O Irã discutiu com interlocutores regionais uma proposta para reabrir o Estreito de Ormuz e deixar as negociações sobre seu programa nuclear para uma fase posterior, em uma tentativa de destravar o impasse com os Estados Unidos sem aceitar, de imediato, a principal exigência de Washington.

A proposta foi relatada pela Al Jazeera e também apareceu em apurações da Reuters e da Associated Press. Segundo essas informações, Teerã busca vincular a reabertura da rota marítima ao fim da guerra e à suspensão do bloqueio dos Estados Unidos contra o país, enquanto empurra a discussão nuclear para uma etapa seguinte.

A Casa Branca ainda não confirmou publicamente todos os termos da proposta iraniana. A porta-voz Karoline Leavitt disse que o presidente Donald Trump discutiu o tema com assessores de segurança nacional, mas afirmou que as exigências centrais de Washington continuam as mesmas: o Estreito de Ormuz deve permanecer aberto e o Irã deve entregar seu urânio enriquecido.

Proposta tenta separar Ormuz do tema nuclear

O ponto central da iniciativa iraniana é tentar dividir a negociação em etapas. Primeiro, a guerra terminaria e as partes resolveriam o impasse sobre o bloqueio e a navegação no Golfo Pérsico. Só depois o programa nuclear iraniano voltaria ao centro das conversas.

Essa estrutura tenta responder à pressão internacional pela reabertura de Ormuz, mas evita uma concessão imediata no tema nuclear, justamente o ponto que levou os Estados Unidos e Israel a ampliarem a ofensiva contra o Irã.

Segundo a Reuters, fontes iranianas afirmaram que a proposta prevê uma negociação por fases. A etapa inicial envolveria o fim da guerra e garantias de que Washington não retomaria os ataques. Em seguida, viriam as discussões sobre o bloqueio dos EUA e o futuro do Estreito de Ormuz.

Para os Estados Unidos, porém, esse desenho tende a ser insuficiente. Washington insiste que a questão nuclear precisa estar no centro de qualquer acordo mais amplo.

Casa Branca mantém linha dura

A nova proposta foi discutida por Trump com sua equipe de segurança nacional nesta segunda-feira (27), segundo a Reuters. A Casa Branca não indicou se o governo americano considera o plano aceitável, mas reforçou que as linhas vermelhas do presidente seguem inalteradas.

Na prática, isso mantém o impasse: Teerã tenta transformar Ormuz em porta de entrada para um acordo gradual, enquanto Washington quer resolver ao mesmo tempo a navegação no estreito e o destino do material nuclear iraniano.

Paquistão, Omã e Rússia ganham peso na mediação

A movimentação diplomática ocorreu depois de uma ofensiva do chanceler iraniano Abbas Araghchi por Paquistão, Omã e Rússia. Segundo a Al Jazeera, as conversas em Muscat trataram do Estreito de Ormuz, garantias de segurança regional e da estrutura de um possível acordo.

O Paquistão aparece como um dos principais intermediários entre Teerã e Washington. Já Omã tem peso direto por dividir com o Irã a coordenação do corredor marítimo no Estreito de Ormuz. A Rússia, aliada de longa data do Irã, entra como ator político relevante, embora não tenha poder para garantir sozinha uma solução aceita pelos Estados Unidos.

A proposta iraniana também surge após dias de expectativa por uma nova rodada de negociações em Islamabad. A Reuters informou que as conversas presenciais não avançaram como esperado, mas que contatos indiretos continuam em andamento.

IMO (Organização Marítima Internacional) rejeita pedágios e restrições em estreitos internacionais

A tentativa iraniana de usar Ormuz como instrumento de negociação enfrenta uma camada técnica e jurídica importante. A Organização Marítima Internacional afirmou ao Conselho de Segurança da ONU que a liberdade de navegação não é negociável e que estreitos usados para navegação internacional não podem ser fechados por Estados costeiros.

A IMO também afirmou que não há base legal para impor pedágios, taxas ou condições discriminatórias em estreitos internacionais. A posição atinge diretamente qualquer tentativa de transformar a passagem por Ormuz em moeda de troca permanente.

Segundo a organização, cerca de 20 mil marítimos e quase 2 mil embarcações permaneciam presos no Golfo Pérsico em meio à crise. A entidade também alertou que qualquer interrupção no transporte marítimo afeta a segurança energética e alimentar em escala global.

Por que isso importa para o Brasil

Mesmo sem participação direta do Brasil na negociação, a crise em Ormuz tem impacto potencial para a economia brasileira. O estreito é uma das rotas mais sensíveis do comércio global de energia, e qualquer restrição prolongada tende a pressionar petróleo, frete marítimo, combustíveis, fertilizantes e alimentos.

O Estreito de Ormuz concentra, em tempos normais, cerca de um quinto do petróleo e do gás comercializados no mundo. Esse peso ajuda a explicar por que a disputa deixou de ser apenas militar e passou a envolver pressão diplomática de vários países interessados na reabertura da rota.

Para o Brasil, o risco não está em um envolvimento militar direto, mas no efeito indireto sobre inflação, custos logísticos e expectativas do mercado internacional. Quanto mais tempo durar o impasse, maior a chance de os efeitos aparecerem em energia, produção agrícola e preços de insumos.

Impasse continua

A proposta iraniana mostra que Teerã busca uma saída diplomática, mas também indica que o país ainda tenta preservar margem de pressão sobre os Estados Unidos. Ao separar Ormuz do tema nuclear, o Irã tenta resolver primeiro o ponto que afeta o comércio global e deixar para depois a discussão mais sensível para Washington.

O problema é que essa separação é justamente o que os Estados Unidos tendem a resistir. Para Trump, a abertura de Ormuz e o destino do urânio enriquecido iraniano fazem parte do mesmo pacote.

Com isso, a crise entra em uma nova fase: há uma proposta em circulação, há mediadores tentando aproximar as partes, mas ainda não há sinal público de que Washington aceite retirar o tema nuclear do centro da negociação.