O Irã endureceu sua posição na véspera da rodada de negociações com os Estados Unidos e afirmou nesta sexta-feira, 10, que o avanço diplomático depende de duas condições: a entrada em vigor de um cessar-fogo no Líbano e a liberação de ativos iranianos bloqueados no exterior.

A nova exigência recoloca o Líbano no centro da crise regional poucas horas antes do encontro previsto para sábado no Paquistão e amplia a incerteza sobre a capacidade de Washington e Teerã de transformar a trégua anunciada nesta semana em um processo político mais estável.

Segundo a posição apresentada por autoridades iranianas, essas condições já fariam parte do entendimento esperado entre os dois lados. Até o momento, porém, não houve confirmação pública da Casa Branca nesse sentido.

Pressão iraniana na véspera das negociações

O presidente do Parlamento iraniano, Mohammad Baqer Qalibaf, afirmou que as negociações não devem começar enquanto essas exigências não forem cumpridas. O chanceler Abbas Araqchi também defendeu a interrupção dos ataques israelenses no território libanês, reforçando a linha de que a situação no Líbano não pode ser tratada como um tema separado da trégua entre EUA e Irã.

Do lado americano, a expectativa oficial ainda é de avanço. O vice-presidente JD Vance, que liderará a delegação dos Estados Unidos, disse esperar um resultado positivo, mas indicou que Washington não pretende aceitar manobras que considere protelatórias.

Ao mesmo tempo, Donald Trump elevou o tom ao afirmar, em entrevista ao New York Post, que navios de guerra americanos estavam sendo recarregados com munição para retomar ataques ao Irã caso as negociações fracassem.

Líbano segue no centro da crise

O ponto mais sensível para Teerã é que os ataques israelenses no Líbano continuaram mesmo após o anúncio da trégua. Israel e os Estados Unidos sustentam que a campanha contra o Hezbollah não faz parte do acordo, mas o Irã trata essa frente como peça central para qualquer descompressão regional.

Nesta sexta-feira, novos ataques israelenses foram registrados no sul do Líbano. Em Nabatieh, um bombardeio contra um prédio governamental matou 13 integrantes das forças de segurança do Estado libanês, segundo o presidente Joseph Aoun. O episódio ampliou a pressão sobre a rodada diplomática de sábado e reforçou o argumento iraniano de que não há base sólida para avançar enquanto a frente libanesa permanecer aberta.

Autoridades libanesas afirmam que, desde 2 de março, ao menos 1.830 pessoas morreram em ataques israelenses no país. Esse quadro ajuda a explicar por que o Líbano voltou a ocupar posição central no cálculo político de Teerã às vésperas das negociações.

Trégua parcial e impacto persistente

Embora a trégua tenha suspendido a campanha de ataques de EUA e Israel contra o Irã, ela ainda não resolveu dois dos principais pontos de atrito da crise: a continuidade da guerra paralela no Líbano e a perturbação no Estreito de Ormuz.

O fluxo marítimo na região continua muito abaixo do padrão anterior ao conflito, mantendo pressão sobre energia e cadeias globais de abastecimento. Como sinal de que o mercado ainda trabalha com risco elevado, o Japão anunciou a liberação adicional de 20 dias de reservas de petróleo a partir de maio, em meio à busca por rotas e fornecedores que reduzam a dependência de Ormuz.

Com isso, a rodada de sábado no Paquistão passa a ser vista não apenas como um teste sobre a sobrevivência do cessar-fogo entre EUA e Irã, mas também como uma tentativa de definir se a crise poderá de fato entrar em fase diplomática ou se continuará presa a exigências cruzadas, frentes paralelas de combate e instabilidade no eixo energético do Oriente Médio.