O Irã declarou novamente o Estreito de Ormuz fechado depois de afirmar que um disparo de advertência atingiu uma embarcação que navegava por uma rota considerada não autorizada. A medida amplia a disputa com os Estados Unidos pelo controle da passagem marítima estratégica.

A Autoridade do Estreito do Golfo Pérsico, criada recentemente pelo governo iraniano, afirmou neste domingo que a passagem de embarcações não era possível devido às movimentações militares americanas na região. Segundo o órgão, novas autorizações serão concedidas quando a estabilidade for restabelecida.

Os Estados Unidos contestaram a declaração iraniana. Washington afirmou que o Irã não controla o estreito e que o tráfego comercial continua. O centro marítimo liderado pela Marinha americana também informou que uma rota ampliada ao sul, próxima às águas de Omã, permanece disponível nos dois sentidos.

Publicidade

A divergência significa que a declaração iraniana ainda não representa uma confirmação independente de bloqueio físico completo. O risco para as embarcações, porém, aumentou, e o movimento comercial na região já sofre restrições provocadas pelos ataques e pela insegurança marítima.

Navio é atingido próximo a Omã

O cargueiro GFS Galaxy, de bandeira do Chipre, enviou um pedido de socorro após sofrer um incidente a cerca de 4,4 milhas náuticas da costa de Musandam, em Omã.

O Centro de Segurança Marítima de Omã informou que 23 tripulantes foram resgatados e receberam atendimento médico. As buscas continuavam por uma pessoa desaparecida.

O Ministério das Relações Exteriores da Índia afirmou que 11 cidadãos indianos estavam a bordo. Dez haviam sido resgatados e um permanecia desaparecido. O governo indiano condenou o ataque e informou que sua embaixada acompanha as buscas com as autoridades omanitas.

O Irã havia informado que um disparo de advertência atingiu uma embarcação que utilizava uma rota não aprovada. Até a publicação, não estava estabelecido publicamente se essa declaração se referia especificamente ao GFS Galaxy.

A Guarda Revolucionária também afirmou ter atingido e interrompido a navegação de uma segunda embarcação que teria violado as regras iranianas para atravessar o estreito. O comunicado não identificou o navio nem apresentou detalhes verificáveis sobre os danos.

EUA atacam aproximadamente 140 alvos iranianos

O Comando Central dos Estados Unidos informou ter concluído no sábado a terceira rodada de ataques da semana contra o Irã, em resposta aos ataques contra navios comerciais.

Segundo o Centcom, aproximadamente 140 alvos militares iranianos foram atingidos por aeronaves, drones e embarcações militares. A lista inclui posições de mísseis e drones, estruturas navais, depósitos de munição, redes de comunicação e pontos de vigilância costeira.

O comando americano afirma ter atingido mais de 300 alvos em três noites. A operação teria como objetivo reduzir a capacidade iraniana de atacar marinheiros e embarcações comerciais que atravessam Ormuz.

O Irã respondeu com novos ataques contra instalações associadas aos Estados Unidos em países do Golfo. Governos da região relataram interceptações, danos e feridos, ampliando uma escalada que já ultrapassa as águas do estreito.

Petróleo sobe e tráfego cai em Ormuz

A nova escalada começou a produzir efeitos concretos sobre o transporte marítimo e os mercados. Dados de rastreamento da Kpler indicaram que apenas seis embarcações atravessaram o Estreito de Ormuz no domingo, o menor número registrado em cinco semanas.

O dado reforça a diferença entre uma rota tecnicamente disponível e uma passagem funcionando normalmente. Embora os Estados Unidos afirmem que um corredor próximo a Omã permanece aberto, ataques, ameaças e riscos para as tripulações continuam afastando embarcações da região.

Na abertura dos mercados nesta segunda-feira, o petróleo Brent avançou cerca de 4% e voltou a se aproximar de US$ 79 por barril. O dólar ganhou força e bolsas asiáticas recuaram diante do risco de uma interrupção mais prolongada no transporte de energia pelo Golfo.

Disputa passa pelo controle da navegação

O Estreito de Ormuz é uma das principais rotas energéticas do mundo. Antes da atual guerra, cerca de um quinto dos carregamentos mundiais de petróleo e gás natural liquefeito passava pela região.

A disputa atual não envolve apenas a possibilidade de os navios atravessarem a passagem. O Irã tenta estabelecer um sistema próprio de autorização e cobrança, enquanto os Estados Unidos rejeitam que Teerã determine as condições para o trânsito em uma rota internacional.

Para o Brasil, uma interrupção prolongada pode pressionar as cotações internacionais do petróleo, os custos de transporte marítimo e a inflação. O país pode receber mais pelas exportações de petróleo em um cenário de preços elevados, mas esse ganho não elimina os possíveis efeitos do câmbio, dos combustíveis e dos fretes sobre a economia brasileira.

A nova escalada também coloca em dúvida o acordo provisório firmado entre Estados Unidos e Irã no mês passado, que previa a reabertura da passagem e um período adicional de negociações. Os ataques recentes mostram que o controle de Ormuz voltou ao centro da guerra e das tentativas de negociação.