Donald Trump voltou a deixar clara nesta segunda-feira (5) sua preferência política por Flávio Bolsonaro na disputa pela Presidência do Brasil.
Questionado sobre o resultado do primeiro turno, o presidente dos Estados Unidos classificou o desempenho de Flávio como uma “grande vitória”, disse que foi “muito, muito grande” e chamou o resultado de “incrível”. Também previu uma eleição apertada no segundo turno.
Flávio terminou a votação de domingo em primeiro lugar, com 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% de Lula. Os dois voltam às urnas em 25 de outubro.
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A fala de Trump, porém, não é um elogio isolado depois da eleição. Ao longo dos últimos meses, Flávio construiu canais diretos com o núcleo do governo americano e apresentou a Washington uma proposta de aproximação em áreas que interessam diretamente aos Estados Unidos: segurança, comércio, política externa e, de forma especialmente estratégica, minerais críticos.
A preferência por uma vitória de Flávio precisa ser entendida dentro desse quadro.
Segundo Flávio, entraram nessas conversas o combate ao crime organizado, tarifas, liberdade de expressão e terras raras. Depois da reunião com Trump, ele apresentou publicamente um eventual governo seu como mais próximo dos Estados Unidos.
A aproximação ganhou um significado ainda maior poucos dias depois.
A declaração ajuda a explicar a lógica de Washington: o Brasil de Lula não é tratado pelo atual governo americano como parte do grupo regional mais próximo dos EUA. A eleição abre a possibilidade de isso mudar.
Flávio oferece justamente essa mudança.
Segurança pública virou uma convergência concreta
O primeiro grande exemplo apareceu no combate ao crime organizado.
Dois dias depois, em 28 de maio, Marco Rubio assinou formalmente a designação das duas facções. O ato passou a valer com sua publicação no Federal Register em 5 de junho. O documento americano não atribui a decisão ao pedido de Flávio, mas a sequência mostra como uma pauta defendida pessoalmente pelo candidato brasileiro coincidiu com uma medida adotada imediatamente depois pelo governo Trump.
O tema voltou à eleição em setembro. Trump acusou o governo brasileiro de falhar no enfrentamento ao PCC e ao Comando Vermelho justamente na reta final do primeiro turno.
Os minerais críticos ajudam a explicar o que está em jogo
É nas terras raras e nos minerais críticos que o interesse estratégico fica ainda mais evidente.
O Brasil possui cerca de 21 milhões de toneladas de reservas de terras raras, aproximadamente 23% do total mundial, o que coloca o país na segunda posição global. Ao mesmo tempo, a China mantém enorme domínio sobre a cadeia: respondeu por cerca de 69% da produção mundial em 2025 e controla mais de 85% do refino, segundo levantamento do CETEM.
Esses minerais entram na produção de ímãs, veículos elétricos, turbinas, eletrônicos e equipamentos militares. Não são tratados por Washington apenas como matéria-prima comercial.
Em julho, a própria Casa Branca declarou formalmente que a dependência americana de fontes estrangeiras de minerais críticos representa risco à defesa e à segurança nacional dos Estados Unidos. Trump determinou novas ações para garantir cadeias mais seguras de fornecimento.
É justamente nesse ponto que Flávio apresentou uma oferta política direta a Trump.
Depois do encontro no Salão Oval, afirmou que o Brasil seria “a única alternativa real à China para o mundo livre” e prometeu, se eleito, uma “parceria estratégica de longo prazo” com os Estados Unidos em terras raras e minerais críticos.
Isso torna a eleição brasileira relevante para Washington muito além da afinidade ideológica.
Para os EUA, uma administração brasileira mais próxima poderia facilitar acordos justamente em uma cadeia estratégica na qual o governo Trump tenta diminuir sua vulnerabilidade diante de Pequim.
Para Flávio, a promessa oferece outra narrativa: a de que uma aproximação com Washington poderia trazer investimentos, tecnologia e acesso político ao maior centro de poder das Américas.
Lula segue uma lógica diferente para os mesmos minerais
O governo Lula também colocou os minerais críticos entre suas prioridades.
Em setembro, o presidente sancionou a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos. A nova lei busca aumentar pesquisa, mineração, beneficiamento e transformação desses recursos dentro do Brasil, com ênfase em agregação de valor e soberania sobre a utilização das reservas.
A diferença, portanto, não é entre um governo interessado nos minerais e outro que não está.
A disputa é sobre como o Brasil vai usar esse patrimônio e com quem pretende construir sua cadeia industrial.
Flávio já apresentou a Trump os minerais brasileiros como alternativa estratégica à China. Lula tenta preservar uma política externa que mantenha simultaneamente relações profundas com Washington, Pequim e o Brics, enquanto aumenta o processamento dentro do país.
É exatamente aí que uma eleição brasileira passa a ter consequências geopolíticas.
Tarifas, Pix e comércio também aproximaram Flávio de Washington
A mesma lógica apareceu na disputa comercial.
Em julho, Flávio participou formalmente do processo do USTR que discutia a tarifa adicional de 25% contra produtos brasileiros.
O documento enviado por ele aos Estados Unidos não pedia o encerramento da investigação americana. Flávio propôs suspender a tarifa, manter o processo aberto e criar um mecanismo de 180 dias que permitiria retomar a pressão caso não houvesse acordo.
O texto também colocou na negociação Pix, sanções, vistos, Mercosul e o próprio calendário eleitoral.
Trump acabou determinando a aplicação da tarifa de 25% em julho. O USTR afirmou que a medida respondia a divergências envolvendo comércio digital, serviços eletrônicos de pagamento, tarifas, propriedade intelectual, etanol e outros temas.
Mas a movimentação de Flávio mostrou novamente o papel que ele tenta ocupar: não apenas aliado ideológico, mas interlocutor que oferece a Washington um caminho diferente para lidar com o Brasil.
Isso não impede Trump de negociar com Lula enquanto Lula estiver no Planalto. Em agosto, os dois presidentes conversaram por 1h20 e reabriram um canal de negociação comercial.
A diferença é que Flávio promete diminuir os pontos de atrito que hoje fazem parte dessa relação.
A discussão sobre interferência já chegou à Polícia Federal
A presença dos Estados Unidos na disputa brasileira também passou a ser objeto de investigação.
Neste domingo, o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, confirmou que a corporação abriu um procedimento preliminar para apurar um possível esquema de financiamento de uma agenda política no Brasil pelo governo americano que teria, entre seus objetivos, interferir nas eleições.
A investigação começou depois de uma representação da Advocacia-Geral da União relacionada a um programa de US$ 1 milhão destinado a ações contra o que o governo Trump chama de “lawfare” e censura no Brasil. Segundo Andrei, a Diretoria de Inteligência da PF está responsável pela apuração.
O assunto já havia chegado também ao plano internacional. Documentos de reuniões obtidos pela Reuters mostraram que integrantes da Abin relataram a representantes franceses e alemães sua avaliação sobre interferência americana e russa na eleição brasileira. No caso dos EUA, o relato mencionava ações que iriam de “lawfare” a formas abertas de interferência.
Nos próprios Estados Unidos, três senadores democratas enviaram uma carta a Marco Rubio acusando a administração Trump de usar pressão diplomática, tarifas e sanções para tentar influenciar decisões brasileiras e cobrando respeito ao resultado eleitoral.
O presidente do TSE, Kassio Nunes Marques, afirmou no primeiro turno que os sistemas responsáveis por acompanhar riscos internacionais não identificaram interferência estrangeira no processo de votação.
São duas questões diferentes: uma é alterar urnas, votos ou apuração; outra é usar dinheiro, sanções, comércio, diplomacia, campanhas políticas ou outras formas de pressão para tentar influenciar o ambiente em que uma eleição acontece.
É essa segunda dimensão que está sob investigação.
O que Trump ganha com Flávio — e o que Flávio ganha com Trump
O interesse dos dois lados se encontra em vários pontos.
Flávio ganha uma relação pública com o presidente americano, acesso ao núcleo da Casa Branca e um argumento eleitoral: o de que um governo seu poderia diminuir a tensão com os Estados Unidos e transformar essa proximidade em cooperação econômica, comercial e de segurança.
Trump ganha a perspectiva de ter no comando da maior economia da América Latina um governo mais próximo de sua visão para o continente, justamente quando Washington tenta conter a expansão estratégica chinesa e garantir cadeias de minerais críticos.
A fala desta segunda-feira deve ser lida dentro dessa história.
Quando Trump chama o primeiro lugar de Flávio de uma “grande vitória”, ele não está descobrindo o candidato brasileiro depois da abertura das urnas.
Está reagindo favoravelmente ao avanço de um político que passou meses construindo com seu governo uma agenda comum, e que agora chega ao segundo turno com a possibilidade real de transformar essa aproximação em política de Estado.



