O governo brasileiro ampliou a reação às declarações de Javier Milei durante a convenção que oficializou Flávio Bolsonaro como candidato à Presidência. Além de chamar Julio Bitelli, embaixador do Brasil em Buenos Aires, para consultas, o Itamaraty convocou o representante argentino em Brasília, Daniel Raimondi, para transmitir um protesto formal e cobrar explicações.

Bitelli já retornou ao Brasil e se reuniu nesta segunda-feira, 27 de julho, por cerca de 40 minutos com o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, no Palácio do Itamaraty. Uma nova conversa deverá ocorrer depois da viagem do chanceler ao Peru.

Em nota oficial, o Ministério das Relações Exteriores afirmou não haver precedente de um presidente estrangeiro que, em território brasileiro, reunisse agressões contra o chefe de Estado, as instituições democráticas, o Poder Judiciário e o povo brasileiro. O ministério classificou o episódio como uma grave violação do dever de respeito entre chefes de Estado.

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Brasil cobra explicações e Argentina minimiza reação

Mauro Vieira classificou as declarações de Milei como “ríspidas, grosseiras e inaceitáveis” e afirmou que o Brasil precisa de explicações sobre o comportamento do presidente argentino em território brasileiro. O chanceler acrescentou que, apesar da gravidade do episódio, os canais diplomáticos devem permanecer abertos.

A primeira manifestação do governo argentino veio de Diego Santilli, chefe de gabinete de Milei. Ele pediu que o Brasil não “exagere” e alegou que profissionais ligados ao PT participaram da campanha de Sergio Massa contra Milei na eleição argentina de 2023.

Milei também voltou a atacar Lula depois da reação diplomática. Em entrevista, acusou o governo brasileiro, sem apresentar provas, de financiar uma suposta “campanha anti-Argentina” e voltou a chamar o presidente brasileiro de “ex-presidiário”.

Lula foi questionado sobre as declarações enquanto aguardava a chegada do presidente da Coreia do Sul ao Palácio do Itamaraty. O brasileiro evitou uma resposta extensa e ironizou:

“Quem é esse cara?”

Milei transforma viagem em ato de campanha

Milei participou no sábado da convenção nacional do PL, em São Paulo, que oficializou Flávio Bolsonaro como candidato à Presidência. Durante o discurso, o argentino pediu a derrota de Lula, apresentou Flávio como o candidato capaz de impedir a continuidade do atual governo e chamou o presidente brasileiro de “presidiário”.

O argentino também atacou Alexandre de Moraes pela decisão que impediu uma visita a Jair Bolsonaro. Milei referiu-se ao ministro do Supremo Tribunal Federal como “lixo careca”.

O presidente do STF, Edson Fachin, respondeu que a declaração foi uma referência desrespeitosa a um integrante da mais alta Corte do país, feita em território brasileiro.

“Ao reafirmar a plena autonomia do Judiciário brasileiro, a Presidência do STF deplora manifestações incompatíveis com a civilidade que deve caracterizar as relações entre os Estados”, afirmou Fachin.

Viagem reuniu agenda oficial e palanque eleitoral

Antes da convenção partidária, Milei foi recebido pelo governador Tarcísio de Freitas no Palácio dos Bandeirantes. O presidente argentino recebeu a Ordem do Ipiranga, principal condecoração concedida pelo estado de São Paulo.

Flávio Bolsonaro também participou do encontro, ao lado do prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes, e de integrantes dos governos argentino e paulista.

A mesma viagem, portanto, reuniu uma recepção institucional no governo estadual e a participação de Milei no ato de lançamento do principal adversário de Lula na disputa presidencial.

Segunda consulta após viagem ligada a Bolsonaro

Esta é a segunda vez em dois anos que Julio Bitelli é chamado a Brasília após uma viagem de Milei ao Brasil marcada pela aproximação com o bolsonarismo.

Em julho de 2024, o embaixador também foi convocado para conversas com o chanceler Mauro Vieira e integrantes do governo depois de Milei participar da Conferência de Ação Política Conservadora, a CPAC, em Santa Catarina, e encontrar Jair Bolsonaro.

Naquela ocasião, Milei deixou de comparecer a uma reunião de presidentes do Mercosul no Paraguai para participar do encontro conservador. O governo brasileiro decidiu avaliar os rumos da relação, embora o argentino tivesse evitado críticas explícitas a Lula durante o evento.

O episódio de 2026 representa uma escalada em relação ao anterior. Milei não apenas se encontrou com integrantes da família Bolsonaro, mas subiu ao palco da convenção que oficializou Flávio, pediu a derrota do atual presidente e atacou um integrante do STF.

Relação permanece sem encontro bilateral

A participação eleitoral ocorre em meio a uma relação limitada entre os dois presidentes. Desde que assumiu o governo argentino, Milei não realizou uma reunião bilateral com Lula durante suas visitas ao Brasil.

Apesar da distância política entre os presidentes, Brasil e Argentina mantêm relações econômicas, diplomáticas e institucionais permanentes. O Itamaraty destacou que os países acumulam 203 anos de amizade e cooperação e que o Brasil é o principal parceiro comercial da Argentina.

O retorno de Bitelli não representa rompimento das relações nem retirada definitiva do embaixador. O governo brasileiro também indicou que pretende manter os canais diplomáticos abertos enquanto cobra explicações formais sobre o episódio. O retorno temporário do embaixador para consultas permite que o governo brasileiro reavalie o cenário e defina os próximos passos da relação bilateral.