O Irã sinalizou que pode adotar uma postura militar ofensiva em meio ao impasse com os Estados Unidos sobre o Estreito de Ormuz. O brigadeiro-general Yadollah Javani, vice-chefe político da Guarda Revolucionária, afirmou que as ações iranianas desde o início do conflito foram defensivas, mas podem assumir um caráter ofensivo.
Em entrevista divulgada nesta segunda-feira (17), Javani disse que os adversários devem esperar “surpresas estratégicas” e afirmou que as Forças Armadas executarão, no momento considerado adequado, as medidas necessárias para proteger o território iraniano e neutralizar ameaças.
A declaração ocorre em meio à disputa pelo Estreito de Ormuz e à manutenção do bloqueio naval dos Estados Unidos contra o Irã. Teerã exige a retirada desse bloqueio como uma das condições para alterar sua posição sobre a passagem pela rota estratégica.
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Irã vincula Ormuz ao bloqueio americano
Mohammad Bagher Zolghadr, secretário do Conselho Supremo de Segurança Nacional do Irã, afirmou neste mês que o Estreito de Ormuz não será reaberto completamente enquanto os Estados Unidos não mudarem sua política em relação ao país.
Entre as exigências apresentadas por Zolghadr estão o fim do bloqueio marítimo, a retirada das forças navais e aéreas americanas das proximidades do Irã, o encerramento das operações militares e a suspensão das sanções. O dirigente afirmou que Teerã não pretende recuar dessas condições nem durante a guerra nem em uma eventual negociação.
A sinalização militar também foi reforçada nesta segunda-feira pela própria Guarda Revolucionária. Em comunicado separado, o IRGC afirmou que utilizará suas capacidades para defender a integridade territorial, a independência e os interesses nacionais do Irã e prometeu uma resposta decisiva diante de novas ameaças ou ações militares.
Janela de 60 dias chega ao limite
O novo movimento ocorre quando chega ao fim a janela prevista no memorando firmado por Irã e Estados Unidos em junho. O documento estabelece um prazo máximo de 60 dias para que as duas partes negociem um acordo definitivo, com possibilidade de extensão mediante consentimento mútuo.
O mesmo texto determinava que os Estados Unidos começassem a retirar o bloqueio naval imediatamente após a assinatura e o encerrassem integralmente dentro de 30 dias. Em contrapartida, o Irã se comprometia a organizar a passagem segura de embarcações comerciais pelo Estreito de Ormuz durante o período de 60 dias.
Nesta segunda-feira, Donald Trump afirmou que Washington não busca estender o entendimento. Questionado diretamente por jornalistas, o presidente americano respondeu “não” e disse não acreditar que Teerã aceite o tipo de acordo considerado necessário por seu governo.
Teerã diz que acordo está em “coma”
Apesar da escalada retórica e militar, o Ministério das Relações Exteriores iraniano não declarou encerrada a possibilidade de retomada do entendimento.
Abbas Baqerpour, diretor-geral de Assuntos Jurídicos da chancelaria iraniana, afirmou nesta segunda-feira que o memorando não está morto, mas em “coma”, e que poderia ser recuperado caso Washington mude sua postura.
Baqerpour também declarou que o país está preparado para diferentes cenários caso essa via não produza resultados e reiterou que o Irã responderá de maneira decisiva se considerar necessário defender-se.
Por que Ormuz continua no centro da crise
O Estreito de Ormuz permanece decisivo para o mercado mundial de energia. A Administração de Informação de Energia dos Estados Unidos estima que o transporte de petróleo e outros líquidos pela rota caiu de uma média de 21,6 milhões de barris por dia no quarto trimestre de 2025 para 4,9 milhões no segundo trimestre de 2026.
No relatório publicado em 11 de agosto, a agência americana afirmou trabalhar com um cenário em que os embarques por Ormuz continuarão severamente limitados durante agosto, com recuperação gradual a partir de setembro. As interrupções também levaram a agência a elevar sua projeção para o preço médio do Brent no terceiro trimestre para cerca de US$ 85 por barril.
Para o Brasil, uma nova escalada em Ormuz aumenta principalmente o risco de pressão sobre as cotações internacionais de petróleo e derivados. O efeito sobre preços domésticos não é automático e depende também do câmbio, da duração da crise e das decisões de preços no mercado brasileiro.



