O ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal, autorizou nesta terça-feira (4) a abertura do terceiro inquérito para investigar Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
A nova apuração trata de suspeitas de tráfico de influência envolvendo empresas parceiras do filho do presidente. Dino também autorizou a abertura de uma investigação separada sobre possíveis vazamentos ilegais de dados sigilosos de pessoas investigadas. Nessa segunda frente, Lulinha pode aparecer como vítima.
Outros dois inquéritos já haviam sido autorizados pelo ministro André Mendonça. Uma das apurações investiga uma possível atuação de Lulinha em negócios relacionados à venda de cannabis medicinal ao Ministério da Saúde. A outra examina a suspeita de favorecimento a um empresário que procurava negociar com a Dataprev e outros órgãos federais.
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A abertura de um inquérito permite que a Polícia Federal reúna documentos, realize depoimentos e aprofunde as suspeitas apresentadas. A medida não representa denúncia, julgamento ou reconhecimento de culpa.
Ex-chefe de gabinete confirma empréstimo
Separadamente, Marco Aurélio Santana Ribeiro, conhecido como Marcola e ex-chefe do Gabinete Pessoal da Presidência, confirmou que recebeu dinheiro da empresária Roberta Luchsinger.
Ribeiro afirmou que recebeu de Roberta Luchsinger um empréstimo de R$ 249 mil e negou qualquer ilegalidade relacionada ao exercício de sua função. Segundo ele, a movimentação teve natureza estritamente privada e o valor já foi quitado.
De acordo com informações divulgadas posteriormente, Roberta realizou uma série de transferências ao ex-assessor em 2024. Um acordo para a quitação dos R$ 249 mil foi feito neste ano. Ribeiro afirmou que colocou seus sigilos bancário e fiscal à disposição da Justiça e constituiu advogado para apresentar os documentos relacionados à operação.
Luchsinger é amiga de Lulinha e aparece nas apurações relacionadas às suspeitas de tráfico de influência. Ela também prestou serviços a Antonio Carlos Camilo Antunes, conhecido como Careca do INSS.
A existência do empréstimo não comprova a prática de crime. Até a publicação, não havia informação pública de que a operação financeira, isoladamente, fosse objeto formal do terceiro inquérito autorizado por Dino.
Roberta fez 40 visitas a ministérios e ao Planalto
Registros obtidos por meio da Lei de Acesso à Informação indicam que Roberta Luchsinger realizou ao menos 40 visitas a ministérios e à Presidência da República entre 2023 e 2024.
Foram 17 entradas no Ministério do Desenvolvimento Social, 15 no Ministério da Saúde e oito no Palácio do Planalto. Apenas uma das visitas aparecia nas agendas públicas das autoridades consultadas.
Em parte dos encontros, Roberta esteve acompanhada de representantes das empresas Duosystem e Grupo Bringel. No Ministério da Saúde, uma das reuniões teve como objetivo a apresentação de um sistema de gestão e regulação da saúde desenvolvido pela Duosystem.
A Secretaria de Comunicação da Presidência afirmou que as audiências ocorreram com servidores públicos, seguiram as normas da administração e não produziram consequência administrativa, contratual ou regulatória. O Ministério da Saúde disse que a proposta apresentada pela Duosystem não teve andamento por falta de interesse da pasta.
Defesa diz que Lulinha prestará esclarecimentos
A defesa de Lulinha afirmou ter recebido a abertura do inquérito com tranquilidade e disse que o empresário pretende se colocar voluntariamente à disposição das autoridades.
Segundo o advogado Marco Aurélio de Carvalho, o filho do presidente nega relação direta ou indireta com irregularidades e pretende esclarecer as dúvidas sobre suas atividades pessoais e profissionais.
A defesa também acusa integrantes da Polícia Federal de promoverem vazamentos com interesses políticos e eleitorais. Essa alegação será examinada na apuração separada autorizada por Dino.
A Dataprev declarou que não possui contratos firmados com empresa de Lulinha e afirmou que fornecerá informações às autoridades caso seja formalmente procurada.
O Ministério da Saúde, por sua vez, informou que nunca manteve contrato nem realizou repasses à World Cannabis, empresa relacionada aos negócios de cannabis medicinal examinados em um dos inquéritos.
Lula diz que filho não terá privilégios
Segundo informações atribuídas a aliados e interlocutores do presidente, Lula também determinou que Marco Aurélio Santana Ribeiro apresentasse explicações e documentos sobre o empréstimo recebido de Roberta Luchsinger. A cobrança ocorreu após a divulgação dos repasses.
Ainda segundo os relatos, emissários do presidente pediram que o ex-assessor apresentasse recibos e comprovantes da operação. Não houve manifestação pública de Lula sobre o conteúdo das explicações apresentadas.
Em entrevista concedida em 30 de julho ao podcast Inteligência Ltda., Lula afirmou que não pretende utilizar a Presidência para proteger o filho.
O presidente disse que Lulinha deverá retornar ao Brasil, apresentar sua defesa e provar sua inocência. Acrescentou que, caso alguma irregularidade seja comprovada, o filho deverá responder como qualquer outra pessoa.
“Não haverá nenhum privilégio”, declarou Lula.
O presidente também afirmou que jamais pediria a delegados ou magistrados que deixassem de realizar os procedimentos considerados corretos.
O avanço das investigações ocorre durante a campanha presidencial de 2026. A defesa de Lulinha afirma que vazamentos podem ser usados para interferir na disputa, enquanto o filho do presidente passa a responder a três frentes investigativas autorizadas pelo STF.



