A nova ofensiva econômica dos Estados Unidos contra o Irã foi desenhada para atingir também quem continua fazendo negócios com Teerã. O governo de Donald Trump anunciou nesta segunda-feira (24) uma ampliação das sanções secundárias e advertiu países, empresas e instituições estrangeiras de que determinadas relações com a economia iraniana podem resultar em punições americanas.
O secretário do Tesouro, Scott Bessent, apresentou a iniciativa como “Operation Economic Outcast”. Segundo o anúncio, Washington passou a mirar cinco setores da economia iraniana: ativos digitais, tecnologia, ouro, aviação e transporte marítimo. Quase 60 pessoas, empresas e embarcações também foram incluídas em novas medidas relacionadas a redes nucleares, de mísseis, cibernéticas e de geração de receitas para Teerã.
A diferença para uma rodada convencional de sanções está no alvo. As chamadas sanções secundárias permitem aos Estados Unidos aumentar a pressão sobre instituições e empresas estrangeiras envolvidas em determinadas operações com o Irã. Na prática, Washington tenta elevar o custo de manter relações econômicas com Teerã ao colocar em risco, entre outras consequências, o acesso de parceiros estrangeiros ao sistema financeiro baseado no dólar.
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A reação iraniana elevou a disputa a outro patamar. Mohsen Rezaei, secretário do Conselho Supremo de Segurança Nacional do Irã, afirmou que Teerã considerará a participação ou o apoio de qualquer país à campanha econômica americana como um “ato de guerra”. Rezaei também ameaçou impedir exportações de petróleo pelo Estreito de Ormuz e por outras rotas do Golfo Pérsico caso a pressão continue.
Ormuz mostra como as duas pressões podem colidir
O Irã colocou 45 navios-tanque em uma lista de embarcações consideradas em desacordo com suas regras de trânsito pelo estreito. Segundo a Autoridade do Estreito do Golfo Pérsico, criada por Teerã, esses navios podem enfrentar multas, detenção ou confisco de carga. Embarcações que realizarem transferências com navios da lista também podem sofrer restrições.
Ao mesmo tempo, as regras americanas criam riscos para quem aceita determinadas exigências iranianas para atravessar a mesma região.
A OFAC, órgão do Tesouro responsável pelas sanções, afirma que pagamentos ao governo iraniano ou à Guarda Revolucionária por passagem segura em Ormuz não são autorizados para pessoas e instituições americanas. Para empresas e instituições de outros países, determinadas transações ou serviços envolvendo pessoas e órgãos iranianos sancionados também podem gerar exposição a sanções.
Isso coloca armadores, bancos, seguradoras e intermediários diante de uma situação incomum: Teerã ameaça punir quem não cumprir suas regras para circular em Ormuz, enquanto Washington pode punir determinadas formas de cooperação com as estruturas iranianas que administram ou monetizam essa passagem.
China será um dos principais testes da nova estratégia
A China surge como o teste mais importante para a capacidade de Washington de transformar a ameaça em pressão efetiva.
Pequim é há anos o maior comprador de petróleo iraniano. Nesta segunda-feira, o Ministério das Relações Exteriores chinês foi questionado diretamente sobre a possibilidade de sanções secundárias americanas contra países que negociem com o Irã.
O porta-voz Lin Jian respondeu que sanções e pressão não ajudam a resolver a crise e podem provocar nova escalada. O governo chinês afirmou ainda que acompanhará os acontecimentos e fará o necessário para proteger seus direitos e interesses.
Até agora, Washington intensificou ações contra empresas e intermediários chineses ligados ao comércio iraniano, mas evitou atingir alguns dos maiores bancos do país. Uma eventual mudança nesse padrão poderia transformar a campanha contra o Irã em mais um ponto de atrito econômico entre as duas maiores economias do mundo.
Por que cripto, ouro, aviação e navios entraram na lista
A escolha dos cinco novos setores mostra que o objetivo americano vai além da venda direta de petróleo.
Ativos digitais podem ser usados para movimentar recursos fora dos canais bancários tradicionais. Ouro funciona como instrumento de armazenamento e transferência de valor. Empresas de transporte marítimo são essenciais para movimentar petróleo e outras cargas, enquanto aviação e tecnologia aparecem em redes de transporte, aquisição de componentes e operações que Washington associa às estruturas militares e econômicas iranianas.
O movimento tenta, portanto, atingir não apenas o produto vendido pelo Irã, mas a infraestrutura usada para receber dinheiro, transportar mercadorias e reorganizar negócios após sanções anteriores.
Essa lógica também explica por que empresas estrangeiras passam ao centro da nova etapa: bloquear uma companhia iraniana perde parte do efeito quando outra estrutura pode assumir rapidamente sua função em outro país.
E o Brasil?
A relação comercial brasileira com o Irã é relevante, mas o efeito das novas medidas exige uma distinção importante.
O Ministério da Agricultura e Pecuária informa que as exportações brasileiras ao mercado iraniano somam aproximadamente US$ 5 bilhões por ano. Os principais produtos são milho, soja, óleo comestível, carne bovina e açúcar.
Esses produtos não passam automaticamente a ser alvo das novas sanções. A própria OFAC estabelece que empresas e pessoas de fora dos Estados Unidos, em geral, não ficam expostas a sanções secundárias apenas por vender commodities agrícolas, alimentos, medicamentos ou dispositivos médicos ao Irã, desde que sejam observadas as demais restrições aplicáveis.
A exceção significa que o principal fluxo exportador brasileiro está em situação diferente de setores como transporte marítimo, tecnologia, ouro ou ativos digitais.
Isso não elimina todos os riscos operacionais. A identidade dos bancos, transportadoras, seguradoras, intermediários e demais participantes de uma operação continua relevante, especialmente quando alguma entidade sancionada estiver envolvida.
Até a publicação desta matéria, o Trendahora não havia localizado manifestação específica do Itamaraty sobre o pacote anunciado nesta segunda-feira.
Pressão também alcança remessas, esporte e intercâmbios
Outra medida publicada pela OFAC mostra que a ofensiva não ficou restrita ao petróleo ou às grandes empresas.
O órgão suspendeu por prazo indeterminado licenças gerais que autorizavam determinadas remessas pessoais não comerciais, atividades educacionais, conferências, intercâmbios esportivos e intercâmbios acadêmicos envolvendo o Irã.
A OFAC abriu um período até 8 de setembro para o encerramento de transações que estavam autorizadas pelas regras anteriores.
O conjunto das medidas mostra uma mudança de escala: Washington tenta reduzir as conexões financeiras e comerciais disponíveis ao Irã, enquanto Teerã ameaça impor consequências aos países que colaborarem com esse isolamento.
O próximo teste será menos o anúncio de novas listas de sancionados e mais a reação de grandes parceiros econômicos iranianos, sobretudo a China, e de empresas que precisam operar em regiões como Ormuz, onde as exigências de Washington e Teerã começam a apontar em direções opostas.



