Brasil e Estados Unidos vão retomar as negociações sobre as tarifas impostas pelo governo Donald Trump a produtos brasileiros, depois de uma ligação entre os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Trump na sexta-feira (21).
O movimento concreto veio depois do telefonema. O representante comercial dos Estados Unidos, Jamieson Greer, procurou o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) para organizar uma nova reunião com o ministro Márcio Elias Rosa e integrantes do Itamaraty.
O encontro deverá ocorrer no início da próxima semana, de forma virtual. A segunda-feira (31) aparece como possibilidade para a agenda, mas, até a publicação, o MDIC não havia divulgado oficialmente uma data definitiva.
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A retomada não significa que Brasil e Estados Unidos estejam iniciando uma negociação do zero. Pelo contrário: os dois governos passaram mais de um ano discutindo os mesmos problemas e chegaram a realizar cinco reuniões de alto nível desde maio. Mesmo assim, não houve acordo suficiente para impedir Washington de aplicar a tarifa de 25% em julho.
É essa sequência que torna a nova reunião mais relevante. Lula e Trump estão tentando reativar politicamente uma negociação que já havia fracassado uma vez, agora com as tarifas em vigor, empresas brasileiras pagando a conta e a disputa comercial inserida também no ambiente da eleição presidencial de outubro.
Negociação já havia fracassado antes da tarifa
A investigação americana contra o Brasil começou em julho de 2025. Desde então, segundo o governo brasileiro, houve mais de 30 reuniões entre representantes dos dois países.
O diálogo ganhou novo impulso depois de Lula e Trump se encontrarem em Washington em 7 de maio de 2026. Os presidentes determinaram a criação de um grupo de trabalho para tentar solucionar as divergências comerciais.
Márcio Elias Rosa e Jamieson Greer se reuniram em 19 e 28 de maio, 13 de junho, 2 de julho e 14 de julho, além dos contatos realizados pelas equipes técnicas.
Na véspera da decisão americana, os dois governos ainda discutiam uma saída.
Não funcionou.
Em 15 de julho, Greer anunciou a tarifa adicional de 25% sobre determinados produtos brasileiros. O USTR afirmou que as negociações realizadas durante o ano anterior não haviam resolvido as preocupações dos Estados Unidos.
O órgão, porém, manteve aberta a possibilidade de continuar negociando.
É justamente esse canal que Lula e Trump estão tentando reativar agora.
O que os Estados Unidos querem do Brasil
Washington reuniu seis grupos de reclamações.
Um deles envolve comércio digital e serviços de pagamento. O USTR critica decisões de tribunais brasileiros contra plataformas americanas e sustenta que políticas brasileiras favorecem um sistema doméstico de pagamentos, referência ao Pix, em prejuízo de empresas dos Estados Unidos.
Há também uma disputa sobre o etanol. Os americanos querem melhores condições para vender o produto no mercado brasileiro.
Outros pontos envolvem tarifas preferenciais concedidas pelo Brasil em acordos comerciais, proteção à propriedade intelectual, aplicação das regras anticorrupção e combate ao desmatamento ilegal.
Isso ajuda a explicar por que a negociação é difícil: parte das reivindicações pode ser discutida comercialmente, enquanto outras envolvem decisões judiciais, legislação brasileira ou compromissos assumidos pelo país com outros parceiros.
37,5% não é uma única tarifa
Outro ponto importante é que a sobretaxa máxima de 37,5% que passou a atingir alguns produtos brasileiros não veio de uma única decisão americana.
São duas medidas diferentes.
A primeira é a tarifa adicional de 25% resultante da investigação específica sobre o Brasil.
A segunda é uma tarifa de 12,5% ligada a outra investigação da Seção 301, desta vez sobre mecanismos para impedir a entrada de produtos fabricados com trabalho forçado. Essa investigação não foi criada exclusivamente contra o Brasil: alcançou 60 economias.
Quando um produto brasileiro aparece nas duas listas, as tarifas se acumulam e chegam a 37,5%.
Segundo cálculos do MDIC com base no comércio de 2024, 16,5% das exportações brasileiras aos Estados Unidos estão nessa situação. Entre elas aparecem máquinas e equipamentos, diferentes tipos de madeira, calçados, móveis, confecções, gorduras e óleos.
Outros 1,9% das exportações estão sujeitos apenas aos 25%, e 4,7%, somente aos 12,5%.
Somadas, as duas novas medidas da Seção 301 alcançam cerca de 23,1% das exportações brasileiras ao mercado americano. Outros 52,7% permanecem fora dessas sobretaxas e também das tarifas setoriais consideradas pelo levantamento do ministério.
Isso significa que mesmo uma eventual solução para a investigação específica contra o Brasil não eliminaria automaticamente todas as tarifas hoje chamadas de “tarifaço”.
Um acordo sobre os seis pontos discutidos por Greer e Elias Rosa poderia alterar a tarifa de 25%. A cobrança de 12,5% está ligada a outro processo e exigiria uma solução própria.
A relação de Trump com Lula já seguiu roteiro parecido
A atual aproximação também tem um precedente.
Em julho de 2025, Trump impôs uma sobretaxa adicional de 40% contra determinados produtos brasileiros por meio de uma ordem baseada em poderes econômicos de emergência.
Naquela ocasião, a justificativa americana era abertamente política.
A ordem da Casa Branca citou o ex-presidente Jair Bolsonaro, criticou o ministro Alexandre de Moraes e afirmou que o que classificava como perseguição política poderia prejudicar a capacidade do Brasil de realizar uma eleição presidencial “livre e justa” em 2026.
Meses depois, o relacionamento pessoal entre Lula e Trump melhorou.
Os dois conversaram por telefone em 6 de outubro de 2025 e concordaram em iniciar negociações. Em novembro, Trump retirou determinados produtos agrícolas brasileiros do alcance da tarifa adicional de 40%.
O próprio decreto da Casa Branca que fez a mudança registrou que havia ocorrido “progresso inicial” nas negociações iniciadas depois da conversa com Lula.
O episódio estabeleceu um precedente: uma conversa direta entre os presidentes foi seguida por negociação técnica e, posteriormente, por uma flexibilização comercial.
Mas também há um alerta nessa comparação.
Em 2026, Lula e Trump voltaram a se aproximar, criaram um grupo de trabalho em maio e mantiveram uma sequência de negociações. Ainda assim, Trump autorizou a tarifa de 25% em julho.
A cordialidade entre os presidentes, portanto, não significou o fim da pressão americana.
Eleição volta a cercar a disputa comercial
A eleição brasileira também acrescenta uma variável que não existiria em uma negociação comercial comum.
O primeiro turno está marcado para 4 de outubro, e um eventual segundo turno ocorrerá em 25 de outubro.
A tarifa de 25% entrou em vigor em 22 de julho, menos de três meses antes da votação.
Há uma diferença jurídica importante em relação a 2025.
A tarifa adicional de 40% do ano passado foi diretamente vinculada pela Casa Branca a Bolsonaro, ao STF e à eleição de 2026. A atual tarifa de 25%, por outro lado, foi aplicada após uma investigação comercial da Seção 301 iniciada exatamente um ano antes e tinha prazo legal para uma decisão em julho.
Não há base para afirmar que a tarifa atual tenha sido criada especificamente para interferir na eleição brasileira.
Mas a campanha entrou diretamente na discussão sobre o momento em que a medida deveria ser aplicada.
Durante a etapa pública da investigação americana, Flávio Bolsonaro pediu ao USTR a suspensão da tarifa e propôs que a pressão fosse mantida por meio de um mecanismo de 180 dias.
No documento analisado anteriormente pelo Trendahora, o senador relacionou a proposta ao calendário eleitoral e argumentou que o ambiente político capaz de sustentar um eventual acordo seria redefinido pela eleição.
Assim, a eleição não explica juridicamente a origem dos 25%, mas passou a fazer parte do cálculo político ao redor da tarifa.
É também por isso que qualquer concessão de Trump nas próximas semanas poderá ter repercussão além do comércio: Lula disputa a reeleição enquanto Flávio Bolsonaro tenta responsabilizar o governo pela deterioração das relações com Washington.
O que pode sair da nova reunião
A retomada do diálogo não significa que um acordo esteja próximo.
Washington ainda sustenta formalmente que as práticas brasileiras identificadas na investigação prejudicam empresas e trabalhadores americanos. Brasília rejeita essa interpretação.
Além disso, o governo brasileiro mantém outras frentes abertas.
Em 27 de julho, o Itamaraty apresentou à Organização Mundial do Comércio um pedido de consultas contra as duas medidas da Seção 301: os 25% específicos contra o Brasil e os 12,5% relacionados ao trabalho forçado.
O governo também avançou internamente nos procedimentos previstos pela Lei da Reciprocidade Econômica, que permite contramedidas brasileiras.
Isso cria uma negociação em duas direções.
Brasil e Estados Unidos voltam à mesa para procurar uma solução, mas os dois lados mantêm instrumentos de pressão disponíveis caso o diálogo fracasse novamente.
A principal mudança depois da ligação de Lula e Trump, portanto, ainda não é uma redução tarifária.
É a volta do canal político que permite discutir essa redução.
O precedente de 2025 mostra que uma conversa entre os presidentes pode ser seguida por concessões. O que aconteceu em julho de 2026 mostra o contrário: mesmo uma relação pessoal cordial e várias rodadas de negociação não impedem Trump de recorrer às tarifas quando considera que as condições americanas não foram atendidas.
A próxima reunião dirá se o novo telefonema abriu caminho para uma solução diferente, ou apenas para mais uma rodada de uma disputa que já atravessou dois anos e agora também acompanha o calendário eleitoral brasileiro.



