A primeira pergunta da sabatina de Luiz Inácio Lula da Silva na TV Globo não foi sobre economia, segurança, educação ou uma proposta para um eventual quarto mandato. Foi sobre Lulinha.

A segunda continuou no filho do presidente. A terceira também. E a quarta novamente tratou das investigações envolvendo Fábio Luís Lula da Silva.

A sequência ajuda a explicar uma frase que Lula soltaria mais tarde, quando o primeiro bloco se aproximava do fim: disse que estava:

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“Parecendo que eu estava no Ministério Público”.

Não foi apenas uma impressão provocada pelo tom das perguntas. A cobertura do Terra contabilizou as quatro primeiras questões dirigidas a Lulinha e mais de dez minutos consecutivos dedicados a escândalos e investigações envolvendo pessoas próximas ao presidente ou integrantes de seu governo. Em uma entrevista de cerca de 40 minutos, isso representa mais de um quarto do tempo disponível.

A comparação com os outros três presidenciáveis que já haviam passado pela mesma mesa mostra algo importante: Romeu Zema, Ronaldo Caiado e Renan Santos também foram pressionados por César Tralli e Renata Vasconcellos. A diferença aparece menos na intensidade das cobranças e mais no que cada candidato foi chamado a explicar logo de saída.

Lula passou do filho ao entorno do governo

Depois das perguntas sobre Lulinha, a entrevista avançou para Roberta Luchsinger, lobista que aparece nas investigações e mantém relação com o filho do presidente.

Na sequência, entrou Marco Aurélio Ribeiro, o Marcola, ex-chefe de gabinete de Lula. Os jornalistas questionaram pagamentos e presentes recebidos por ele de Luchsinger. Lula classificou a relação como errada, embora tenha afirmado que aguardará o resultado das investigações.

O assunto então se deslocou para as fraudes contra aposentados no INSS e para Carlos Lupi, ex-ministro da Previdência. Depois, outro aliado presidencial entrou na mesa: Jaques Wagner, questionado no contexto das investigações sobre o Banco Master.

Foi nesse ambiente que Lula fez a comparação com o Ministério Público. O primeiro bloco tinha deixado de ser apenas uma cobrança sobre atos praticados diretamente pelo candidato. Durante boa parte dele, o presidente respondia sobre o filho, uma lobista, um antigo assessor, integrantes de seu governo e um aliado político.

Os rivais também foram apertados — por outro caminho

A série da Globo começou na segunda-feira (24) com Romeu Zema. A abertura também foi desconfortável para o candidato do Novo.

Renata Vasconcellos colocou Zema diante do crescimento da dívida de Minas Gerais durante seus quase oito anos de governo e perguntou por que o eleitor deveria acreditar que ele conseguiria controlar a dívida federal se não havia reduzido o passivo mineiro. A entrevista seguiu para privatizações e outras propostas econômicas.

Era uma cobrança dura, mas sobre o desempenho administrativo do próprio candidato e as promessas que ele apresentava para o país.

Com Ronaldo Caiado, no dia seguinte, o primeiro confronto foi sobre outra posição defendida pelo próprio presidenciável: sua promessa de apresentar uma anistia “ampla, geral e irrestrita” aos envolvidos nos atos de 8 de Janeiro, incluindo Jair Bolsonaro.

Tralli e Renata insistiram sobre quem exatamente seria beneficiado e sobre as consequências da medida. Em determinado momento, Renata chegou a corrigir Caiado ao vivo durante uma discussão sobre a tentativa de golpe.

Renan Santos também não recebeu uma abertura confortável.

A primeira pergunta, que segundo sua própria campanha nem sequer havia sido prevista durante a preparação para a entrevista, foi sobre a defesa feita pelo candidato de que o Brasil desenvolva uma bomba atômica. Depois vieram questionamentos sobre seu modelo de combate ao crime e sua admiração pelas políticas de Nayib Bukele em El Salvador.

Nos três casos, portanto, houve confronto.

O que muda em relação a Lula é a natureza do confronto.

Zema começou respondendo pelo governo que comandou. Caiado, por uma decisão que promete tomar. Renan, por uma proposta que defende.

Lula começou respondendo por suspeitas e investigações que atingem principalmente outras pessoas ao seu redor.

Lava Jato transforma entrevistadores em parte do confronto

O momento mais incomum surgiu quando Lula tentou responder às acusações atuais recorrendo à própria trajetória na Lava Jato.

O presidente criticou Sergio Moro, Deltan Dallagnol e a cobertura feita pela imprensa naquele período. Ao afirmar que os veículos haviam comprado e difundido uma narrativa falsa, passou a questionar diretamente a atuação jornalística.

Renata Vasconcellos respondeu defendendo a cobertura da Globo.

A discussão, portanto, mudou de natureza: por alguns instantes, os jornalistas deixaram de ser apenas os autores das perguntas porque a própria emissora havia se tornado parte da acusação feita pelo entrevistado.

Foi então que surgiu outro episódio.

Lula mencionou o “PowerPoint mentiroso” usado contra ele. O contexto era a apresentação feita por Deltan Dallagnol em 2016, durante a Lava Jato.

Tralli interveio para registrar que a Globo havia feito a “devida retratação” sobre um PowerPoint.

Mas eram dois casos diferentes.

A retratação citada por Tralli dizia respeito a uma arte exibida pela GloboNews em 2026 sobre Daniel Vorcaro e o Banco Master, posteriormente reconhecida pela emissora como errada e incompleta. Não era o PowerPoint apresentado por Dallagnol dez anos antes, ao qual Lula se referia naquele momento.

A intervenção acabou produzindo uma situação peculiar: ao responder à crítica de Lula contra a cobertura da Lava Jato, Tralli trouxe espontaneamente outro erro editorial recente da própria Globo para a conversa.

O que a comparação realmente mostra

As quatro sabatinas já exibidas até esta quinta-feira têm algo em comum: a Globo não adotou um formato de perguntas protocolares.

Zema foi confrontado com os números de Minas Gerais. Caiado, com as implicações de sua anistia. Renan, com bomba atômica, Bukele e as consequências de suas próprias propostas. Lula, com investigações que atingem seu filho e seu entorno político.

O aspecto particular da entrevista está em outro lugar: durante seu começo, o presidente foi colocado sucessivamente na posição de responder por suspeitas envolvendo terceiros próximos, antes que a sabatina migrasse para aquilo que ele pretende fazer caso permaneça no Palácio do Planalto.

As perguntas tinham interesse público. O enquadramento também produziu um efeito claro sobre a entrevista.

E foi o próprio candidato quem resumiu essa mudança de papel no meio da conversa: por alguns minutos, a mesa preparada para uma sabatina eleitoral pareceu, para ele, uma mesa do Ministério Público.