Flávio Bolsonaro não aparece mais no caso Dark Horse apenas como o político que pediu dinheiro a Daniel Vorcaro para financiar um filme sobre Jair Bolsonaro.

Desde 22 de julho, o senador e candidato à Presidência é formalmente investigado pela Polícia Federal por suspeitas de corrupção, lavagem de dinheiro, evasão de divisas e outros delitos relacionados ao financiamento da produção.

A investigação foi aberta pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, depois de um pedido da PF e com concordância da Procuradoria-Geral da República. A existência do procedimento só se tornou pública agora, com a retirada do sigilo de documentos do caso Banco Master.

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Mas o ponto central da investigação vai além de descobrir para onde foi o dinheiro.

A PGR quer saber se os recursos colocados por Vorcaro no projeto tinham apenas finalidade privada, financiar o filme, ou se existiu alguma relação entre esse financiamento e a atuação de Flávio como senador.

Por que Flávio entrou na investigação

A Polícia Federal afirma ter encontrado uma relação direta entre Flávio e Vorcaro nas negociações do Dark Horse.

Segundo a representação apresentada ao STF, Flávio participou de reuniões, cobrou pagamentos, acompanhou o andamento das gravações e manteve contato com Vorcaro quando os repasses atrasavam.

Em documentos encontrados no celular do ex-banqueiro, os investigadores também localizaram um acordo que previa até US$ 24 milhões para o projeto.

Em setembro de 2025, por exemplo, Flávio enviou mensagem a Vorcaro cobrando recursos porque a produção estava sob pressão para cumprir compromissos com o ator Jim Caviezel e o diretor Cyrus Nowrasteh.

Em novembro, já perto da primeira grande operação contra o Master, Flávio tentou falar com Vorcaro e enviou uma mensagem reafirmando apoio ao banqueiro e pedindo uma orientação.

Esse conjunto levou PF e PGR a entenderem que a relação precisava ser investigada para além de uma simples aproximação entre um político e um empresário.

O que a PGR quer encontrar no mandato

É aqui que a investigação ganha uma dimensão diferente.

O procurador-geral da República, Paulo Gonet, pediu que fossem levantadas propostas apresentadas ou apoiadas por Flávio no Congresso que pudessem interessar ao Banco Master, a empresas do grupo ou ao próprio Daniel Vorcaro.

A pergunta é simples: houve alguma contrapartida?

Para uma eventual acusação de corrupção, não basta mostrar que Vorcaro colocou dinheiro em um projeto defendido por Flávio. Os investigadores precisam procurar uma ligação entre essa vantagem e algum ato relacionado à função pública do senador.

Por isso, a PGR quer comparar os interesses de Vorcaro com a atuação parlamentar de Flávio.

Até agora, os documentos tornados públicos não identificam um projeto, voto ou outra medida específica do senador como contrapartida pelo financiamento. É justamente essa possível ligação que a investigação tenta esclarecer.

André Mendonça conduz a frente ligada ao Banco Master. Nela, o foco é o dinheiro de Vorcaro, a forma como os recursos foram enviados para o projeto e a possível participação de Flávio e de outros envolvidos.

Os dois caminhos chegam ao mesmo filme, mas partem de suspeitas diferentes.

Essa divisão também virou uma disputa dentro do Supremo.

A defesa de Flávio fez pelo menos quatro pedidos em julho para que os assuntos relacionados ao Dark Horse fossem concentrados com André Mendonça. Os advogados argumentam que Mendonça já analisava investigações relacionadas ao caso e, por isso, deveria permanecer responsável pelos novos procedimentos.

Parte da investigação permaneceu com Dino porque surgiu dentro de processos sobre emendas parlamentares, tema que já estava sob sua relatoria.

A disputa ganhou peso político: Mendonça chegou ao Supremo por indicação de Jair Bolsonaro; Dino foi indicado por Lula, adversário de Flávio na eleição presidencial.

O que Flávio diz

Flávio nega irregularidades.

Ele afirma que o dinheiro de Vorcaro foi um investimento privado no filme e passou a defender publicamente a abertura dos documentos, dizendo que a transparência mostrará que não houve crime.

A posição de cobrar investigação do Master também não começou agora. Em maio, no Congresso, Flávio defendeu a instalação de uma CPMI e disse que queria Vorcaro e Augusto Lima prestando esclarecimentos sobre suas relações com autoridades, inclusive com ele próprio.

Agora, porém, a pergunta enfrentada por Flávio é mais específica.

A investigação tenta descobrir se sua participação terminou na busca por financiamento privado para um projeto político e cinematográfico ou se a relação com Vorcaro alcançou também o exercício do mandato.

Essa resposta dependerá do rastreamento do dinheiro, da análise das mensagens e, principalmente, da busca por possíveis atos parlamentares relacionados aos interesses do Banco Master.