A Polícia Federal colocou nesta quinta-feira (10) no centro de uma operação o deputado Mário Frias (PL-SP) e pessoas e entidades ligadas à produção de “Dark Horse”, filme sobre a trajetória de Jair Bolsonaro.

A Operação Make Up cumpre 49 mandados de busca e apreensão em São Paulo, Rio de Janeiro, Ceará e Distrito Federal. Segundo a PF, a investigação tenta reconstruir o caminho de recursos públicos enviados por emendas parlamentares e depois repassados entre organizações, empresas e prestadores de serviços.

A suspeita da polícia é de que agentes públicos e privados tenham direcionado dinheiro para empresas subcontratadas sem comprovação dos serviços. A PF afirma que as movimentações entre empresas investigadas chegam à casa das centenas de milhões de reais e apura crimes como peculato, falsidade documental, lavagem de dinheiro e organização criminosa.

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Por que Mário Frias entrou no centro da investigação

Frias ocupa dois lados importantes dessa história. Como deputado, destinou emendas a entidades comandadas por Karina Ferreira da Gama. Ao mesmo tempo, atua como roteirista e produtor-executivo de “Dark Horse”, cuja produtora, Go Up Entertainment, também pertence a Karina.

Agora surgiu um terceiro elo: o dinheiro.

A PF identificou que Frias transferiu diretamente R$ 645,4 mil para a Go Up entre 10 de novembro e 30 de dezembro de 2025, período que coincide com as filmagens do longa. Os investigadores passaram a questionar de onde vieram os recursos usados pelo deputado para bancar esses pagamentos, diante dos rendimentos e créditos encontrados em suas contas.

No mesmo intervalo, o Coaf identificou cerca de R$ 19 milhões em movimentações consideradas atípicas nas contas da Go Up, somando entradas e saídas. Entre os valores recebidos aparecem os repasses de Frias e outros financiadores ligados ao entorno político do projeto.

É esse encontro entre dinheiro público, entidades beneficiadas por emendas e a produtora do filme que a PF tenta desmontar.

O caminho passa por Karina Gama

Karina é sócia da Go Up, mas também preside o Instituto Conhecer Brasil, o ICB, entidade que recebeu recursos públicos destinados por Frias.

Uma das emendas, de R$ 1 milhão, deveria financiar um projeto de empreendedorismo estudantil em Pirassununga, no interior paulista. Segundo os dados expostos na investigação, o projeto não foi executado.

A investigação também encontrou empresas que receberam recursos de organizações ligadas a Karina e, em seguida, fizeram pagamentos para estruturas próximas à produtora. É justamente essa circulação que levou PF e CGU a procurar contratos, notas fiscais, serviços prestados e a origem de cada transferência.

Frias já havia negado ao STF que suas emendas tivessem sido direcionadas ao filme. Sua defesa sustentou que os recursos tinham finalidade social e que a Câmara não havia identificado irregularidades na apresentação das emendas.

O mesmo filme, dois caminhos de dinheiro

A operação de hoje abre uma distinção importante para entender o tamanho do caso.

Flávio Dino conduz a investigação que segue dinheiro público: emendas parlamentares, entidades beneficiadas e empresas contratadas.

Na quarta-feira (9), Mendonça homologou a colaboração de Antônio Carlos Freixo Júnior, o “Mineiro”, que relatou o envio de pouco mais de US$ 12 milhões ao fundo Havengate, estrutura ligada ao financiamento do filme.

O resultado é que investigadores diferentes chegaram ao mesmo núcleo por caminhos diferentes: uma frente segue o dinheiro de Vorcaro; outra segue emendas e contratos públicos. No meio delas aparecem o filme, a Go Up e personagens que participaram de sua produção.

Flávio reage e fala em interferência eleitoral

Flávio Bolsonaro não é alvo da Operação Make Up, mas sua relação com o filme tornou a operação imediatamente política.

Em campanha nesta quinta, ele acusou Dino de tentar interferir nas eleições e disse que “Dark Horse” não recebeu “um centavo de dinheiro público”. A defesa política é justamente separar o financiamento privado que Flávio buscou para o longa dos recursos públicos agora rastreados pela PF.

Os mandados, porém, não foram decididos nesta quinta. A PF pediu a operação em 28 de agosto e Dino autorizou as medidas em 3 de setembro. As buscas foram executadas agora, em meio à crise aberta no STF sobre as diferentes investigações ligadas ao Banco Master e ao filme.

Dino também impôs restrições para impedir que Frias e outros investigados deixem o país sem autorização e determinou que eles não mantenham contato entre si durante a investigação.

A operação deve agora permitir à PF comparar documentos apreendidos, contratos, contas bancárias e informações de empresas. O ponto central passa a ser descobrir quanto do dinheiro que circulou nessa rede veio de recursos públicos e onde ele terminou.