O Irã passou a tratar a reabertura do Estreito de Ormuz como duas negociações diferentes: uma para definir por onde e sob quais regras os navios poderão circular e outra, diretamente ligada aos Estados Unidos, para decidir se a passagem voltará a operar plenamente.
A diferença ajuda a entender por que Teerã e Omã podem estar perto de um acordo sobre uma nova rota marítima e, ao mesmo tempo, autoridades iranianas continuarem afirmando que Ormuz permanecerá fechado.
Mohsen Rezaei, novo secretário do Conselho Supremo de Segurança Nacional do Irã, afirmou nesta terça-feira (11) que mesmo um entendimento entre os dois países costeiros sobre as rotas não terá efeito automático sobre a decisão iraniana de abrir ou fechar o estreito. Segundo ele, a reabertura total dependerá de os Estados Unidos aceitarem as condições apresentadas por Teerã.
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As exigências vão muito além da circulação de navios.
As 7 exigências apresentadas pelo Irã
Três dias antes da declaração de Rezaei, o então secretário do Conselho Supremo de Segurança Nacional, Mohammad Bagher Zolghadr, havia tornado público o conjunto mais completo de condições iranianas para mudar a situação em Ormuz.
As exigências podem ser organizadas em sete frentes:
- fim das ameaças dos Estados Unidos contra o Irã e das ofensas a referências religiosas iranianas;
- encerramento permanente das ações militares contra o Irã e contra aliados de Teerã no Líbano, Palestina, Iêmen e Iraque;
- retirada do bloqueio marítimo americano contra o Irã;
- retirada das forças navais e aéreas dos Estados Unidos posicionadas ao redor do país;
- pagamento integral dos danos que Teerã atribui às duas guerras recentes;
- retirada das sanções impostas ao Irã;
- liberação sem condições dos ativos iranianos congelados ou apreendidos.
Zolghadr vinculou diretamente essas exigências à abertura do estreito. Rezaei reiterou nesta terça parte do pacote, especificamente o fim da guerra contra o Irã e seus aliados e a liberação de recursos bloqueados, e afirmou que outras condições já foram transmitidas a Washington por intermediários.
Uma nova rota não significa Ormuz aberto
Em paralelo à disputa com os Estados Unidos, Irã e Omã estão próximos de concluir outro processo: a definição de uma nova rota para a navegação pelo estreito.
O chanceler Abbas Araghchi afirmou que militares e autoridades marítimas dos dois países estão trabalhando sobre mapas e questões técnicas e jurídicas. Segundo ele, o sistema de separação de tráfego utilizado anteriormente deixou de ser aceitável para o Irã.
A proposta é criar inicialmente uma rota temporária, que serviria de base para uma configuração permanente.
É justamente aí que está a principal diferença.
O acordo com Omã responde à pergunta “como os navios poderão passar?”. As exigências dirigidas aos Estados Unidos respondem a outra: “quando o Irã permitirá que Ormuz volte a funcionar plenamente?”.
O próprio Araghchi já havia advertido que a conclusão da nova rota não significaria a abertura do estreito. Rezaei reforçou essa separação nesta terça-feira.
Irã tenta mudar Ormuz para além da atual crise
Os movimentos dos últimos dias indicam que Teerã também discute mudanças que podem sobreviver à atual fase da guerra.
Sadegh Amoli Larijani, presidente do Conselho de Discernimento iraniano, afirmou no domingo (9) que o estreito não retornará às condições anteriores.
No mesmo dia, a Comissão de Segurança Nacional e Política Externa do Parlamento aprovou, sem votos contrários, as linhas gerais de um projeto chamado “Ação Estratégica para Garantir a Segurança e o Desenvolvimento Sustentável do Estreito de Ormuz e do Golfo Pérsico”.
O texto ainda não é lei.
Em sua versão preliminar, porém, a proposta encarrega o governo e as Forças Armadas de atuar na segurança marítima e na navegação e prevê uma proibição geral à passagem de embarcações pertencentes ou registradas nos Estados Unidos, em Israel ou em outros países considerados hostis pelo Irã.
Isso significa que a disputa deixou de envolver apenas a duração do fechamento. O modelo de funcionamento de Ormuz depois de uma eventual reabertura também entrou na negociação.
Por que essa diferença importa
Ormuz continua longe de seu fluxo normal.
Dados divulgados nesta terça-feira pela Administração de Informação de Energia dos Estados Unidos mostram que o volume de petróleo e outros líquidos transportados pelo estreito caiu de uma média de 21,6 milhões de barris por dia no quarto trimestre de 2025 para 4,9 milhões no segundo trimestre deste ano.
É uma redução de aproximadamente 77%.
A agência americana trabalha com a hipótese de que o transporte pelo estreito continuará severamente limitado durante agosto e começará a crescer lentamente em setembro.
A restrição também levou a EIA a elevar sua previsão para o Brent no terceiro trimestre para cerca de US$ 85 por barril, US$ 11 acima da projeção realizada um mês antes.
Assim, um eventual anúncio de acordo entre Irã e Omã não significa, sozinho, que os aproximadamente 16 milhões de barris diários que desapareceram da rota em relação ao período anterior à guerra voltarão imediatamente ao mercado.
O que isso significa para o Brasil
O efeito para o Brasil tem duas direções.
O país tende a ampliar sua posição de exportador líquido de petróleo, o que torna preços internacionais elevados relevantes para produtores e exportações brasileiras.
Ao mesmo tempo, o Brasil continua dependente do exterior para parte dos derivados que consome. A Empresa de Pesquisa Energética projeta que o país permanecerá importador líquido de derivados ao longo da próxima década, especialmente de óleo diesel e nafta.
Por isso, uma restrição prolongada em Ormuz pode favorecer o valor do petróleo bruto exportado pelo Brasil e, simultaneamente, manter pressão sobre o custo internacional de derivados importados.
Isso não significa aumento automático da gasolina ou do diesel nas bombas. Significa que, enquanto o principal gargalo energético do Golfo não voltar ao funcionamento normal, uma das maiores fontes de risco sobre os preços internacionais do petróleo continuará presente.



