Petroleiros voltaram a cruzar o Estreito de Ormuz após a assinatura de um acordo interino entre Estados Unidos e Irã, em um primeiro sinal de alívio para o mercado global de energia depois de semanas de tensão na principal rota marítima do Golfo Pérsico.

O vice-presidente dos Estados Unidos, JD Vance, afirmou que 12,5 milhões de barris de petróleo passaram pelo estreito durante a noite, poucas horas depois de Donald Trump e o presidente iraniano, Masoud Pezeshkian, assinarem o memorando que reabre a passagem e inicia uma janela de 60 dias para negociação de um acordo final. A informação foi publicada pela Reuters.

A reabertura de Ormuz é o ponto mais sensível do acordo. Pelo estreito passam exportações de petróleo e gás de países do Golfo, e qualquer bloqueio ou risco militar na região tende a elevar fretes, seguros, preços do petróleo e incertezas sobre abastecimento.

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Ormuz reabre, mas ainda sob teste

O acordo interino prevê que o Irã garanta passagem comercial segura pelo Estreito de Ormuz durante o período de negociação. Em troca, os Estados Unidos devem encerrar o bloqueio naval a portos iranianos em até 30 dias.

Dados de rastreamento marítimo também indicaram a passagem de três superpetroleiros sauditas pelo estreito, com cerca de 6 milhões de barris de petróleo. O movimento foi visto como um dos primeiros sinais concretos de retomada do fluxo de energia pela região.

Ainda assim, a normalização não deve ser imediata. O setor de navegação segue preocupado com minas marítimas, riscos de novos ataques, dúvidas sobre sanções e custos de seguro. Mesmo com a passagem reaberta, empresas e seguradoras tendem a esperar garantias de segurança antes de retomar plenamente as rotas pelo Golfo.

Líbano vira principal ponto de dúvida

O acordo também fala em encerramento das operações militares em todas as frentes, incluindo o Líbano. Esse trecho, porém, já aparece como um dos pontos mais frágeis da nova fase.

Ataques israelenses continuaram no sul do Líbano após a assinatura do memorando, segundo autoridades locais. A continuidade das operações coloca pressão sobre Washington, que tenta apresentar o acordo como uma virada diplomática capaz de reduzir a guerra regional.

O problema é que Israel não participou diretamente da negociação entre EUA e Irã. Por isso, mesmo que Washington e Teerã tenham aberto uma janela de trégua, a situação no Líbano ainda pode travar a implementação completa do acordo.

Mercado reage com alívio

O mercado de petróleo reagiu à reabertura de Ormuz com queda nos preços. O Brent recuou cerca de 2% e ficou abaixo de US$ 78 por barril, no menor patamar desde o início da escalada militar no fim de fevereiro.

A queda reflete a expectativa de que mais petróleo volte a circular pelo Golfo, reduzindo o prêmio de risco que vinha pressionando os preços internacionais. O alívio, no entanto, depende da continuidade do acordo e da ausência de novos ataques que coloquem navios, portos ou rotas energéticas em risco.

Impacto para o Brasil

Para o Brasil, a reabertura de Ormuz importa principalmente pelo efeito sobre petróleo, dólar, fretes e expectativa de inflação. Uma queda sustentada do Brent pode reduzir parte da pressão externa sobre combustíveis e custos logísticos.

Isso não significa, porém, queda automática da gasolina ou do diesel no país. O preço ao consumidor também depende do câmbio, da política comercial da Petrobras, de impostos, margens de distribuição e do tempo de repasse ao mercado interno.

O ponto central é que o acordo reduz um risco imediato para a economia global, mas não encerra a crise. Se o Líbano continuar como foco de instabilidade ou se Irã e EUA voltarem a se acusar de descumprimento, Ormuz pode rapidamente voltar ao centro da tensão internacional.

O que observar agora

Os próximos dias devem indicar se a reabertura do Estreito de Ormuz será apenas um gesto inicial ou o começo de uma normalização real do comércio de energia no Golfo.

Os principais pontos de atenção são a passagem segura de novos petroleiros, a retirada de riscos marítimos, a reação de Israel no Líbano e a capacidade de EUA e Irã transformarem o memorando interino em um acordo final dentro da janela de 60 dias.