O caso Dark Horse ganhou um novo capítulo poucas horas depois de provas recolhidas em São Paulo começarem a chegar à Polícia Federal.

Na quarta-feira (26), a Polícia Civil enviou à PF documentos, depoimentos, dados de celulares e outras informações obtidas em uma investigação sobre um contrato de R$ 108 milhões da Prefeitura de São Paulo. Na mesma noite, a defesa de Karina Ferreira da Gama, ligada à produtora do filme sobre Jair Bolsonaro, pediu ao ministro André Mendonça que suspendesse a investigação paulista e levasse o caso ao STF.

Para entender por que isso importa, é preciso voltar à origem da investigação.

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Como um contrato de Wi-Fi chegou a Dark Horse

O caso começou longe de Daniel Vorcaro e do filme.

Em 2024, a Prefeitura de São Paulo firmou um contrato de R$ 108 milhões com o Instituto Conhecer Brasil, presidido por Karina, para implantar e operar 5 mil pontos de Wi-Fi gratuito.

A Polícia Civil passou a investigar suspeitas de irregularidades nesse contrato. Ao seguir movimentações financeiras do instituto e de pessoas ligadas a ele, a apuração chegou também à Go Up Entertainment, empresa envolvida na produção de Dark Horse.

A suspeita investigada é se dinheiro ligado ao contrato público circulou entre empresas e teve destinação diferente da prevista.

Não há, até agora, prova de que recursos públicos tenham financiado Dark Horse. Karina e a Prefeitura negam desvios.

O problema é que, ao tentar descobrir para onde o dinheiro foi, a Polícia Civil entrou em uma área que também interessa a investigações no STF.

O dinheiro de Vorcaro criou outra investigação

Dark Horse já estava sob escrutínio por outro motivo.

Em maio, vieram a público áudios e mensagens sobre a busca de Flávio Bolsonaro por dinheiro de Daniel Vorcaro, então dono do Banco Master, para financiar o filme sobre Jair Bolsonaro.

Flávio confirmou que procurou Vorcaro, mas afirmou que se tratava de financiamento privado para uma produção privada e negou qualquer irregularidade.

O caso passou a ser investigado no STF por sua conexão com Vorcaro e com as apurações sobre o Banco Master. Essa frente está sob a relatoria de André Mendonça.

É aí que as duas histórias se encontram.

A Polícia Civil quer saber para onde foram recursos ligados ao contrato público. A investigação sob Mendonça quer esclarecer a origem e o destino do dinheiro ligado a Vorcaro e ao filme.

Ao seguir essas duas trilhas, os investigadores passaram a olhar para algumas das mesmas pessoas e empresas.

Por que a PF quis as provas de São Paulo

Existe ainda uma terceira frente.

Entidades ligadas a Karina também receberam emendas parlamentares. Entre elas estão recursos indicados pelo deputado Mário Frias, que assina o roteiro de Dark Horse.

Frias nega que as emendas tenham sido usadas para financiar o longa.

Essa investigação está sob a relatoria de Flávio Dino, que autorizou a PF a acessar o material já reunido pela Polícia Civil paulista.

Na prática, a PF passou a poder aproveitar uma investigação que estava mais avançada na coleta de documentos e dados sobre as estruturas ligadas a Karina.

Horas depois veio o pedido para interromper a investigação paulista.

O que a defesa quer mudar

A explicação da defesa é simples: os advogados afirmam que a Polícia Civil deveria investigar o contrato de Wi-Fi, mas foi além ao passar a procurar informações sobre o financiamento de Dark Horse.

Como essa parte já é investigada no STF por André Mendonça, a defesa sustenta que São Paulo entrou em um assunto que deveria estar sob responsabilidade do Supremo.

Por isso, pede que Mendonça suspenda a investigação paulista e assuma o caso.

O pedido não significa que a investigação será automaticamente transferida.

Mendonça pode rejeitá-lo, limitar quais assuntos podem continuar sendo investigados em São Paulo ou entender que parte maior do caso deve ficar no STF.

O que mudou nesta semana é que essa discussão deixou de ser apenas teórica.

As provas produzidas em São Paulo começaram a chegar à Polícia Federal justamente quando a defesa tenta estabelecer até onde a Polícia Civil pode continuar seguindo o dinheiro.

E essa é hoje a principal questão do caso: investigações que começaram procurando respostas diferentes passaram a chegar às mesmas estruturas financeiras.

Agora, o STF terá de definir onde termina uma investigação e começa a outra.

Até a publicação, não havia decisão pública de André Mendonça sobre o pedido.