Um contrato de advocacia ajuda a colocar números em uma das frentes até agora menos explicadas do caso Banco Master: Daniel Vorcaro tinha interesse em créditos judiciais estimados em cerca de R$ 8,5 bilhões, enquanto o escritório contratado para atuar nessas causas receberia 5% do resultado obtido pelo banco.
Se todo o valor considerado no contrato fosse recuperado, os honorários chegariam a aproximadamente R$ 427 milhões.
O dinheiro não aparece como pagamento já realizado. A remuneração era condicionada ao êxito das causas. O documento divulgado pelo Metrópoles prevê que o escritório Queiroga, Vieira, Queiroz & Ramos Advocacia receberia os honorários depois dos ganhos obtidos pelo Master em disputas envolvendo indenizações cobradas da União.
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É essa estrutura que ajuda a entender por que decisões aparentemente técnicas sobre antigas usinas de açúcar e álcool tinham valor financeiro tão alto para o banco, e por que mensagens encontradas no celular de Vorcaro sobre advogados, desembargadores e ministros passaram a ter importância para a investigação.
O que o Master tinha a receber
A origem do dinheiro está em uma disputa muito anterior ao Banco Master.
Durante décadas, empresas do setor sucroalcooleiro discutiram na Justiça prejuízos provocados pelo controle de preços exercido pelo antigo Instituto do Açúcar e do Álcool, o IAA.
Algumas dessas empresas conquistaram decisões reconhecendo direito a indenizações. Esses créditos podem ser negociados: uma empresa que tem dinheiro a receber da União pode ceder esse direito a outra pessoa ou instituição.
O Banco Master passou a aparecer justamente como credor ou cessionário de créditos desse tipo nos documentos divulgados agora.
Em termos simples, o banco comprava ou passava a deter direitos sobre valores que poderiam ser pagos no futuro. Se conseguisse receber mais do que desembolsou para adquirir esses direitos, a diferença poderia representar um ganho relevante.
O problema é que possuir o crédito não significava ter R$ 8,5 bilhões disponíveis em caixa.
O valor final dependia de uma sequência de decisões judiciais: se a indenização continuava válida, como o prejuízo deveria ser calculado e quanto a União efetivamente teria de pagar.
É aí que começa a disputa no STF.
Por que o julgamento era tão importante
Em 2020, o Supremo fixou no Tema 826 uma regra importante para essas indenizações: não bastava apontar a diferença entre os preços controlados pelo governo e outros valores de referência. Para responsabilizar a União, seria necessário demonstrar o prejuízo econômico efetivamente sofrido por cada empresa, por meio de perícia técnica.
Mas parte das usinas tinha decisões judiciais antigas e definitivas estabelecendo critérios para o pagamento.
Surgiu então outra pergunta: uma regra fixada posteriormente pelo STF poderia alterar a forma de calcular indenizações que já tinham sido definidas por decisões anteriores?
Para os credores, preservar essas decisões antigas podia representar bilhões de reais.
Para a União, aplicar a exigência de demonstração individual do prejuízo poderia reduzir ou impedir pagamentos.
Essa diferença fica clara no ARE 1.327.995, envolvendo a Destilaria Alcídia.
Em fevereiro de 2024, o julgamento terminou empatado. Edson Fachin e Dias Toffoli ficaram de um lado; André Mendonça e Gilmar Mendes, de outro. Kassio Nunes Marques constava inicialmente como impedido.
Em 7 de março, Nunes Marques afastou a anotação de impedimento e declarou-se habilitado a participar do julgamento. O próprio andamento oficial do STF registra essa decisão.
A discussão continuou e, posteriormente, prevaleceu a posição de Fachin, Toffoli e Nunes Marques. Gilmar Mendes e André Mendonça ficaram vencidos. O processo terminou definitivamente em outubro de 2025.
Foi justamente uma decisão ligada a essa discussão jurídica que apareceu comemorada nas mensagens de Vorcaro.
A mensagem de Camilla Ramos
Camilla Ramos, integrante do escritório contratado pelo Master e mulher do desembargador federal Newton Ramos, enviou a Vorcaro uma mensagem em junho de 2025 destacando o voto de Nunes Marques.
Ela classificou como “excelente” a posição do ministro ao diferenciar situações em que uma decisão judicial anterior já havia estabelecido os critérios para a indenização.
No dia seguinte, segundo as mensagens divulgadas, Camilla propôs um encontro entre Vorcaro e Newton Ramos.
Essa sequência é relevante porque o escritório tinha remuneração diretamente vinculada ao sucesso das causas.
Mas há uma diferença importante entre as duas coisas.
O processo da Destilaria Alcídia não aparece entre as causas enumeradas na página do contrato divulgada até agora. A relação demonstrada é com a tese jurídica discutida no processo, que poderia influenciar outras disputas semelhantes.
Nunes Marques também afirma que o processo julgado por ele não correspondia às ações patrocinadas por Camilla Ramos no STJ.
Segundo o ministro, seu voto tratou de uma questão jurídica ampla aplicável a diferentes empresas, e não de uma ação do Banco Master. Ele afirma ainda que nunca trocou mensagens com Daniel Vorcaro, nunca autorizou terceiros a falarem em seu nome e nunca votou a favor do banqueiro ou do banco.
O que eram os R$ 427 milhões
O contrato ajuda a separar dois números que podem ser confundidos.
Os aproximadamente R$ 8,5 bilhões representam o valor atribuído aos créditos de interesse do Master abrangidos pelo acordo.
Os R$ 427 milhões representam a estimativa dos honorários que poderiam ser pagos ao escritório caso houvesse êxito.
A cláusula divulgada estabelece remuneração de 5% sobre o benefício econômico bruto obtido pelo banco, com pagamento em até cinco dias depois da obtenção dos ganhos. O contrato também abrangia recursos e incidentes decorrentes das ações.
Portanto, não há nos documentos divulgados comprovação de que R$ 427 milhões tenham sido efetivamente pagos.
O que existe é um contrato que colocava o escritório diretamente no resultado financeiro da disputa: quanto maior fosse o valor recuperado pelo Master, maior seria a remuneração.
A “Turma do KN”
As mensagens acrescentam outra camada.
Assessores de Vorcaro utilizavam a expressão “Turma do KN” ao tratar de Newton Ramos e Camilla Ramos. Nas mesmas conversas, “KN” aparece associado ao ministro Kassio Nunes Marques.
O material também registra pedidos pessoais encaminhados pela mesma rede.
Em uma das conversas, um assessor informa a Vorcaro sobre um pedido de hospedagem no hotel Fasano atribuído a Nunes Marques. Outra mensagem encaminhada ao banqueiro afirma que o ministro havia pedido ajuda para conseguir uma tarifa no hotel. Vorcaro responde autorizando que a despesa fosse colocada em sua conta.
Há ainda referências a camarotes, viagens e outras solicitações envolvendo Newton Ramos.
O desembargador afirma que mantinha relação pessoal com Vorcaro antes dos fatos atualmente investigados e que as consultas envolvendo imóveis e transportes eram privadas, sem relação com sua função pública. Newton também declarou que nunca julgou causa de interesse do Banco Master.
Nunes Marques nega ter feito pedidos a Vorcaro ou autorizado alguém a fazê-los em seu nome.
A existência dessas relações não resolve, sozinha, a questão central investigativa. O ponto que os documentos acrescentam é que havia, simultaneamente, bilhões de reais em jogo nas causas judiciais, remuneração condicionada ao sucesso para o escritório contratado e contatos pessoais envolvendo pessoas relacionadas à disputa.
Vorcaro procurou outros ministros
As tentativas de Vorcaro de discutir esses créditos não ficaram restritas a essa rede.
O próprio Banco Master participou de uma audiência com Gilmar Mendes no STF em abril de 2024 para tratar do ARE 1.327.995.
O gabinete de Gilmar informou que a audiência ocorreu oficialmente no Supremo, com advogados do banco, e destacou que o ministro terminou votando contra a posição de interesse do Master.
No julgamento concluído em 2025, Gilmar e André Mendonça ficaram vencidos; Fachin, Nunes Marques e Toffoli formaram a maioria.
A reunião com ministros por advogados ou partes de um processo não representa, por si só, irregularidade. O dado ajuda, porém, a mostrar o tamanho da disputa travada em torno desses créditos e a importância que o tema tinha para Vorcaro.
O próprio André Mendonça já confirmou que recebeu Vorcaro em março de 2025, antes de assumir a relatoria das investigações do Master, para tratar de uma ação envolvendo precatórios.
O que essa nova revelação muda
Até agora, boa parte da cobertura do caso Master mostrou quem conversava com Vorcaro, quem aparecia em mensagens e quais autoridades foram procuradas.
O contrato acrescenta uma informação que ajuda a organizar essas relações: o tamanho do interesse econômico por trás de uma das disputas.
Não era apenas uma discussão abstrata sobre jurisprudência.
O Master tinha créditos estimados em bilhões de reais dependentes do resultado de processos contra a União. O escritório contratado teria direito a 5% do ganho obtido. E mensagens mostram seus integrantes acompanhando de perto decisões capazes de influenciar essa discussão.
As versões também divergem sobre a relação entre as causas: Nunes Marques sustenta que o processo em que votou não era uma das ações patrocinadas por Camilla Ramos e que sua posição jurídica era aplicável de forma geral.
A discussão sobre essas relações chega num momento em que o próprio STF ainda tenta definir como serão conduzidos os diferentes braços do caso Master. Depois do pedido de vista de Flávio Dino, Fachin retirou da pauta o processo que analisaria questionamentos sobre a atuação de André Mendonça.
Outra parte decisiva da investigação também continua fechada: mais de 30 quebras bancárias e fiscais ligadas ao Master seguem sob sigilo, enquanto a Polícia Federal analisa o caminho financeiro do grupo.
A nova frente dos precatórios acrescenta, portanto, uma peça diferente à investigação: mostra quanto dinheiro poderia depender de decisões judiciais e quem também tinha interesse financeiro no resultado.



