O ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal, ampliou neste domingo (13) a investigação sobre recursos públicos que cercam a produção de “Dark Horse”, filme sobre Jair Bolsonaro. Ao incorporar ao caso federal uma investigação conduzida pela Polícia Civil de São Paulo, Dino afirmou que se fortaleceu a hipótese de um único esquema de desvio de verbas e registrou uma linha de apuração que alcança possíveis vínculos com o PCC. Mário Frias aparece na decisão, ainda no campo das hipóteses investigativas, como possível liderança dessa estrutura.
A mudança é importante porque junta peças que até agora estavam sendo investigadas por caminhos diferentes. De um lado estão emendas parlamentares federais destinadas por Frias a entidades sob suspeita. Do outro, um contrato milionário da Prefeitura de São Paulo com uma dessas entidades. A PF sustenta que as movimentações encontradas entre pessoas, organizações e empresas não parecem episódios separados, mas partes de um mesmo circuito financeiro.
O contrato de Wi-Fi entrou no centro da investigação
O Instituto Conhecer Brasil, o ICB, assinou com a Prefeitura de São Paulo em junho de 2024 um acordo de R$ 108 milhões para implantar e operar 5 mil pontos de Wi-Fi público em comunidades da capital. No fim de 2025, a parceria recebeu um aditivo de R$ 49,18 milhões e teve a vigência prorrogada até dezembro de 2026. Karina Ferreira da Gama, ligada ao ICB, também é dona da Go Up Entertainment, produtora de “Dark Horse”.
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Foi justamente ao investigar esse contrato que a Polícia Civil paulista encontrou documentos que levantaram novas suspeitas. No pedido para acessar informações financeiras, investigadores citaram faturas emitidas em sequência, na mesma data e com vencimentos iguais, sem documentos que comprovassem os serviços. Também apontaram uma nota fiscal de R$ 2 milhões por supostos reparos técnicos que foi cancelada no sistema municipal no próprio dia da emissão, mas teria aparecido posteriormente na prestação de contas.
Esses elementos levaram a polícia paulista a pedir dados financeiros ao Coaf. O pedido ainda estava sendo discutido na Justiça de São Paulo. Com a chegada do inquérito ao Supremo, Dino considerou que já havia elementos suficientes e autorizou a requisição.
Por que Mário Frias ganhou um papel maior no caso
Na representação reproduzida por Dino, a PF descreve movimentações envolvendo Frias, o ICB, a empresa Complexsys e a Academia Nacional de Cultura. Segundo os investigadores, a Complexsys recebeu transferências feitas diretamente pelo deputado e também devolveu valores ao próprio ICB, além de enviar recursos a outra organização inserida no mesmo grupo investigado.
Para a PF, esse vaivém forma um “circuito financeiro fechado”, no qual recursos circulam entre entidades, empresas e pessoas ligadas ao mesmo núcleo. A polícia também afirma ter encontrado pagamentos de Frias à Go Up em valores considerados incompatíveis com os rendimentos declarados pelo parlamentar e com os créditos identificados em suas contas.
É a partir desse conjunto que a PF deixa de tratar Frias apenas como o deputado que apresentou as emendas. Na representação, os investigadores o classificam como participante ativo da engrenagem financeira e “agente central” da estrutura sob apuração. Ao analisar o material paulista, Dino foi além e escreveu que, “no terreno hipotético da investigação”, Frias ocuparia papel de liderança na suposta arquitetura criminosa.
O que a decisão diz sobre o PCC
A referência ao PCC aparece no ponto em que Dino explica por que considera necessário reunir as investigações e manter a Polícia Federal no caso. O ministro afirma haver indícios de um único sistema delitivo, abastecido também por emendas federais, com atos que alcançariam possíveis vínculos com a facção. Isso poderia dar à investigação uma dimensão interestadual.
O documento não estabelece uma ligação direta entre Mário Frias e o PCC, nem afirma que a facção financiou “Dark Horse”. São duas peças dentro da mesma hipótese investigativa: a possível conexão da estrutura com a facção e o papel atribuído ao deputado dentro do núcleo financeiro analisado.
Dino coloca as provas nas mãos da PF
A decisão muda também quem terá controle direto das provas. Dino mandou que todo o material produzido pela investigação paulista tramite publicamente e determinou a transferência à Polícia Federal dos celulares, computadores, documentos e dados brutos obtidos pela Polícia Civil.
O ministro também autorizou os Relatórios de Inteligência Financeira do Coaf pedidos pelos investigadores. Segundo a própria decisão, esses dados serão usados para confirmar ou descartar os caminhos que a investigação está seguindo. Ou seja: a suspeita de um circuito de dinheiro já existe, mas agora os investigadores terão acesso a uma camada que pode mostrar de onde os recursos saíram, por quais contas passaram e onde terminaram.
A Operação Make Up, deflagrada pela PF na quinta-feira (10), já havia cumprido 49 mandados de busca em quatro estados e no Distrito Federal. A PF investiga peculato, falsidade documental, lavagem de dinheiro, organização criminosa e crimes licitatórios e afirma ter identificado movimentações de centenas de milhões de reais entre empresas do grupo investigado.
Dark Horse também virou disputa dentro do STF
O filme está no centro de duas grandes linhas de investigação. A frente conduzida por Dino acompanha a possível utilização e circulação de recursos públicos, especialmente emendas parlamentares e agora o dinheiro do contrato municipal. Já André Mendonça conduz a investigação sobre o dinheiro ligado a Daniel Vorcaro e ao Banco Master usado no financiamento da produção.
A defesa de Flávio Bolsonaro pediu repetidamente que as investigações sobre “Dark Horse” fossem concentradas com Mendonça, primeiro ministro a receber um caso envolvendo o filme. Foram ao menos quatro pedidos entre julho e agosto. A defesa argumenta que dividir as apurações cria risco de decisões contraditórias. A frente das emendas, porém, continuou com Dino, que agora sustenta que o inquérito paulista trata do mesmo conjunto de fatos e provas dessa investigação.
Na prática, a decisão deste domingo faz mais do que abrir documentos. Dino está concentrando sob uma mesma investigação federal as provas sobre o caminho do dinheiro público, enquanto outra frente do Supremo continua tentando reconstruir o financiamento privado ligado a Vorcaro. O filme passou a ser o ponto em que essas diferentes trilhas financeiras se encontram.
O que dizem os investigados
Mário Frias nega irregularidades. Após a operação de quinta-feira, chamou a ação da PF de “cortina de fumaça” em ano eleitoral e afirmou que as emendas destinadas por ele eram públicas e transparentes. Disse ainda que colaborará com a investigação e entregará os documentos solicitados.
Karina Gama afirmou neste domingo que recursos de emendas parlamentares não foram usados para financiar o filme. Segundo ela, o dinheiro enviado por Frias à Go Up era de origem pessoal e foi destinado a despesas da produção. A defesa considerou positiva a abertura dos autos.
A Prefeitura de São Paulo afirma que não identificou irregularidades na parceria com o ICB, diz colaborar com as autoridades e sustenta que a documentação do contrato e da prestação de contas está disponível nos sistemas públicos municipais.
A próxima etapa será financeira: o Coaf deverá fornecer informações capazes de mostrar se o fluxo identificado pelos investigadores corresponde a operações legítimas entre empresas e entidades ou se houve circulação e ocultação de dinheiro público como suspeitam PF e Polícia Civil.



