O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou nesta segunda-feira (27) que Washington mantém “boas conversas” com o Irã e que existe a possibilidade de um acordo. Teerã, porém, negou que esteja negociando diretamente com o governo americano e afirmou que o Estreito de Ormuz continua fechado.

As declarações foram feitas depois que os Estados Unidos suspenderam uma campanha de 13 noites consecutivas de bombardeios contra o território iraniano. Trump advertiu que os ataques poderão ser retomados caso o processo diplomático não produza resultados.

A pausa reduziu temporariamente a intensidade dos confrontos, mas não foi acompanhada pelo anúncio de um cessar-fogo formal. O governo iraniano também rejeitou informações sobre uma suposta trégua de dez dias.

Publicidade

Teerã separa mediação de negociação direta

O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores do Irã, Esmaeil Baqaei, reconheceu que intermediários continuam transmitindo mensagens enviadas pelos Estados Unidos sobre a situação regional.

Baqaei, entretanto, classificou como “fabricada” a informação de que o Irã teria solicitado a retomada de negociações diretas. Segundo ele, não existem conversas em andamento entre representantes iranianos e americanos.

A posição ajuda a explicar a diferença entre as versões apresentadas pelos dois governos. Trump chama de negociações o processo de troca de mensagens conduzido por mediadores, enquanto Teerã afirma que esse contato não representa uma mesa de diálogo direto com Washington.

Ormuz continua fechado

O Irã confirmou que mantém conversas bilaterais com Omã sobre a navegação no Estreito de Ormuz. Segundo Baqaei, o objetivo é estabelecer mecanismos para a passagem segura de embarcações, sem abrir mão do que o governo iraniano considera seus direitos soberanos sobre a rota.

O porta-voz afirmou que essas conversas são exclusivamente entre Irã e Omã e não fazem parte de uma negociação com os Estados Unidos. Ele também declarou que não houve mudança na situação do estreito, que permanece fechado por decisão iraniana.

A imprensa estatal iraniana afirmou ainda que seis embarcações foram obrigadas a retornar após tentarem atravessar Ormuz sem autorização. Os navios não foram identificados publicamente, e não houve confirmação independente sobre os episódios.

Washington exige que embarcações comerciais possam atravessar livremente por uma rota mais próxima da costa de Omã. O Irã sustenta que os navios devem utilizar um canal próximo de seu território, sujeito à supervisão iraniana e à eventual cobrança de taxas.

Irã rejeita plano de Omã e apresenta contraproposta

Omã apresentou ao Irã um plano apoiado por países do Golfo para tentar restabelecer o tráfego no Estreito de Ormuz. A proposta previa que Teerã e Mascate compartilhassem a administração das rotas e permitiria ao Irã receber contribuições voluntárias dos navios para serviços de navegação, proteção ambiental e resgate.

O governo iraniano rejeitou a divisão igual do tráfego. Segundo o vice-chanceler Kazem Gharibabadi, Teerã propôs que uma direção da navegação passe integralmente por águas iranianas e que parte do fluxo no sentido contrário também fique sob supervisão do país.

Gharibabadi afirmou que Ormuz continuará fechado caso Omã não aceite a contraproposta. O Irã também declarou que deixou de reconhecer o esquema internacional de separação do tráfego usado anteriormente e que não permitirá operações de retirada de minas conduzidas por terceiros.

Os Estados Unidos rejeitam qualquer cobrança e defendem que Ormuz seja tratado como uma passagem internacional livre de controle ou restrições iranianas. Um funcionário americano afirmou que um eventual acordo não incluirá tarifas obrigatórias ou voluntárias.

Pausa não encerra risco de novos ataques

Mesmo após a suspensão dos bombardeios americanos, a tensão regional continuou. Arábia Saudita, Jordânia e Iraque relataram novos episódios envolvendo drones nesta segunda-feira.

A Arábia Saudita afirmou ter interceptado drones lançados do território iraquiano por grupos armados apoiados pelo Irã. Os alvos incluiriam instalações petrolíferas em Riad e na região leste do país.

O comando militar central iraniano também acusou os Estados Unidos de ameaçar embarcações e petroleiros em águas territoriais do Irã. Segundo Teerã, uma tentativa americana de impor um bloqueio naval representaria uma ampliação da guerra.

Não está claro, portanto, quanto tempo a pausa militar será mantida. Trump afirma que poderá voltar aos ataques, enquanto as autoridades iranianas dizem que responderão imediatamente a qualquer nova ação americana.

Petróleo cai, mas impasse continua

A interrupção dos ataques e a expectativa de uma possível negociação provocaram forte queda nas cotações do petróleo.

O Brent encerrou esta terça-feira em US$ 84,09 por barril, queda de 4,8%, enquanto o petróleo americano WTI recuou 4,1%, para US$ 79,26. Em três sessões, o Brent acumulou queda de aproximadamente 16%, embora o fluxo de navios por Ormuz continue reduzido.

Para o Brasil, o recuo reduz temporariamente a pressão internacional sobre os custos de combustíveis e sobre a inflação. O efeito, entretanto, depende da duração da pausa e da possibilidade de normalização do tráfego de navios em Ormuz.

Sem acordo sobre a passagem das embarcações, o estreito continua sendo o principal ponto de disputa entre Washington e Teerã. Uma retomada dos ataques ou uma nova interrupção das exportações do Golfo pode inverter rapidamente a queda do petróleo.