A Polícia Federal ganhou acesso a um conjunto de provas que pode ajudar a esclarecer uma das principais dúvidas em torno de “Dark Horse”, filme sobre Jair Bolsonaro: se recursos públicos destinados a entidades ligadas à produtora permaneceram separados da estrutura privada responsável pelo longa.

O ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), autorizou a PF a consultar dados obtidos pela Polícia Civil de São Paulo em uma investigação sobre o Instituto Conhecer Brasil (ICB). A entidade é comandada por Karina Ferreira da Gama, também ligada à Go Up Entertainment, produtora de “Dark Horse”.

A investigação federal acompanha a destinação de R$ 2 milhões em emendas do deputado Mário Frias (PL-SP) ao Instituto Conhecer Brasil. Frias também participa de “Dark Horse” como produtor executivo e afirma que os recursos públicos foram destinados a projetos sociais e não ao filme.

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Até agora, uma parte importante da apuração federal estava justamente em entender a relação entre essas estruturas. Com a autorização de Dino, a PF passa a poder olhar também para documentos, registros financeiros e materiais apreendidos em uma investigação que entrou fisicamente nesse mesmo núcleo de entidades.

Por que as provas de São Paulo importam

O material foi recolhido pela Polícia Civil durante a Operação Wi-Fi Livre, que investiga a execução de um contrato firmado entre o Instituto Conhecer Brasil e a Prefeitura de São Paulo.

O acordo original, assinado em junho de 2024, previa R$ 108 milhões para instalar e operar 5 mil pontos de internet gratuita em comunidades da capital. Posteriormente, a parceria foi prorrogada e recebeu um aditivo de R$ 49,18 milhões.

A ligação com “Dark Horse” não está no objeto do contrato. O dinheiro da Prefeitura era destinado ao serviço de Wi-Fi.

O que chama a atenção dos investigadores é que a entidade responsável pelo contrato e a produtora do filme são ligadas à mesma empresária. Por isso, documentos sobre despesas, fornecedores, pagamentos e movimentações do instituto podem ajudar a PF a verificar se as atividades permaneceram financeiramente separadas.

A Polícia Civil e o Ministério Público de São Paulo investigam suspeitas na contratação e na execução do programa. Segundo os investigadores, o ICB apresentou pelo menos R$ 16,5 milhões em notas fiscais consideradas irregulares na prestação de contas. Na operação, foram apreendidos documentos físicos e digitais, equipamentos eletrônicos e registros financeiros.

O programa de Wi-Fi, porém, não existia apenas no papel. Dados da própria Prefeitura mostram que 3.133 pontos haviam sido instalados em áreas vulneráveis desde o início da parceria até julho de 2025.

Essa diferença é importante para compreender o caso: a investigação não parte da ideia de que o serviço inteiro era fictício. O que está sob análise é como o contrato foi celebrado, executado e contabilizado.

A Prefeitura afirma que monitora a execução da parceria e declarou anteriormente que não existe decisão definitiva apontando desvios ou ilegalidades estruturais. Segundo a administração municipal, inconsistências de aproximadamente R$ 930 mil identificadas na prestação de contas de 2024 foram devolvidas ao município.

Onde entram as emendas de Mário Frias

A frente conduzida pela PF sob relatoria de Dino tem outro ponto de partida: dinheiro do Orçamento federal.

Mário Frias destinou R$ 2 milhões em emendas ao Instituto Conhecer Brasil. O deputado também é produtor executivo de “Dark Horse”, combinação que levou o STF a pedir esclarecimentos sobre a destinação dos recursos.

Frias nega que as emendas tenham financiado o longa. Em manifestação ao STF, afirmou que os valores foram destinados a projetos de inclusão digital, empreendedorismo e esporte e disse não haver prova de desvio para a produção cinematográfica.

A Advocacia da Câmara dos Deputados também informou que não encontrou irregularidades formais no procedimento das duas emendas analisadas. A investigação da PF procura responder a uma questão diferente: o que aconteceu com o dinheiro depois da destinação formal.

É aí que a decisão de Dino ganha importância.

Os documentos apreendidos pela Polícia Civil não provam, por si só, que houve mistura entre recursos públicos e a produção do filme. Eles podem, porém, fornecer à PF registros que permitam reconstruir pagamentos, despesas e relações entre as entidades envolvidas, e verificar se a separação financeira existia também na prática.

Vorcaro é uma segunda trilha do dinheiro

O caso das emendas não deve ser confundido com a investigação envolvendo Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master.

Essa outra frente começou depois que vieram a público mensagens e um áudio em que Flávio Bolsonaro tratava com Vorcaro de pagamentos ligados a “Dark Horse”. Flávio confirmou que procurou o empresário para buscar financiamento privado para a produção.

A apuração sobre esse dinheiro está sob relatoria do ministro André Mendonça e busca reconstruir o caminho e a destinação dos recursos ligados à negociação com Vorcaro.

As duas trilhas chegam ao mesmo filme por caminhos diferentes.

De um lado, a investigação sob Dino tenta esclarecer se dinheiro público destinado a entidades ligadas à produtora permaneceu restrito aos projetos para os quais foi enviado. Do outro, a investigação sob Mendonça procura entender a origem e o destino do financiamento privado negociado para “Dark Horse”.

A decisão divulgada agora não responde nenhuma dessas perguntas. Mas dá à PF, na frente das emendas, acesso a uma fonte de informação que antes estava em outra investigação: o material apreendido dentro das estruturas que administravam parte desses recursos públicos.