Renan Santos atribuiu à perseguição política sofrida por mulheres parte da explicação para o Partido Missão ter uma composição amplamente masculina. Durante sabatina da TV Globo nesta quarta-feira (26), o candidato à Presidência também rejeitou que episódios anteriores envolvendo integrantes de seu grupo possam afastar eleitoras.

A discussão surgiu quando os entrevistadores relembraram os áudios de Arthur do Val, o Mamãe Falei, sobre mulheres ucranianas e citaram que cerca de 92% dos integrantes do Missão são homens. Questionado se episódios desse tipo poderiam afastar o eleitorado feminino, Renan respondeu: “De maneira alguma”. Depois, argumentou que mulheres deixam de ingressar no partido por medo de perseguição e citou a violência política enfrentada por aliadas.

A violência política contra mulheres é um fenômeno documentado no Brasil e pode, de fato, reduzir a participação feminina. O problema da explicação de Renan está em outro ponto: esse fenômeno atinge mulheres de diferentes partidos e correntes políticas e, isoladamente, não demonstra por que a diferença entre homens e mulheres seria tão acentuada especificamente no Missão.

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Violência política existe, mas não é exclusiva do Missão

Dados divulgados pelo Ministério das Mulheres registraram 558 casos de violência política contra candidatas nas eleições municipais de 2024, incluindo ameaças, atentados e assassinatos. Segundo o órgão, esse tipo de violência reduz o engajamento político feminino, diminui o número de candidaturas e pode levar mulheres a abandonar mandatos.

Ou seja, a premissa apresentada por Renan tem respaldo: ataques podem afastar mulheres da vida política.

O dado, porém, descreve um problema nacional.

No retrato detalhado de filiação por gênero publicado pelo Tribunal Superior Eleitoral com dados de 2023, os partidos brasileiros tinham 53,8% de filiados homens e 46,2% de mulheres. Mesmo com uma participação feminina inferior à masculina, a distribuição era muito mais equilibrada do que os aproximadamente 92% de homens atribuídos ao Missão durante a entrevista.

A comparação não prova por que o Missão possui menos mulheres, até porque o partido é mais novo e o dado nacional é anterior à sua atual estrutura. Ela expõe, porém, uma questão que a resposta de Renan não resolve: se a perseguição política é um obstáculo enfrentado por mulheres em todo o sistema partidário, seria necessário explicar por que esse fator produziria uma diferença tão maior justamente em sua legenda.

Renan citou casos de mulheres aliadas que sofreram ataques. Casos individuais demonstram a existência do problema, mas não são suficientes, por si sós, para estabelecer que a perseguição seja a causa da composição de gênero de todo o partido.

Filiação e voto feminino são problemas diferentes

Há ainda uma segunda diferença importante na resposta.

Uma mulher que pensa em assumir função partidária, participar publicamente de uma campanha ou disputar uma eleição pode considerar o risco de exposição, ameaças e ataques políticos antes de entrar para uma legenda.

Uma eleitora, porém, não precisa se filiar, aparecer publicamente ou disputar cargo para votar em Renan Santos.

Os dados eleitorais mostram que a dificuldade do candidato entre mulheres vai além da composição interna do Missão.

Pesquisa Indexa/Broadcast divulgada nesta quarta-feira mostra que, em um eventual segundo turno contra Lula, Renan tem 38% entre os homens, contra 41% do petista, diferença de 3 pontos percentuais.

Entre as mulheres, Lula aparece com 51% e Renan com 30%. A distância cresce para 21 pontos. O restante, nos dois grupos, corresponde a eleitores que optam por branco ou nulo, dizem que não votariam ou ainda não sabem em quem votar. A pesquisa ouviu 2 mil pessoas entre 20 e 23 de agosto, tem margem de erro geral de 2,2 pontos percentuais e está registrada no TSE sob o número BR-06366/2026.

As mulheres também são maioria do eleitorado brasileiro: 83,8 milhões de eleitoras, equivalentes a 52,84% das pessoas aptas a votar em 2026, segundo o TSE.

A perseguição a mulheres politicamente expostas pode ajudar a explicar dificuldades de recrutamento, militância ou formação de candidaturas. Ela não estabelece, automaticamente, por que eleitoras que não enfrentam essa exposição demonstram apoio menor a Renan.

Histórico do grupo também entrou na pergunta

A própria pergunta da Globo apresentou outra hipótese: a possibilidade de episódios envolvendo integrantes do grupo político de Renan influenciarem a percepção das mulheres. O candidato descartou essa relação ao responder “de maneira alguma”.

O episódio mais conhecido envolve Arthur do Val.

Em 2022, durante uma viagem à região da Ucrânia após a invasão russa, Arthur enviou áudios privados em que afirmou que mulheres ucranianas seriam “fáceis porque são pobres”. Em outro trecho, afirmou ter recebido de Renan Santos orientações sobre como abordar mulheres durante viagens pela Europa, dentro de uma prática que chamou de “Tour de Blonde”.

Na sabatina desta quarta, Renan reconheceu que o áudio era inadequado, mas argumentou que Arthur não perdeu o mandato pelo conteúdo da gravação em si e relacionou a cassação à atuação combativa do então deputado contra o grupo político dominante na Assembleia Legislativa paulista.

O registro oficial da Alesp, porém, vincula diretamente o processo aos áudios.

A Assembleia informa que o procedimento foi aberto depois da divulgação das gravações sobre mulheres ucranianas. O Conselho de Ética aprovou por unanimidade a cassação por quebra de decoro, e o plenário confirmou a perda do mandato por 73 votos a zero. Uma decisão da Mesa da Alesp também registra expressamente que uma das representações encaminhadas ao Conselho de Ética tratava dos fatos revelados pelos áudios e pedia a cassação.

Renan também possui um registro anterior envolvendo mulheres

O próprio Renan já foi questionado por outro episódio.

Em um vídeo gravado anos atrás, ele aparece conduzindo um coro entre integrantes do MBL no qual afirma que uma amiga seria “estuprada” caso o grupo não conseguisse entrar em um bar. Quando a gravação voltou a circular, Renan reconheceu a fala, classificou o episódio como uma “piada de mau gosto” feita entre pessoas bêbadas e afirmou que a mulher citada o perdoou. A própria mulher também saiu em defesa dele.

Os episódios não permitem concluir que sejam a causa da baixa presença feminina no Missão ou do desempenho eleitoral de Renan entre mulheres.

Mas tornam difícil eliminar, sem evidências, a possibilidade de que a linguagem, a trajetória e a imagem pública do próprio grupo tenham alguma influência, exatamente a hipótese que o candidato rejeitou categoricamente na entrevista.