A posse de Keiko Fujimori como presidente do Peru acrescentou um novo capítulo à guinada política que vem alterando o mapa da América do Sul. Depois de vitórias conservadoras em países como Bolívia, Chile e Colômbia, o Brasil aparece agora como o próximo grande teste eleitoral da direita na região.

Keiko prestou juramento nesta terça-feira (28) para governar o Peru entre 2026 e 2031. Ela derrotou o candidato de esquerda Roberto Sánchez por uma diferença inferior a 50 mil votos e tornou-se a primeira mulher eleita pelo voto popular para comandar o país.

A mudança peruana ocorre depois da eleição de Rodrigo Paz na Bolívia, da chegada de José Antonio Kast ao poder no Chile e da vitória de Abelardo de la Espriella na Colômbia. A Argentina já é governada por Javier Milei, enquanto Daniel Noboa permanece no comando do Equador. Apesar das diferenças entre esses governos, eles compartilham agendas mais duras na segurança pública, maior abertura ao setor privado e, em diferentes graus, aproximação com os Estados Unidos de Donald Trump.

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Brasil vira próximo teste

O avanço da direita, porém, não torna o resultado brasileiro automático. A eleição de outubro colocará frente a frente o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o senador Flávio Bolsonaro em uma disputa que pode definir até onde chega a mudança política observada nos países vizinhos.

Uma vitória de Flávio aproximaria o Brasil do eixo conservador que ganhou espaço na região. A reeleição de Lula, por outro lado, mostraria que o movimento encontra resistência justamente no país de maior peso político, econômico e diplomático da América do Sul.

Pesquisas divulgadas na última semana mantêm Lula à frente, mas indicam uma disputa competitiva. Levantamento Nexus encomendado pelo BTG Pactual mostrou o presidente com 47% contra 43% de Flávio em uma simulação de segundo turno. No Datafolha, Lula apareceu com 48%, contra 43% do senador.

O Brasil, portanto, não aparece apenas como o próximo país de uma sequência eleitoral. O resultado poderá indicar se a guinada à direita se consolidará como novo eixo dominante da América do Sul ou se permanecerá limitada por diferenças nacionais e pela força eleitoral da esquerda brasileira.

Milei leva disputa regional ao Brasil

A dimensão regional da eleição ficou mais clara com a viagem de Javier Milei a São Paulo para participar da convenção que oficializou a candidatura de Flávio Bolsonaro.

O presidente argentino discursou no evento, atacou Lula e afirmou que Flávio poderia impedir o avanço do socialismo no Brasil. Depois da convenção, Milei seguiu para Lima, onde participou da posse de Keiko ao lado de dirigentes como Kast, Paz e Noboa.

A sequência das agendas transformou uma viagem apresentada também em termos comerciais em uma demonstração visível da articulação política entre lideranças conservadoras. Não se trata de um bloco formal, com estrutura ou programa comum, mas de uma aproximação que atravessa fronteiras e já interfere diretamente no debate brasileiro.

Trump entra na disputa, mas apoio pode ter custo

Donald Trump também ocupa posição central nessa reorganização. O presidente americano apoiou lideranças como Milei, Kast e De La Espriella e tem ampliado a atuação dos Estados Unidos em disputas políticas e econômicas da América Latina.

Keiko já declarou existir espaço significativo para cooperação com o governo Trump e demonstrou interesse na iniciativa americana “Escudo das Américas”, voltada ao combate ao crime transnacional. O vice-secretário de Estado Christopher Landau representou Washington na cerimônia de posse em Lima.

No Brasil, entretanto, a aproximação com Trump produz efeitos mais contraditórios. As tarifas de 25% impostas pelo governo americano sobre produtos brasileiros passaram a ocupar o centro da disputa presidencial, com Lula e Flávio trocando acusações sobre a responsabilidade pela crise comercial.

Pesquisa Quaest divulgada depois do anúncio das tarifas mostrou que 42% dos entrevistados disseram ter ficado mais inclinados a votar em Lula por causa da medida americana, enquanto 27% afirmaram ter se aproximado de Flávio. O resultado indica que a atuação de Trump pode fortalecer aliados em parte da região, mas também provocar uma reação nacionalista favorável à esquerda no Brasil.

Uma guinada movida por problemas locais

Apesar da presença de Trump e Milei, as vitórias da direita não podem ser explicadas apenas por uma articulação internacional. Crime organizado, baixo crescimento, desgaste de governos e instabilidade política tiveram peso diferente em cada eleição.

No Peru, Keiko assumiu prometendo ampliar a participação dos militares no combate à criminalidade, melhorar o ambiente de negócios e recuperar a confiança nas instituições. Em seu primeiro discurso, descreveu um país atingido pela insegurança e pela desconfiança no poder público.

Questões semelhantes apareceram nas campanhas do Chile e da Colômbia, onde segurança pública e insatisfação econômica favoreceram candidatos conservadores. A sequência regional é, portanto, resultado tanto de uma conjuntura internacional favorável à direita quanto do desgaste doméstico de governos e partidos de esquerda.

Com Keiko no poder, a atenção se desloca agora para o Brasil. A eleição entre Lula e Flávio não decidirá apenas quem governará o país a partir de 2027. Ela também mostrará se a direita conseguirá transformar vitórias nacionais dispersas em uma mudança duradoura do equilíbrio político sul-americano.