A trégua entre Estados Unidos e Irã anunciada pela Casa Branca não foi suficiente para normalizar o Estreito de Ormuz, principal corredor energético do planeta. Nesta quinta-feira, 9 de abril, dados de navegação citados pela Reuters mostraram que o fluxo no estreito seguia em bem menos de 10% do volume normal, mesmo depois de Washington afirmar no dia anterior que Teerã havia concordado com um cessar-fogo e com a reabertura da rota.

O dado mais relevante do dia é operacional: apenas sete navios atravessaram Ormuz nas últimas 24 horas, contra cerca de 140 em condições normais, segundo a Reuters. A agência também informou que a Guarda Revolucionária do Irã passou a orientar embarcações a navegar por águas iranianas ao redor da ilha de Larak, alterando a lógica usual de passagem e reforçando o controle de Teerã sobre o estreito.

Esse quadro amplia a importância internacional da crise porque Ormuz concentra cerca de 20% dos embarques globais de petróleo e gás natural liquefeito. Em vez de uma reabertura efetiva, o mercado passou a lidar com uma espécie de circulação controlada, em que o cessar-fogo reduz o risco de confronto direto imediato, mas não devolve previsibilidade ao comércio marítimo da região.

A pressão agora também migra para o campo diplomático. Segundo a Reuters, o secretário-geral da OTAN, Mark Rutte, informou a aliados europeus que Donald Trump quer compromissos concretos em poucos dias para ajudar a garantir a navegação em Ormuz. A mesma apuração indica que o Reino Unido lidera um grupo de cerca de 40 países que tenta montar uma resposta militar e diplomática para proteger a passagem no estreito.

Trump elevou o tom ao afirmar que o Irã não deve cobrar taxas de navios que cruzem Ormuz. A declaração veio após relatos de que Teerã poderia impor cobrança para manter o controle da rota durante a trégua. Em paralelo, a Reuters também reportou uma versão atribuída a fonte iraniana citada pela TASS segundo a qual o país permitiria no máximo 15 embarcações por dia no estreito.

O front diplomático, porém, segue contaminado pelos desdobramentos no Líbano. Nesta quinta, Benjamin Netanyahu disse que instruiu seu gabinete a iniciar negociações diretas com o Líbano “o mais rápido possível”, com foco no desarmamento do Hezbollah e na construção de relações pacíficas. Antes disso, o presidente libanês Joseph Aoun já havia defendido um cessar-fogo entre Israel e Líbano como passo necessário para abrir negociações diretas.

Do lado iraniano, o presidente Masoud Pezeshkian afirmou que os ataques israelenses ao Líbano violam o cessar-fogo e tornam as negociações “sem sentido”. A França reforçou a mesma linha ao defender que o Líbano também seja coberto pelo entendimento entre Estados Unidos e Irã, além de cobrar de Teerã garantias de passagem aberta por Ormuz.

Na prática, o Oriente Médio entrou em uma nova fase da crise. O eixo principal já não está apenas no anúncio da trégua, mas na capacidade real de transformar esse anúncio em circulação normal de petróleo, segurança marítima e contenção dos fronts paralelos que seguem ativos. Enquanto Ormuz continuar operando muito abaixo do normal, a paz vendida politicamente por Washington seguirá distante de uma normalização concreta no terreno.