O Nepal registrou 97 deslizamentos e 57 enchentes em apenas 24 horas após uma nova sequência de chuvas intensas atingir diferentes regiões do país.

O balanço divulgado pela autoridade nacional de gestão de desastres também registra 21 mortes provocadas por deslizamentos, quatro desaparecidos e dezenas de estradas interrompidas. Ao todo, foram contabilizadas 272 ocorrências relacionadas a diferentes tipos de desastre no período.

As imagens dos últimos dias dão dimensão ao problema. Em Mustang, uma grande encosta desabou sobre o rio Kali Gandaki. Em Baglung e outras regiões do oeste, rios avançaram sobre casas, estradas e pontes. O Kali Gandaki chegou a cortar ligações rodoviárias entre diferentes distritos.

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Mas a chuva destes dias explica apenas o gatilho imediato. Para entender por que o Nepal sofre com tantos deslizamentos, enchentes e colapsos de encostas, é preciso olhar para o lugar onde o país está construído, e para as mudanças que já estão ocorrendo no clima e no próprio Himalaia.

Um país construído sobre montanhas instáveis

O Nepal ocupa uma das regiões de relevo mais extremo do planeta.

O Himalaia é uma cadeia montanhosa geologicamente jovem, criada pela colisão entre as placas Indiana e Eurasiática. O resultado são grandes diferenças de altitude em distâncias muito curtas, encostas íngremes, rochas fraturadas e rios encaixados em vales estreitos.

Quando a chuva penetra nessas encostas, a água ocupa espaços no solo e nas fraturas das rochas. Com água suficiente, o terreno perde resistência e pode ceder.

Um estudo nacional publicado em agosto por pesquisadores ligados ao International Centre for Integrated Mountain Development, o ICIMOD, ajuda a dimensionar essa vulnerabilidade: cerca de 40% das áreas montanhosas do Nepal foram classificadas como suscetíveis a falhas de encosta.

Nessas áreas vivem aproximadamente 200 mil pessoas e existem cerca de 600 mil construções. Nas planícies, 19% da área analisada apresenta suscetibilidade de média a muito alta a inundações.

Ou seja: em grande parte do país, uma chuva excepcional encontra um terreno que já oferece condições para o desastre.

O que provocou a nova sequência

As chuvas atuais começaram a se intensificar em 24 de setembro.

Segundo a Cruz Vermelha do Nepal, um sistema de baixa pressão sobre a Baía de Bengala provocou chuva contínua e atingiu especialmente as províncias de Gandaki, Lumbini, Bagmati e Madhesh.

Antes mesmo do agravamento da situação, o serviço meteorológico havia alertado para chuva forte a muito forte e risco de enchentes repentinas, alagamentos e deslizamentos entre os dias 24 e 28.

O relevo do Himalaia também ajuda a intensificar a precipitação: massas de ar úmido são forçadas a subir quando encontram as montanhas. Ao ganhar altitude, esse ar esfria e favorece a formação de chuva.

É uma combinação particularmente perigosa quando grandes volumes de água caem em poucas horas.

O aquecimento global entra nessa equação

É justamente aqui que aparece uma das mudanças mais importantes das últimas décadas.

Uma atmosfera mais quente consegue armazenar mais vapor d'água. Segundo o IPCC, a capacidade máxima de retenção de umidade aumenta em torno de 7% para cada 1°C de aquecimento.

Com mais água disponível na atmosfera, episódios de precipitação extrema podem se tornar mais intensos.

O IPCC conclui que a influência humana, principalmente pelas emissões de gases de efeito estufa, é provavelmente o principal fator por trás da intensificação observada das chuvas extremas em escala global. Na Ásia, a influência humana também contribuiu para o aumento observado da precipitação intensa.

Para o Himalaia, a projeção é particularmente relevante: eventos de chuva extrema tendem a aumentar nas grandes regiões montanhosas, elevando também os riscos de enchentes, deslizamentos e outros desastres em cascata.

E meses antes da atual emergência, cientistas já haviam feito um alerta específico para 2026.

Em junho, o ICIMOD afirmou que partes do Hindu Kush-Himalaia poderiam ter uma monção com chuva total abaixo da média — e, mesmo assim, enfrentar uma temporada mais perigosa.

A razão era justamente a possibilidade de longos intervalos relativamente secos serem interrompidos por períodos curtos de chuva muito intensa, capazes de provocar enchentes repentinas e deslizamentos.

O centro também projetava temperaturas acima da média em boa parte da região.

O calor também está mudando a própria montanha

O impacto do aquecimento no Nepal não ocorre apenas através da chuva.

Nas partes mais altas do Himalaia, geleiras estão recuando e áreas de permafrost, terrenos que permanecem congelados por longos períodos, estão descongelando.

Em março, o ICIMOD informou que a taxa de perda de gelo das geleiras do Hindu Kush-Himalaia dobrou desde 2000. Entre 1990 e 2020, as geleiras analisadas perderam cerca de 12% da área e 9% das reservas estimadas de gelo.

Esse processo altera muito mais do que a paisagem.

O gelo pode funcionar como uma espécie de cimento dentro das fissuras das rochas. Quando o permafrost aquece e descongela, essas estruturas podem perder estabilidade. O recuo das geleiras também modifica o apoio exercido sobre paredes de montanha e aumenta a formação ou expansão de lagos glaciais.

O IPCC aponta tanto a perda de massa das geleiras quanto o aumento do degelo do permafrost entre as transformações já observadas nas regiões montanhosas devido à mudança climática.

O desastre de agosto mostrou outro lado do mesmo problema

Essa transformação das altas montanhas ganhou uma dimensão concreta no Nepal em agosto.

A análise do ICIMOD aponta que a área estava sobre permafrost em processo de degelo. As temperaturas recentes de verão na região estavam cerca de 1,5°C a 2°C acima do registro de longo prazo, e as geleiras da bacia haviam perdido entre 15 e 25 metros equivalentes de água desde 1957.

Imagens de radar também indicaram movimentação da encosta nas semanas anteriores ao colapso.

Foi um mecanismo diferente do que está provocando os deslizamentos desta semana, mas mostra como o Nepal está exposto a vários tipos de risco ao mesmo tempo: chuva extrema nas áreas mais baixas e médias, e transformações do gelo e do terreno congelado nas altas montanhas.

Um mês depois daquele desastre, a ONU registrava mais de 1.451 mortos e mais de 5 mil desaparecidos.

Estradas podem tornar as encostas ainda mais frágeis

Há também um fator criado diretamente pela ocupação humana.

Em um país montanhoso, abrir uma estrada frequentemente significa cortar a lateral de uma encosta.

Quando esses cortes são muito inclinados ou não possuem drenagem adequada, eles retiram suporte do terreno e criam caminhos para a água penetrar.

Um estudo publicado na revista Natural Hazards and Earth System Sciences analisou deslizamentos no Nepal e encontrou que os provocados pela chuva eram mais de duas vezes mais propensos a ocorrer a menos de 100 metros de uma estrada do que os desencadeados pelo terremoto de 2015.

Os pesquisadores apontaram cortes excessivamente inclinados, drenagem deficiente e manejo inadequado dos detritos entre os fatores que aumentam o risco durante as chuvas de monção.