Os Estados Unidos elevaram o tom sobre a crise política e social na Bolívia, onde protestos, bloqueios de estradas e paralisações se espalharam pelo país e aumentaram a pressão sobre o governo do presidente Rodrigo Paz.

O subsecretário de Estado dos EUA, Christopher Landau, disse nesta terça-feira (19) que conversou com Paz e demonstrou preocupação com a escalada da instabilidade. Segundo a Reuters, Landau classificou a mobilização como uma tentativa de derrubar o governo boliviano e afirmou que Washington apoia as instituições democráticas do país.

A fala marca uma mudança importante no enquadramento internacional da crise. Até agora, os protestos vinham sendo tratados principalmente como reação interna a medidas econômicas, ao custo de vida, à política de combustíveis e a disputas envolvendo setores sindicais, rurais, mineiros e de transporte. Com a manifestação dos EUA, o episódio passa a ganhar peso diplomático regional.

Landau também acusou forças políticas e grupos criminosos de incentivarem a pressão contra o governo. A acusação, no entanto, deve ser lida como uma avaliação do governo americano. A Associated Press destacou que o representante dos EUA fez a alegação sem apresentar evidências públicas.

A crise começou no início de maio e ganhou força com greves e bloqueios em diferentes regiões do país. Em La Paz, bancos chegaram a fechar temporariamente agências por questões de segurança, enquanto clientes foram orientados a usar canais digitais e caixas eletrônicos.

Os bloqueios também afetaram a circulação de alimentos, combustíveis e suprimentos médicos. Segundo a Reuters, autoridades bolivianas registraram dezenas de pontos de bloqueio, e a estatal YPFB suspendeu despachos em áreas afetadas por causa da obstrução de vias e instalações estratégicas.

A mobilização teve como um dos estopins a Lei 1.720, ligada a mudanças em regras de propriedade rural. O texto foi revogado por Paz em 12 de maio, mas os protestos continuaram e passaram a reunir reivindicações mais amplas, incluindo cobranças econômicas e pedidos de renúncia do presidente.

O governo boliviano tenta conter a crise em um cenário de forte desgaste político. Paz assumiu prometendo reorganizar a economia e buscar maior aproximação internacional, depois de quase duas décadas de domínio da esquerda no poder boliviano. A oposição e movimentos sociais, porém, passaram a pressionar o governo diante das medidas de ajuste e da deterioração das condições econômicas.

Para o Brasil, o impacto imediato não está em uma ruptura direta confirmada, mas no risco de instabilidade em um parceiro regional estratégico. A Bolívia tem peso na agenda energética brasileira, especialmente no fornecimento de gás natural. Em março, durante visita de Rodrigo Paz a Brasília, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva defendeu ampliar a produção de gás boliviano e aumentar a importação do insumo para o Brasil.

Esse ponto torna a crise boliviana relevante para além da política interna do país. Uma instabilidade prolongada pode afetar decisões de investimento, cooperação energética e previsibilidade regional em um momento em que o Brasil busca segurança no abastecimento e maior integração com países vizinhos.

A situação ainda está em desenvolvimento. O ponto central, agora, é saber se o governo Paz conseguirá abrir uma negociação capaz de reduzir os bloqueios ou se a crise seguirá ganhando dimensão política, econômica e diplomática.