Um navio ancorado perto dos Emirados Árabes Unidos foi tomado e levado em direção ao Irã, enquanto um cargueiro de bandeira indiana afundou perto de Omã após ser atacado.

Os dois episódios ampliam a tensão no entorno do Estreito de Ormuz, uma das rotas mais sensíveis para o transporte global de petróleo.

Segundo a Associated Press, ainda não estava imediatamente claro quem estava por trás dos incidentes. A informação é importante porque, embora a embarcação tomada tenha seguido em direção a águas iranianas, autoridades e órgãos marítimos ainda investigavam o caso.

O primeiro episódio foi relatado pelo centro britânico United Kingdom Maritime Trade Operations, conhecido como UKMTO. De acordo com o órgão, o navio foi tomado por pessoal não autorizado enquanto estava ancorado a cerca de 70 km a nordeste do porto de Fujairah, nos Emirados Árabes Unidos.

A embarcação não foi identificada oficialmente pelo centro marítimo britânico. A Reuters informou, citando duas fontes de segurança marítima, que o navio seria o Hui Chuan, uma embarcação de pesquisa pesqueira com bandeira de Honduras. O grupo Vanguard, citado pela agência, afirmou que o contato com o navio foi perdido e que a embarcação deixou de transmitir sua posição pelo sistema AIS.

Outro navio afunda perto de Omã

O segundo incidente envolveu o Haji Ali, um cargueiro de bandeira indiana que afundou perto da costa de Omã após um ataque provocar incêndio a bordo. A embarcação seguia da Somália para Sharjah, outro porto dos Emirados Árabes Unidos.

Autoridades indianas disseram que os 14 tripulantes indianos foram resgatados pela guarda costeira de Omã e estavam seguros. O Ministério das Relações Exteriores da Índia classificou o episódio como inaceitável e condenou ataques contra navios comerciais e marinheiros civis.

A sucessão de incidentes ocorre em um momento de pressão crescente sobre o Estreito de Ormuz. Antes da guerra, cerca de um quinto do petróleo negociado no mundo passava pela rota. Por isso, qualquer ameaça prolongada à navegação na região tende a afetar não apenas a segurança militar no Golfo, mas também frete, seguro marítimo e expectativas sobre preços de energia.

Irã endurece discurso sobre Ormuz

A nova escalada ocorre enquanto autoridades iranianas reforçam publicamente a reivindicação de controle sobre o estreito. O Irã passou a condicionar novas conversas com os Estados Unidos ao cumprimento de cinco exigências, incluindo reparações pela guerra e aceitação da soberania iraniana sobre o Estreito de Ormuz.

O vice-presidente sênior do Irã, Mohammadreza Aref, afirmou à TV estatal que o estreito pertence ao país e que Teerã não abriria mão dele. Já o porta-voz do Judiciário iraniano, Asghar Jahangir, disse ao jornal Iran Daily que o Irã teria direito legal de apreender petroleiros ligados aos Estados Unidos no estreito. Ele, porém, não se referiu explicitamente ao navio tomado nesta quinta-feira.

A fala aumenta o peso político dos incidentes marítimos. Mesmo sem autoria confirmada, a combinação entre navio tomado, cargueiro atacado e endurecimento do discurso iraniano reforça a percepção de risco sobre uma rota essencial para a economia global.

Trump e Xi discutem rota estratégica

A crise também atravessou a visita de Donald Trump à China. Segundo a Casa Branca, Trump e Xi Jinping concordaram que o Estreito de Ormuz deve permanecer aberto. A China tem papel central nesse tabuleiro por ser uma compradora relevante de petróleo iraniano e por manter canais de diálogo com Teerã.

Agências semioficiais iranianas afirmaram que navios chineses começaram a passar pelo estreito sob novos protocolos definidos pelo Irã. De acordo com esses relatos, Teerã aceitou facilitar a passagem de embarcações chinesas após pedidos do chanceler chinês e do embaixador da China no Irã.

O movimento coloca Pequim em uma posição delicada. Ao mesmo tempo em que tenta evitar uma crise energética mais ampla, a China mantém relação estratégica com o Irã e negocia com Washington em meio a uma disputa global que envolve comércio, segurança e influência geopolítica.

Risco para energia e Brasil

Para o Brasil, o impacto mais direto não está em uma interrupção imediata de abastecimento, mas no risco de pressão sobre preços internacionais de energia, frete marítimo e expectativas de mercado. Em crises no Estreito de Ormuz, o principal canal de transmissão costuma ser o petróleo, que pode influenciar combustíveis, inflação e câmbio dependendo da duração e da intensidade da instabilidade.