Donald Trump colocou o governo brasileiro no centro de uma nova cobrança sobre segurança pública a menos de três semanas do primeiro turno das eleições.
Em documento enviado ao Congresso dos Estados Unidos, o presidente americano afirmou que o Brasil falhou em confrontar o PCC e o Comando Vermelho e cobrou medidas mais duras contra as duas organizações. O primeiro turno brasileiro ocorre em 4 de outubro.
A acusação chama atenção também pelo formato. O Brasil não está entre os 23 países classificados pelos Estados Unidos como grandes produtores ou rotas de drogas e tampouco aparece entre os quatro países considerados formalmente em descumprimento de suas obrigações antidrogas. Mesmo assim, Trump decidiu citar separadamente o governo brasileiro na parte narrativa do documento.
Publicidade
O momento político torna a cobrança especialmente relevante. Segurança pública é uma das principais bandeiras de Flávio Bolsonaro, adversário de Lula na eleição, e a discussão sobre PCC e Comando Vermelho passou nos últimos meses diretamente pela relação do senador com o governo Trump.
Flávio levou o tema pessoalmente a Trump
Em 26 de maio, Flávio foi recebido por Trump no Salão Oval da Casa Branca. Ao sair, disse que havia pedido diretamente ao presidente americano que PCC e Comando Vermelho fossem classificados pelos Estados Unidos como organizações terroristas.
No dia seguinte, voltou à Casa Branca para encontros com o vice-presidente JD Vance e o secretário de Estado Marco Rubio e afirmou ter repetido o pedido.
Em 28 de maio, um dia depois desse segundo encontro, Rubio assinou a designação formal das duas facções como Organizações Terroristas Estrangeiras. A medida passou a valer com a publicação no Federal Register em 5 de junho. A sequência das datas é objetiva, mas o ato americano não afirma que a decisão tenha sido tomada em razão do pedido de Flávio.
A campanha do senador passou a usar a classificação americana politicamente. Antes mesmo da viagem, Flávio já dizia no Senado que o governo Lula não aceitava classificar PCC e CV como terroristas. Depois da decisão dos EUA, afirmou que o Brasil precisava “fazer o dever de casa”.
A relação com Washington não parou na segurança pública
A aproximação com o governo Trump continuou em outros temas diretamente ligados à disputa eleitoral.
Em julho, Flávio participou de uma audiência do USTR, o escritório comercial dos Estados Unidos, para discutir a tarifa de 25% proposta contra produtos brasileiros. Ele argumentou ao governo americano que a medida, se aplicada antes da eleição, poderia beneficiar politicamente Lula.
Na prática, Flávio passou a manter canais com Washington simultaneamente em dois assuntos de forte impacto doméstico: segurança pública e a disputa econômica entre Brasil e Estados Unidos.
O próprio governo Trump já havia colocado a eleição brasileira dentro de sua política oficial para o país. Em uma ordem executiva de julho de 2025, a Casa Branca justificou medidas contra o Brasil dizendo que ações brasileiras poderiam comprometer uma eleição presidencial “livre e justa” em 2026 e citou diretamente o tratamento dado a Jair Bolsonaro.
Brasil rebate e aponta proposta sem resposta
O governo Lula reagiu dizendo que Trump desconsiderou medidas adotadas pelo Brasil contra o crime organizado.
O Ministério da Justiça destacou a nova legislação contra facções, operações de segurança e ações para atingir financeiramente organizações criminosas. Nesta semana, uma operação integrada realizada em 20 unidades da Federação resultou, segundo balanço oficial, em 137 prisões e cerca de R$ 510 milhões em bens, valores e bloqueios.
Brasília também colocou outra questão sobre a mesa: segundo o Ministério da Justiça, Lula entregou pessoalmente a Trump, em 7 de maio, uma proposta para ampliar a cooperação contra lavagem de dinheiro, tráfico de armas e crime organizado, incluindo compartilhamento de inteligência.
O governo brasileiro afirma que ainda espera uma resposta americana.
Isso cria uma disputa clara entre os dois governos. Washington afirma que o Brasil não está fazendo o suficiente contra as facções. Brasília responde que está combatendo esses grupos e que uma proposta concreta de cooperação apresentada ao próprio Trump permanece sem resposta.



