O Irã afirmou nesta terça-feira (18) que manterá o Estreito de Ormuz fechado enquanto os Estados Unidos não cumprirem uma série de condições, incluindo o fim do bloqueio naval contra o país. A declaração eleva novamente a pressão sobre Washington um dia depois de Teerã sinalizar que sua postura militar poderia assumir caráter ofensivo.
O presidente do Parlamento iraniano, Mohammad Bagher Ghalibaf, afirmou que a passagem não será reaberta até que sejam implementadas as condições cobradas por Teerã no memorando firmado com Washington. Além da retirada do bloqueio, ele citou a liberação de ativos iranianos congelados, o fim das sanções ao petróleo e o encerramento de ameaças e operações militares.
A nova declaração ocorreu no mesmo dia em que um navio foi atingido por um projétil desconhecido enquanto deixava o Estreito de Ormuz.
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Navio é atingido ao deixar Ormuz
A United Kingdom Maritime Trade Operations (UKMTO), órgão britânico de monitoramento da segurança marítima, informou que recebeu às 1h35 UTC desta terça-feira o relato de um ataque contra uma embarcação em trânsito de saída pelo estreito.
Segundo o alerta, o projétil atingiu o navio e provocou danos na praça de máquinas. A UKMTO registrou também uma ocorrência envolvendo um tripulante, mas não detalhou no comunicado inicial se houve ferimento ou morte.
Os demais integrantes da tripulação estavam recebendo assistência da Guarda Costeira de Omã. Até o alerta, não havia registro de impacto ambiental.
A UKMTO classificou o episódio como ataque, mas não identificou a origem do projétil nem atribuiu responsabilidade a qualquer país ou grupo. As autoridades investigam o caso.
Irã endurece condições para reabrir o estreito
Ghalibaf afirmou nesta terça-feira que o Irã não reabrirá Ormuz enquanto as condições cobradas dos Estados Unidos não forem cumpridas.
O presidente do Parlamento citou quatro pontos: fim do bloqueio naval americano, liberação de ativos iranianos congelados, retirada das sanções sobre o petróleo e encerramento de ameaças e operações militares.
A declaração atualiza a posição apresentada anteriormente pelo Conselho Supremo de Segurança Nacional, que já condicionava uma mudança no regime de passagem pelo estreito a uma alteração da política americana em relação a Teerã.
Pressão militar já havia aumentado na véspera
Na segunda-feira (17), o brigadeiro-general Yadollah Javani, vice-chefe político da Guarda Revolucionária, afirmou que as ações iranianas desde o início do conflito haviam sido defensivas, mas poderiam assumir caráter ofensivo.
Javani disse ainda que os adversários deveriam esperar “surpresas estratégicas” e que as Forças Armadas adotariam as medidas consideradas necessárias no momento adequado.
A combinação entre a sinalização militar, as novas condições apresentadas por Teerã e o ataque registrado nesta terça mantém o Estreito de Ormuz no centro da escalada entre Irã e Estados Unidos.
Janela de 60 dias chega ao limite
O novo movimento ocorre quando chega ao fim a janela prevista no memorando firmado por Irã e Estados Unidos em junho. O documento estabelece um prazo máximo de 60 dias para que as duas partes negociem um acordo definitivo, com possibilidade de extensão mediante consentimento mútuo.
O mesmo texto determinava que os Estados Unidos começassem a retirar o bloqueio naval imediatamente após a assinatura e o encerrassem integralmente dentro de 30 dias. Em contrapartida, o Irã se comprometia a organizar a passagem segura de embarcações comerciais pelo Estreito de Ormuz durante o período de 60 dias.
Nesta segunda-feira, Donald Trump afirmou que Washington não busca estender o entendimento. Questionado diretamente por jornalistas, o presidente americano respondeu “não” e disse não acreditar que Teerã aceite o tipo de acordo considerado necessário por seu governo.
Teerã diz que acordo está em “coma”
Apesar da escalada retórica e militar, o Ministério das Relações Exteriores iraniano não declarou encerrada a possibilidade de retomada do entendimento.
Abbas Baqerpour, diretor-geral de Assuntos Jurídicos da chancelaria iraniana, afirmou nesta segunda-feira que o memorando não está morto, mas em “coma”, e que poderia ser recuperado caso Washington mude sua postura.
Baqerpour também declarou que o país está preparado para diferentes cenários caso essa via não produza resultados e reiterou que o Irã responderá de maneira decisiva se considerar necessário defender-se.
Por que Ormuz continua no centro da crise
O Estreito de Ormuz permanece decisivo para o mercado mundial de energia. A Administração de Informação de Energia dos Estados Unidos estima que o transporte de petróleo e outros líquidos pela rota caiu de uma média de 21,6 milhões de barris por dia no quarto trimestre de 2025 para 4,9 milhões no segundo trimestre de 2026.
No relatório publicado em 11 de agosto, a agência americana afirmou trabalhar com um cenário em que os embarques por Ormuz continuarão severamente limitados durante agosto, com recuperação gradual a partir de setembro. As interrupções também levaram a agência a elevar sua projeção para o preço médio do Brent no terceiro trimestre para cerca de US$ 85 por barril.
Para o Brasil, uma nova escalada em Ormuz aumenta principalmente o risco de pressão sobre as cotações internacionais de petróleo e derivados. O efeito sobre preços domésticos não é automático e depende também do câmbio, da duração da crise e das decisões de preços no mercado brasileiro.



