O senador Flávio Bolsonaro pediu ao governo dos Estados Unidos que suspenda a proposta de tarifa de 25% contra produtos brasileiros, mas sem abandonar a investigação comercial aberta contra o Brasil. Em documento enviado ao Escritório do Representante Comercial dos EUA, o USTR, ele propôs manter a pressão americana por meio de um mecanismo de negociação com gatilho de 180 dias.

A audiência pública do USTR ocorre dentro da investigação da Seção 301 sobre práticas atribuídas ao Brasil em áreas como comércio digital, serviços de pagamento eletrônico, tarifas preferenciais, combate à corrupção, propriedade intelectual, etanol e desmatamento ilegal.

A agenda oficial do órgão americano colocou Flávio no painel desta terça-feira, 7 de julho, ao lado de representantes da Confederação Nacional da Indústria e da Abicalçados. O USTR informou que a audiência não teria transmissão ao vivo e que a transcrição completa seria publicada posteriormente.

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Atualização: documento explicado pelo Trendahora

Em uma nova análise, o Trendahora detalhou a estrutura do documento enviado por Flávio ao USTR. O ponto central é que o senador não pediu apenas a suspensão da tarifa: ele propôs manter a investigação americana aberta, criar uma janela de negociação de 180 dias e preservar a possibilidade de retomada da pressão dos EUA.
A análise também mostra que o Pix entra no documento como tema geopolítico. Flávio defende o sistema contra tarifa ou sanção direta, mas propõe impedir sua integração a redes transfronteiriças de liquidação fora da arquitetura financeira ocidental.
Leia: Documento mostra a troca de Flávio aos EUA: tarifa suspensa, pressão mantida


O ponto central do documento não é apenas a oposição à tarifa. Flávio pede que o USTR suspenda a ação proposta e abra uma negociação bilateral, mas afirma que não pede ao órgão americano que abandone o registro da investigação contra o Brasil.

A proposta, na prática, tenta separar duas mensagens. De um lado, o senador diz ser contra a tarifa sobre produtos brasileiros. De outro, defende que os Estados Unidos preservem sua alavanca de pressão enquanto uma negociação é aberta.

Eleição entra no centro do argumento

No documento, Flávio se apresenta como senador, figura da oposição parlamentar e pré-candidato à Presidência na eleição de outubro de 2026. O texto afirma que o cenário político brasileiro será redefinido em cerca de 90 dias e argumenta que uma medida econômica americana tomada agora poderia ser usada politicamente no Brasil.

A proposta apresentada ao USTR prevê um mecanismo de “snap-back” de 180 dias, prorrogável por mais 90 dias se houver negociação de boa-fé e avanço concreto. Isso significa suspender a implementação da tarifa, mas manter a possibilidade de retomada automática da medida.

Segundo o documento, o atual governo teria esse período para negociar. Em caso de vitória da oposição, o presidente eleito indicaria imediatamente um negociador para conduzir as conversas com os Estados Unidos.

O efeito político é o principal diferencial do episódio. Flávio tenta impedir que a tarifa seja aplicada agora por fins eleitorais, mas também defende que a investigação continue como instrumento de pressão até depois da eleição.

Pix, sanções e vistos

O documento também trata do Pix. Flávio afirma que o sistema brasileiro é uma infraestrutura pública soberana e diz que tarifa ou sanção seriam medidas inadequadas contra o arranjo de pagamentos.

Ao mesmo tempo, ele propõe como “sinal decisivo” um compromisso legislativo para impedir que o Pix seja interconectado a arranjos transfronteiriços de liquidação considerados “não ocidentais”.

O texto ainda cita sanções financeiras e restrições de visto como instrumentos já disponíveis aos Estados Unidos contra autoridades e familiares. Flávio afirma que não pede a aplicação dessas medidas, mas usa a comparação para argumentar que uma tarifa de 25% atingiria a sociedade brasileira e a economia americana, em vez de alcançar responsáveis específicos.

Mercosul aparece como obstáculo

A crítica ao Mercosul também aparece no documento. Flávio afirma que o Brasil não poderia revogar unilateralmente certas preferências comerciais porque elas estariam vinculadas a instrumentos da Aladi e do Mercosul, citando o ACE-53 como exemplo.

Em seguida, o senador defende que o Brasil busque formas de se libertar de amarras do Mercosul que, segundo ele, impediram governos anteriores de negociar acordos bilaterais com os Estados Unidos. O texto cita o caminho adotado pela Argentina de Javier Milei como precedente a ser examinado.

Esse trecho não equivale a uma defesa explícita de saída do Mercosul. O documento fala em flexibilizar amarras e abrir caminho para acordos bilaterais com Washington.

Pressão comercial vira pauta eleitoral

A audiência sobre tarifa começou como um processo comercial, mas o documento de Flávio desloca parte do debate para a eleição brasileira, para a política externa e para a disputa sobre alinhamento do Brasil com os Estados Unidos.

A posição do senador combina oposição à aplicação imediata da tarifa com defesa de uma negociação em que os EUA preservem poder de pressão. A consequência é que a medida deixa de ser apenas uma discussão sobre exportações e passa a envolver Pix, Mercosul, soberania comercial e a eleição presidencial de 2026.