O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou que orientou seus representantes a não apressarem um acordo com o Irã.
Orientação ocorre em meio às negociações para encerrar a guerra e reabrir plenamente o Estreito de Ormuz, uma das rotas mais importantes para o transporte global de energia.
Segundo a Reuters, Trump disse neste domingo que o bloqueio dos EUA a navios iranianos no Estreito de Ormuz continuará em vigor até que um acordo seja alcançado, certificado e assinado. A fala reduziu a expectativa de uma conclusão imediata das negociações, levantada um dia antes, quando o próprio presidente havia afirmado que um memorando de entendimento com Teerã estava “largamente negociado”.
A disputa agora se concentra nos termos da reabertura de Ormuz. Uma autoridade sênior do governo Trump disse a jornalistas que nenhum acordo seria assinado neste domingo, mas afirmou que o Irã teria aceitado, em princípio, abrir o estreito em troca da retirada do bloqueio naval americano e de uma solução para o estoque de urânio altamente enriquecido de Teerã.
A Reuters ressaltou, no entanto, que não havia confirmação imediata do governo iraniano sobre essa aceitação. Esse ponto é central porque transforma a negociação em algo ainda condicionado a garantias políticas, militares e nucleares, e não em um acordo fechado.
Negociação ainda tem obstáculos
Apesar do tom de avanço diplomático, os dois lados seguem distantes em temas sensíveis. Entre os pontos de divergência estão o programa nuclear iraniano, o alívio de sanções, a liberação de receitas iranianas congeladas no exterior e os desdobramentos da guerra de Israel contra o Hezbollah no Líbano, grupo apoiado por Teerã.
A agência Tasnim, ligada à Guarda Revolucionária do Irã, afirmou que os EUA ainda estariam dificultando partes de um possível acordo, incluindo a demanda iraniana pela liberação de recursos bloqueados em bancos estrangeiros.
Na prática, a negociação expõe uma disputa maior do que a simples reabertura de uma rota marítima. Washington tenta condicionar o fim do bloqueio a um acordo formal e verificável. Teerã, por outro lado, busca preservar margem de controle sobre Ormuz e obter concessões econômicas em meio ao impacto das sanções e da guerra.
Ormuz segue longe da normalidade
A Guarda Revolucionária do Irã afirmou que 33 embarcações passaram pelo Estreito de Ormuz nas últimas 24 horas após receberem permissão de Teerã. O número ainda está distante do fluxo considerado normal antes da guerra, estimado pela Reuters em cerca de 140 embarcações por dia.
Esse dado reforça que a passagem de navios não significa, por si só, normalização da rota. Mesmo com algum trânsito autorizado, o fluxo segue limitado, condicionado a permissões e cercado por risco militar, diplomático e econômico.
O Estreito de Ormuz era, antes do conflito, uma passagem essencial para o transporte de petróleo e gás natural liquefeito. A interrupção parcial da rota pressiona custos de combustível, fertilizantes, fretes e alimentos, efeitos que podem se espalhar por economias dependentes de importações e de cadeias globais de energia.
Impacto para o Brasil
O Brasil não é parte direta da negociação entre EUA e Irã, mas pode sentir efeitos indiretos caso a instabilidade em Ormuz continue pressionando petróleo, transporte marítimo e insumos agrícolas.
A rota é relevante para o mercado global de energia e para o comércio de fertilizantes, dois pontos sensíveis para a economia brasileira. Uma crise prolongada pode afetar preços internacionais, expectativas de inflação, custos logísticos e o comportamento do dólar, com reflexos sobre combustíveis e produção agrícola.
A camada brasileira, portanto, não está na diplomacia direta, mas na exposição econômica. Quanto mais tempo Ormuz permanecer sob restrição, maior tende a ser a preocupação com energia, frete e insumos.
Trump tenta controlar expectativa política
A fala de Trump também tem dimensão política interna. O presidente vem tentando apresentar as negociações como um avanço, mas, ao mesmo tempo, enfrenta críticas de opositores e de setores conservadores sobre os termos de um eventual acordo com Teerã.
Ao dizer que não há pressa, Trump tenta evitar a imagem de concessão rápida ao Irã. Ao manter o bloqueio, preserva pressão militar e econômica enquanto os negociadores discutem os detalhes.
Essa combinação mostra que a Casa Branca ainda tenta equilibrar dois objetivos: vender a possibilidade de um acordo e, ao mesmo tempo, demonstrar que a pressão sobre Teerã continua.
O que observar agora
Os próximos sinais relevantes serão uma confirmação formal do Irã sobre os termos em discussão, detalhes sobre eventual tratamento do urânio altamente enriquecido, avanço em pontos ligados a sanções e uma mudança real no volume de navios autorizados a cruzar Ormuz.
Até lá, o cenário segue indefinido. Há negociação em curso, mas não há acordo assinado. Há passagem limitada de embarcações, mas não há reabertura plena. E há expectativa de alívio nos mercados, mas ainda sem garantia de normalização rápida.



