Estados Unidos e Irã chegaram a um acordo preliminar para estender o cessar-fogo por mais 60 dias e aliviar restrições ao transporte marítimo pelo Estreito de Ormuz, segundo fontes ouvidas pela Reuters.

A proposta, no entanto, ainda depende da aprovação de Donald Trump e não foi confirmada oficialmente por Teerã.

Quatro fontes familiarizadas com o assunto disseram que o entendimento permitiria a retomada do tráfego pela rota estratégica enquanto negociadores tratam de temas mais difíceis, como o programa nuclear iraniano.

A agência iraniana Tasnim, citando uma fonte próxima à equipe negociadora, afirmou que o texto do acordo ainda não foi finalizado nem confirmado. A Casa Branca não comentou oficialmente a proposta.

Se for aprovado pelas lideranças em Washington e Teerã, o acordo representará o maior avanço diplomático desde o início da guerra, em 28 de fevereiro. Ainda assim, o cenário permanece frágil: a notícia do possível entendimento veio logo após uma nova troca de ataques entre os dois países.

O que o acordo prevê

Segundo a Reuters, o acordo especificaria navegação sem restrições pelo Estreito de Ormuz, exigiria que os Estados Unidos retirassem o bloqueio a portos iranianos e incluiria alívio em algumas sanções sobre vendas de petróleo do Irã.

A AP também informou que negociadores americanos e iranianos chegaram a um entendimento preliminar para estender o cessar-fogo por 60 dias e iniciar nova rodada de conversas sobre o programa nuclear iraniano. A agência destacou, porém, que Trump ainda não deu aval ao texto e que o Irã não confirmou imediatamente o acordo.

A proposta tenta separar duas frentes da crise. A primeira seria a redução imediata da tensão militar e marítima em Ormuz. A segunda, mais difícil, envolveria a negociação sobre o programa nuclear iraniano e o destino do estoque de urânio altamente enriquecido do país.

Esse formato indicaria uma tentativa de criar uma trégua operacional antes de resolver os pontos mais sensíveis. Na prática, Washington e Teerã tentariam estabilizar o estreito para depois avançar sobre o núcleo da disputa nuclear.

Ormuz continua no centro da crise

O Estreito de Ormuz é a principal peça econômica e estratégica da negociação. Pela rota passa cerca de um quinto do petróleo e do gás natural liquefeito do mundo.

A possibilidade de reabertura mais ampla do estreito levou os preços do petróleo a caírem, em reação à expectativa de normalização parcial do tráfego marítimo. O movimento mostra como qualquer sinal de acordo entre EUA e Irã afeta rapidamente energia, frete e cadeias globais de abastecimento.

A AP informou que o memorando preliminar prevê que o Irã não poderá impor pedágios no Estreito de Ormuz e terá de remover minas da rota em até 30 dias, segundo uma autoridade americana familiarizada com o assunto.

Esse ponto é sensível porque os EUA alertaram Omã para não se envolver em qualquer esforço com o Irã para impor cobranças no estreito. O secretário do Tesouro americano, Scott Bessent, disse que o embaixador de Omã afirmou não haver planos para impor esses pedágios.

Ataques mostram fragilidade da trégua

Apesar do avanço diplomático, a trégua continua instável. Antes da notícia sobre o acordo preliminar, o Comando Central dos EUA disse que suas forças derrubaram cinco drones de ataque iranianos e atingiram uma estação de controle terrestre em Bandar Abbas que estaria prestes a lançar outro drone.

A Reuters informou também que forças do Kuwait interceptaram um míssil balístico disparado em direção ao país, que abriga uma grande base americana.

A Guarda Revolucionária do Irã afirmou ter mirado a base americana responsável pelo ataque em Bandar Abbas e disse que qualquer repetição levaria a uma resposta mais forte, segundo a agência Tasnim citada pela Reuters.

A troca de ataques reforça a contradição central da crise: há negociação em andamento, mas ela ocorre sob pressão militar permanente. As partes ainda tentam transformar o cessar-fogo em um acordo mais duradouro, mas qualquer novo incidente pode comprometer a aprovação política da proposta.

Programa nuclear segue sem solução

Mesmo que o acordo de 60 dias avance, o programa nuclear iraniano continuará como o tema mais difícil. A AP informou que uma das primeiras questões a serem negociadas durante a trégua será o destino do urânio altamente enriquecido do Irã.

Trump já afirmou que não se sentiria confortável com a possibilidade de Rússia ou China assumirem o estoque iraniano. Teerã, por outro lado, nega buscar armas nucleares e exige alívio de sanções, descongelamento de recursos e retirada de forças americanas da região.

A Reuters informou que o Irã também quer que qualquer acordo de paz trate dos ataques de Israel no Líbano. Esse ponto amplia a dificuldade da negociação, porque envolve aliados, grupos regionais e frentes militares que não dependem apenas de Washington e Teerã.

Impacto para o Brasil

Para o Brasil, o possível acordo interessa pelo efeito sobre petróleo, frete marítimo, fertilizantes e inflação. O país não participa das negociações, mas pode ser afetado por choques em Ormuz, especialmente quando há impacto sobre energia e transporte global.

Uma reabertura mais ampla do estreito tende a aliviar a pressão sobre petróleo e frete. Isso pode reduzir parte do risco sobre combustíveis e insumos agrícolas, incluindo fertilizantes importados.

Mas o acordo ainda é preliminar. Sem aprovação de Trump e sem confirmação final do Irã, a crise continua sujeita a novas oscilações. O avanço diplomático é relevante, mas ainda não elimina o risco de escalada militar.