneceu por anos sem atividade relevante antes de começar a receber recursos associados ao projeto.

A PF passou então a investigar a origem, o trânsito, o destino e os beneficiários finais desse dinheiro.

É nesse ponto que a prestação de contas ganha peso.

Uma perícia apresentada pela própria produtora calculou o custo total de Dark Horse em aproximadamente US$ 13,39 milhões, equivalente a cerca de R$ 75 milhões na conversão usada no laudo.

Desse total, cerca de US$ 9,6 milhões, ou aproximadamente R$ 54,2 milhões, teriam sido gastos nos Estados Unidos.

Há um contraste importante: os US$ 12,33 milhões identificados como enviados por Vorcaro correspondem a mais de 90% do custo total do filme declarado pela perícia da própria produtora.

Ao mesmo tempo, o acordo discutido com Vorcaro previa até US$ 24 milhões, quase o dobro do custo total posteriormente calculado no laudo.

A PF pediu documentos capazes de detalhar as despesas nos Estados Unidos.

Michael Brian Davis, sócio americano da Go Up, informou que não entregaria voluntariamente documentos societários, contábeis, fiscais, bancários e contratuais sem uma ordem da Justiça americana.

A produtora sustenta que todos os recursos recebidos foram usados na produção e que os repasses foram informados à Justiça.

O celular de Vorcaro virou outra disputa dentro do STF

O conflito sobre acesso às informações não ficou restrito à divulgação pública dos processos.

Cristiano Zanin, Gilmar Mendes e Alexandre de Moraes pediram acesso à íntegra dos dados extraídos do celular de Vorcaro.

Mendonça se posicionou contra a entrega naquele momento, alegando que a liberação poderia prejudicar investigações ainda em andamento.

A PF informou depois a Fachin que mantinha o material original preservado e tinha condições técnicas de produzir cópias idênticas. Os dados acabaram sendo fornecidos aos ministros.

Na prática, a discussão passou a envolver não apenas o que o público poderia conhecer, mas também quanto do material completo estava disponível aos próprios ministros que julgavam desdobramentos do caso.

Há outra investigação chegando ao mesmo filme

Em paralelo à investigação sobre o dinheiro de Vorcaro, relatada por André Mendonça, outra frente chegou às empresas ligadas a Dark Horse por um caminho diferente: recursos públicos.

Segundo a PF, a operação apura uma organização formada por agentes públicos e privados suspeita de direcionar recursos para empresas subcontratadas irregularmente e de tentar ocultar desvios.

A PF identificou transferências de R$ 645,4 mil feitas pelo deputado diretamente para a Go Up, produtora do longa, e questionou o lastro financeiro desses pagamentos.

Também existe uma cadeia financeira sob investigação envolvendo entidades que receberam emendas destinadas por Frias e empresas relacionadas à produtora.

A PF procura saber se parte desses recursos públicos chegou ao núcleo empresarial ligado ao filme.