O presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, conversaram por telefone durante cerca de 1h20 nesta sexta-feira (21). Segundo o relato divulgado pelo Palácio do Planalto, Lula contestou as justificativas usadas pelos Estados Unidos para impor novas tarifas ao Brasil, enquanto Trump propôs que as equipes dos dois países voltem a se reunir para tentar avançar nas negociações.

A disposição de Trump para retomar o diálogo ocorre pouco mais de um mês depois de o próprio presidente americano determinar a imposição de uma tarifa adicional de 25% sobre parte dos produtos brasileiros. A decisão foi anunciada pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) em 15 de julho.

O contraste coloca novamente o relacionamento direto entre Lula e Trump no centro da crise bilateral. Não é a primeira vez neste ano que uma conversa cordial entre os dois presidentes abre uma rodada de negociações, e a experiência mais recente terminou com uma nova medida de pressão dos Estados Unidos.

Publicidade

Conversas anteriores não impediram nova tarifa

Em 7 de maio, Lula e Trump se reuniram na Casa Branca e determinaram que os dois governos buscassem uma solução negociada para as disputas comerciais. A partir daquele encontro, representantes brasileiros e americanos passaram a realizar sucessivas reuniões de alto nível.

Em 2 de julho, o MDIC informou que já havia ocorrido a quarta dessas reuniões com o representante comercial americano, Jamieson Greer. Na ocasião, o governo brasileiro dizia que o diálogo continuava construtivo e que as equipes discutiam comércio digital, tarifas preferenciais, combate à corrupção, propriedade intelectual, etanol e desmatamento ilegal.

Em 14 de julho, Brasil e Estados Unidos realizaram a quinta reunião de alto nível desde o encontro entre Lula e Trump. O MDIC registrou que aquele canal havia sido criado por decisão dos dois presidentes.

No dia seguinte, porém, o USTR anunciou a tarifa adicional de 25%. O comunicado americano foi explícito ao afirmar que a medida estava sendo tomada por determinação de Donald Trump.

A sequência é relevante para a conversa desta sexta-feira: o presidente americano volta a se colocar como interlocutor para buscar uma saída negociada para uma disputa que também avançou sob seu comando.

Depois da imposição das tarifas, o governo brasileiro passou a preparar respostas. O Trendahora mostrou como a Lei da Reciprocidade entrou na estratégia brasileira contra as medidas dos Estados Unidos e acompanhou a abertura de novas frentes comerciais entre os dois países.

Trump volta a abrir espaço para negociação

Na ligação desta sexta-feira, Lula voltou a sustentar que as alegações americanas usadas para justificar as medidas contra o Brasil são infundadas.

O governo dos Estados Unidos questiona, entre outros pontos, políticas brasileiras relacionadas a comércio digital e meios eletrônicos de pagamento, tarifas preferenciais, combate à corrupção, propriedade intelectual, acesso do etanol ao mercado brasileiro e desmatamento ilegal.

Lula defendeu a preservação dos vínculos econômicos entre os dois países. Segundo o relato brasileiro, Trump concordou com a importância da relação comercial e propôs que as equipes responsáveis retomem as reuniões em curto prazo.

Até o momento, o resultado concreto divulgado da conversa é essa nova abertura para negociação. Não foi anunciada alteração nas tarifas que já estão em vigor.

Esse detalhe torna a próxima rodada especialmente relevante. A negociação aberta após o encontro de maio chegou a cinco reuniões de alto nível sem impedir a tarifa de 25%. Agora, o canal está sendo novamente impulsionado diretamente pelos presidentes.

Segurança também entra no novo canal

A conversa foi além do comércio. Lula apresentou a Trump medidas do governo brasileiro contra o crime organizado e defendeu a estratégia nacional de atacar as estruturas financeiras das facções e reforçar o sistema prisional.

O presidente brasileiro também reiterou a posição de que organizações criminosas brasileiras, apesar da violência e do terror que impõem à população, não devem ser equiparadas juridicamente a organizações terroristas.

Segundo o Planalto, Trump demonstrou interesse em ampliar a cooperação nessa área e afirmou que mobilizaria funcionários de alto escalão de seu governo para dar continuidade aos entendimentos.

O presidente americano não anunciou quais integrantes da administração assumirão essa etapa. A sinalização, porém, coloca também a área de segurança sob acompanhamento direto da cúpula do governo dos Estados Unidos.

O teste será o que acontece depois da ligação

O histórico dos últimos meses cria um parâmetro claro para avaliar o novo movimento.

Em maio, Lula e Trump tiveram um encontro considerado positivo e abriram uma negociação direta. As equipes realizaram cinco reuniões de alto nível. Mesmo assim, em julho, Trump determinou a aplicação da tarifa adicional de 25%.

Agora, depois da escalada comercial e da reação brasileira, os dois presidentes voltam a acionar o mesmo canal.

A diferença entre o clima das conversas presidenciais e as decisões adotadas posteriormente pelos Estados Unidos tornou-se uma das características da atual relação bilateral. A nova rodada mostrará se a disposição manifestada por Trump nesta sexta-feira produzirá uma mudança concreta nas medidas americanas ou dará início a outro ciclo de negociação sem alteração imediata da pressão sobre o Brasil.