O Ministério das Relações Exteriores chamou o embaixador brasileiro em Buenos Aires, Julio Bitelli, para consultas em Brasília após o presidente da Argentina, Javier Milei, participar do lançamento da candidatura de Flávio Bolsonaro e atacar o presidente Lula e o ministro Alexandre de Moraes.
Bitelli deve chegar à capital federal entre a noite deste domingo, 26 de julho, e a madrugada de segunda-feira. A convocação para consultas é um sinal formal de descontentamento entre governos, mas não representa expulsão do diplomata, retirada definitiva do posto ou rompimento das relações com a Argentina.
A decisão cria um novo componente na eleição presidencial brasileira: a atuação pública de um chefe de Estado estrangeiro em favor de um dos candidatos terminou em uma medida diplomática do governo brasileiro.
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Milei transforma viagem em ato de campanha
Milei participou no sábado da convenção nacional do PL, em São Paulo, que oficializou Flávio Bolsonaro como candidato à Presidência. Durante o discurso, o argentino pediu a derrota de Lula, apresentou Flávio como o candidato capaz de impedir a continuidade do atual governo e chamou o presidente brasileiro de “presidiário”.
O argentino também atacou Alexandre de Moraes pela decisão que impediu uma visita a Jair Bolsonaro. Milei referiu-se ao ministro do Supremo Tribunal Federal como “lixo careca”.
O presidente do STF, Edson Fachin, respondeu que a declaração foi uma referência desrespeitosa a um integrante da mais alta Corte do país, feita em território brasileiro.
“Ao reafirmar a plena autonomia do Judiciário brasileiro, a Presidência do STF deplora manifestações incompatíveis com a civilidade que deve caracterizar as relações entre os Estados”, afirmou Fachin.
Viagem reuniu agenda oficial e palanque eleitoral
Antes da convenção partidária, Milei foi recebido pelo governador Tarcísio de Freitas no Palácio dos Bandeirantes. O presidente argentino recebeu a Ordem do Ipiranga, principal condecoração concedida pelo estado de São Paulo.
Flávio Bolsonaro também participou do encontro, ao lado do prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes, e de integrantes dos governos argentino e paulista.
A mesma viagem, portanto, reuniu uma recepção institucional no governo estadual e a participação de Milei no ato de lançamento do principal adversário de Lula na disputa presidencial.
Segunda consulta após viagem ligada a Bolsonaro
Esta é a segunda vez em dois anos que Julio Bitelli é chamado a Brasília após uma viagem de Milei ao Brasil marcada pela aproximação com o bolsonarismo.
Em julho de 2024, o embaixador também foi convocado para conversas com o chanceler Mauro Vieira e integrantes do governo depois de Milei participar da Conferência de Ação Política Conservadora, a CPAC, em Santa Catarina, e encontrar Jair Bolsonaro.
Naquela ocasião, Milei deixou de comparecer a uma reunião de presidentes do Mercosul no Paraguai para participar do encontro conservador. O governo brasileiro decidiu avaliar os rumos da relação, embora o argentino tivesse evitado críticas explícitas a Lula durante o evento.
O episódio de 2026 representa uma escalada em relação ao anterior. Milei não apenas se encontrou com integrantes da família Bolsonaro, mas subiu ao palco da convenção que oficializou Flávio, pediu a derrota do atual presidente e atacou um integrante do STF.
Relação permanece sem encontro bilateral
A participação eleitoral ocorre em meio a uma relação limitada entre os dois presidentes. Desde que assumiu o governo argentino, Milei não realizou uma reunião bilateral com Lula durante suas visitas ao Brasil.
Apesar da distância política entre os presidentes, Brasil e Argentina mantêm relações econômicas, diplomáticas e institucionais permanentes. O retorno temporário do embaixador para consultas permite que o governo brasileiro reavalie o cenário e defina os próximos passos da relação bilateral.
O chamado de Bitelli não significa que as relações foram rompidas nem que o posto em Buenos Aires ficará definitivamente sem embaixador. O gesto indica que o episódio deixou de ser tratado apenas como discurso eleitoral e passou a integrar formalmente a relação diplomática entre os dois países.



