A trégua que Washington costurou com dificuldade desde abril sofreu seu maior abalo até agora.

Na madrugada desta segunda-feira (8), Israel e Irã trocaram ataques diretos pela primeira vez desde o cessar-fogo. Com mísseis e drones atingindo bases aéreas, instalações petroquímicas e radares em ambos os países. Trump pediu a Netanyahu que suspendesse os ataques para preservar a diplomacia, e uma pausa frágil foi anunciada. Mas o nó que originou a crise, o Líbano, permanece sem solução.

Como a escalada começou

O gatilho foi o Líbano. No domingo (7), forças iranianas lançaram uma onda de mísseis contra o norte de Israel, os primeiros ataques diretos de Teerã desde abril, em retaliação a novos bombardeios israelenses nos subúrbios do sul de Beirute, onde Tel Aviv disse mirar posições do Hezbollah. Os ataques foram os primeiros à capital libanesa desde que Washington anunciou uma extensão do cessar-fogo no Líbano na semana anterior.

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A deterioração da situação já vinha sendo observada há meses. Segundo o primeiro-ministro libanês, Nawaf Salam, Israel realizou 3.491 ataques aéreos no país entre 17 de abril e 7 de junho, além de 407 demolições controladas e seis grandes operações de destruição em áreas próximas à fronteira.

O Irã, desde o início das negociações, condicionou qualquer acordo duradouro com Washington ao fim dos combates israelenses no Líbano. Israel nunca aceitou essa equação. A nova escalada revelou um problema que nunca foi resolvido pelo acordo costurado pelos Estados Unidos.

Ataques em duas direções

Na madrugada desta segunda, o IRGC afirmou ter lançado mísseis contra as bases aéreas israelenses de Nevatim e Tel Nof, em resposta a ataques israelenses contra radares em território iraniano. O exército israelense confirmou a detecção de nova salva de mísseis vindos do Irã.

No Iêmen, os Houthis anunciaram ter lançado salva de mísseis contra Israel e prometeram impedir a navegação marítima israelense no Mar Vermelho.

Trump pressiona Netanyahu, pausa é anunciada

Trump pediu a Netanyahu que suspendesse novos ataques contra o Irã e desse espaço para a diplomacia. O pedido foi atendido temporariamente, segundo autoridade israelense ouvida pela emissora Channel 12 nesta segunda-feira.

Em entrevista ao Financial Times, Trump afirmou que a escalada mais recente não afetaria as negociações com o Irã. "Eu mando. Eu mando em tudo. Ele não manda", disse, em referência a Netanyahu. Em entrevista à Fox News, disse ter pedido a Netanyahu que não retaliasse contra o Irã.

O Irã anunciou no período da tarde que estava interrompendo os ataques, mas advertiu que eles seriam retomados se Israel continuasse com atos de "agressão e hostilidade", incluindo no Líbano. Netanyahu afirmou que os ataques haviam sido interrompidos depois que Israel "acertou o regime do terror em Teerã", mas sinalizou que as operações contra o Hezbollah no sul do Líbano seguiriam.

Petróleo dispara e depois recua

Os preços do petróleo reduziram os ganhos nesta segunda-feira após subirem mais de 5% no início da sessão, na sequência do anúncio do exército iraniano de que a onda de ataques contra Israel havia terminado.

No pico da sessão, o Brent, referência internacional, ultrapassou US$ 97 o barril.

Em meio à crise de abastecimento resultante, a OPEP+ concordou no domingo com seu quarto aumento da meta de produção de petróleo em quatro meses. Os analistas disseram que a decisão teria pouco impacto, uma vez que a maioria dos membros não pode cumprir suas metas devido ao fechamento do estreito ou, no caso da Rússia, aos ataques de drones ucranianos que corroeram sua capacidade de produção.

O Estreito de Ormuz, que antes do conflito respondia por cerca de um quinto do petróleo e gás natural comercializados no mundo, permanece com tráfego quase paralisado.

O que está em jogo nas negociações

As negociações entre EUA e Irã são mediadas pelo Paquistão. Os temas em discussão incluem a liberdade de navegação pelo Estreito de Ormuz, o programa nuclear e balístico iraniano, reconstrução, sanções e um acordo de paz de longo prazo.

A troca de ataques desta segunda ocorre exatamente enquanto Washington e Teerã discutem uma extensão do acordo de cessar-fogo.

Impacto para o Brasil

A escalada chega em momento delicado para a economia brasileira. Com o Brent acima de US$ 97 no pico desta segunda, o risco de pressão adicional sobre os preços dos combustíveis volta à pauta, especialmente em um ambiente em que o Estreito de Ormuz segue praticamente fechado e a OPEP+ não consegue compensar a oferta bloqueada.

A instabilidade no Oriente Médio também pressiona o câmbio. Qualquer novo recuo nas negociações de paz entre EUA e Irã tende a valorizar o dólar como ativo de refúgio, encarecendo importações e adicionando pressão inflacionária ao Brasil.