O confronto econômico entre Estados Unidos e Irã ganhou uma nova etapa poucas horas depois do anúncio das sanções americanas. Autoridades iranianas prometeram reagir à pressão de Washington, enquanto o secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, revelou que o governo decidiu dar tempo a países e empresas antes de aplicar as punições mais severas.
O ministro da Economia iraniano, Ali Madanizadeh, afirmou à televisão estatal que o país está preparado para as novas medidas e indicou que a resposta de Teerã não ficará apenas na defesa. Segundo ele, “os inimigos devem esperar um ataque”.
A Guarda Revolucionária elevou ainda mais o tom. O brigadeiro-general Hossein Mohebbi afirmou que ameaças contra a infraestrutura iraniana poderão ser respondidas com ataques contra interesses considerados vitais dos Estados Unidos e contra gargalos de energia.
Publicidade
Do outro lado, Washington deixou claro que a ofensiva econômica não será aplicada com força máxima de uma só vez.
Bessent afirmou que países e empresas terão um período para cortar determinadas relações com o Irã antes da adoção das punições mais severas. O secretário não revelou quais países serão os primeiros alvos nem quando as medidas adicionais começarão a ser aplicadas.
A primeira rodada incluiu cerca de 60 pessoas, empresas e embarcações, mas deixou de fora grandes instituições financeiras chinesas suspeitas pelos Estados Unidos de facilitar o comércio de petróleo iraniano.
Questionado sobre por que Washington não aplicou imediatamente todas as punições disponíveis, Bessent respondeu: “Por que eu iria querer explodir o sistema financeiro global?”.
A fala expõe o principal dilema da nova estratégia americana: tentar isolar financeiramente o Irã sem provocar, ao mesmo tempo, uma ruptura com grandes economias que ainda mantêm relações com Teerã.
O que muda com a Operation Economic Outcast
A ofensiva anunciada nesta segunda-feira (24) foi batizada pelo Tesouro americano de “Operation Economic Outcast”.
Washington ampliou o alcance das sanções secundárias para cinco setores da economia iraniana: ativos digitais, tecnologia, ouro, aviação e transporte marítimo.
A diferença para uma rodada convencional de sanções está no alvo. Em vez de atingir apenas pessoas ou empresas iranianas, as sanções secundárias permitem aumentar a pressão sobre instituições estrangeiras envolvidas em determinadas operações com Teerã.
Na prática, os Estados Unidos tentam colocar países e empresas diante de uma escolha: manter determinadas relações econômicas com o Irã ou preservar acesso ao sistema financeiro baseado no dólar.
Foi justamente esse movimento que provocou a reação iraniana. Antes mesmo do anúncio, Mohsen Rezaei, secretário do Conselho Supremo de Segurança Nacional do Irã, já havia afirmado que Teerã poderia considerar o apoio de outros países à campanha americana como um “ato de guerra” e ameaçado reduzir ainda mais as exportações de petróleo pelo Golfo.
As novas declarações feitas após a apresentação do pacote mostram que o discurso iraniano não recuou.
China vira o teste mais delicado para Washington
A China é provavelmente o maior teste para saber até onde os Estados Unidos estão dispostos a levar as sanções secundárias.
Pequim é há anos o principal comprador de petróleo iraniano. Apesar disso, as grandes instituições financeiras chinesas apontadas como participantes de operações relacionadas ao comércio de petróleo não apareceram na primeira lista anunciada nesta segunda-feira.
Bessent afirmou que nenhum país está fora do alcance das sanções americanas e disse que instituições que transformarem petróleo iraniano em recursos financeiros poderão ser atingidas.
Mas a ausência dos grandes bancos chineses mostra que essa decisão tem um custo potencial muito maior do que sancionar empresas menores ou intermediários.
Uma punição contra instituições financeiras relevantes da China poderia ampliar a disputa para outras áreas da relação entre Washington e Pequim, especialmente às vésperas de uma reunião prevista entre Donald Trump e Xi Jinping no fim de setembro.
Pequim já rejeitou a estratégia americana. O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores Lin Jian afirmou que sanções e pressão não ajudam a resolver a crise e disse que a China fará o necessário para proteger seus direitos e interesses.
O ministro iraniano Ali Madanizadeh afirmou, por sua vez, que China e Rússia não aceitaram as medidas americanas e previu resistência de outros países.
A capacidade de Washington de pressionar grandes parceiros iranianos sem desencadear uma crise econômica mais ampla passa, portanto, a ser uma das principais questões da Operation Economic Outcast.
Ormuz mostra como as duas pressões podem colidir
O Irã colocou 45 navios-tanque em uma lista de embarcações consideradas em desacordo com suas regras de trânsito pelo estreito. Segundo a Autoridade do Estreito do Golfo Pérsico, criada por Teerã, esses navios podem enfrentar multas, detenção ou confisco de carga.
Embarcações que realizarem transferências com navios da lista também podem sofrer restrições.
Ao mesmo tempo, as regras americanas criam riscos para quem aceita determinadas exigências iranianas para atravessar a região.
A OFAC, órgão do Tesouro responsável pelas sanções, afirma que pagamentos ao governo iraniano ou à Guarda Revolucionária por passagem segura em Ormuz não são autorizados para pessoas e instituições americanas. Para empresas de outros países, determinadas transações ou serviços envolvendo entidades iranianas sancionadas também podem gerar exposição a sanções.
Isso coloca armadores, bancos, seguradoras e intermediários em uma posição incomum: Teerã ameaça consequências para quem não cumprir suas regras de navegação, enquanto Washington ameaça determinadas formas de cooperação com estruturas iranianas envolvidas na passagem.
A nova ameaça da Guarda Revolucionária contra “gargalos de energia” adiciona outra camada de risco a essa disputa.
Mercado não reagiu como se o choque fosse imediato
Apesar da retórica dos dois lados, o comportamento do petróleo após o anúncio americano foi na direção oposta à esperada em uma escalada imediata da oferta.
Os contratos de referência do petróleo caíram mais de 2% na segunda-feira.
A reação indica que, ao menos inicialmente, investidores deram peso ao fato de Washington ter ampliado a ameaça de sanções sem aplicar imediatamente as punições mais disruptivas contra os principais compradores e intermediários do petróleo iraniano.
Isso não elimina o risco sobre a oferta. O Estreito de Ormuz continua com fluxo muito inferior ao registrado antes do conflito, e Teerã mantém capacidade de pressionar a navegação na região.
O impacto econômico das sanções dependerá agora de quais empresas e países aceitarão as exigências americanas e, principalmente, de quais instituições Washington decidirá efetivamente punir.
Por que cripto, ouro, aviação e navios entraram na lista
A escolha dos cinco novos setores mostra que o objetivo americano vai além da venda direta de petróleo.
Ativos digitais podem ser usados para movimentar recursos fora dos canais bancários tradicionais. Ouro funciona como instrumento de armazenamento e transferência de valor. Empresas de transporte marítimo são essenciais para movimentar petróleo e outras cargas.
Aviação e tecnologia aparecem em redes de transporte, aquisição de componentes e operações que Washington associa às estruturas militares e econômicas iranianas.
O objetivo é atingir não apenas o produto vendido pelo Irã, mas também a infraestrutura usada para receber dinheiro, transportar mercadorias e reorganizar negócios após sanções anteriores.
Essa lógica explica por que empresas estrangeiras passaram ao centro da estratégia: sancionar uma entidade iraniana tem efeito limitado quando novas empresas, intermediários ou registros podem assumir sua função.
E o Brasil?
A relação comercial brasileira com o Irã é relevante, mas as novas medidas não significam que os cerca de US$ 5 bilhões exportados anualmente pelo Brasil ao país estejam automaticamente sob sanções.
Segundo o Ministério da Agricultura e Pecuária, as vendas brasileiras são concentradas principalmente em milho, soja, óleo comestível, carne bovina e açúcar.
A OFAC estabelece que empresas e pessoas de fora dos Estados Unidos, em geral, não ficam sujeitas a sanções secundárias apenas por vender commodities agrícolas, alimentos, medicamentos ou dispositivos médicos ao Irã, desde que respeitadas as demais restrições.
O principal fluxo de exportações brasileiras está, portanto, em uma situação diferente de setores diretamente atingidos pela nova determinação, como tecnologia, ouro, ativos digitais, aviação e transporte marítimo.
Isso não elimina os riscos envolvendo bancos, seguradoras, transportadoras ou intermediários que participem das operações. A identidade das empresas envolvidas e sua eventual relação com entidades sancionadas continua relevante.
Até esta atualização, não havia manifestação específica do Itamaraty sobre o novo pacote americano.
Pressão também alcança remessas, esporte e intercâmbios
A ofensiva americana não ficou restrita às grandes empresas ou ao comércio de petróleo.
A OFAC suspendeu por prazo indeterminado licenças gerais que autorizavam determinadas remessas pessoais não comerciais, atividades educacionais, conferências, intercâmbios esportivos e intercâmbios acadêmicos envolvendo o Irã.
O órgão abriu um período até 8 de setembro para o encerramento de transações anteriormente autorizadas.
O conjunto das medidas mostra que Washington pretende reduzir diferentes conexões econômicas e financeiras disponíveis ao Irã. Mas a revelação de que os parceiros terão um período para se adequar mostra também que a aplicação será gradual.
O próximo teste será saber quem realmente será atingido quando esse período terminar.
Se Washington avançar contra grandes instituições chinesas, a campanha pode ultrapassar a disputa com o Irã e atingir diretamente a relação econômica entre Estados Unidos e China. Se evitar essas instituições, Teerã poderá continuar encontrando canais para reduzir o efeito do isolamento.



