A presidente do México, Claudia Sheinbaum, acusou setores da ultradireita dos Estados Unidos de coordenarem uma ofensiva contra seu governo em meio à escalada de tensão diplomática entre Cidade do México e Washington.

A declaração foi feita nesta segunda-feira (1º), depois de um comício em que Sheinbaum denunciou suposta interferência de agências americanas e interesses empresariais em assuntos internos do México. A presidente afirmou que não acredita que Donald Trump esteja pessoalmente comandando a ofensiva.

“Não creio que seja o presidente Trump quem esteja à frente dessa ofensiva”, disse Sheinbaum, ao atribuir a pressão a setores ideológicos da direita americana que, segundo ela, não querem uma boa relação entre México e Estados Unidos.

A fala amplia o tom de confronto adotado pela presidente mexicana nas últimas semanas. As relações entre os dois países vêm sendo pressionadas por disputas sobre imigração, tarifas, segurança na fronteira e combate ao narcotráfico.

O ponto mais sensível da crise recente envolve acusações feitas pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos contra autoridades mexicanas. Em abril, promotores americanos denunciaram dez atuais e ex-funcionários mexicanos, incluindo o governador de Sinaloa, Rubén Rocha Moya, aliado do partido Morena, por supostos vínculos com o tráfico de drogas.

Sheinbaum passou a tratar o caso como uma questão de soberania nacional. Em discurso no domingo, a presidente perguntou se quem decide no México são “agências estrangeiras ou o povo mexicano” e disse que seu governo vai defender a independência do país.

A tensão também ganhou uma frente eleitoral. O Congresso mexicano aprovou uma emenda constitucional que permite anular eleições em caso de interferência estrangeira. A proposta foi defendida por Sheinbaum como forma de proteger o processo democrático mexicano, mas provocou críticas da oposição e de especialistas.

Críticos afirmam que a redação da medida é ampla demais e poderia abrir espaço para questionar resultados eleitorais com base em acusações genéricas de influência externa. Arturo Sarukhan, ex-embaixador do México nos Estados Unidos, criticou a proposta e disse que ela não impediria interferência estrangeira, mas daria ao governo poder para contestar resultados incômodos.

O governo mexicano, por outro lado, sustenta que o país precisa criar instrumentos para impedir que governos, agências ou grupos estrangeiros influenciem eleições nacionais. A discussão ocorre antes das eleições mexicanas de 2027, quando estarão em disputa cargos locais e federais.

A troca de acusações também envolveu o embaixador dos Estados Unidos no México, Ronald Johnson. Após as falas de Sheinbaum, Johnson escreveu que transformar o combate aos cartéis em disputa política seria uma oportunidade perdida para fortalecer a parceria bilateral. A presidente respondeu que embaixadores devem respeitar os assuntos internos dos países onde atuam.

A crise mostra como a pauta de segurança passou a ocupar o centro da relação entre México e Estados Unidos. O combate ao narcotráfico, antes tratado principalmente como cooperação policial e fronteiriça, agora aparece ligado a disputas eleitorais, soberania nacional e pressão diplomática.

Para a América Latina, o caso mexicano funciona como um alerta. A política americana para cartéis e crime organizado tem ganhado peso regional e pode afetar a forma como Washington se relaciona com governos latino-americanos em temas de segurança, fronteiras, migração e cooperação judicial.

Para o Brasil, o episódio interessa porque ocorre no mesmo ambiente em que os Estados Unidos ampliam o enquadramento de organizações criminosas latino-americanas como tema de segurança internacional. Ainda não há sinal de que o caso mexicano produza efeito direto sobre o Brasil, mas a disputa indica que narcotráfico e soberania devem continuar no centro das relações entre Washington e países da região.

Apesar do desgaste diplomático, Sheinbaum mantém apoio interno elevado. Pesquisa citada pela Reuters e publicada pelo jornal El Financiero apontou aprovação de 69% à presidente mexicana, em meio à tentativa do governo de transformar a defesa da soberania em eixo político diante da pressão americana.

A questão central agora é se a crise ficará limitada ao discurso político ou se produzirá novos atritos concretos entre México e Estados Unidos. O governo mexicano insiste que aceita cooperação contra o crime organizado, mas rejeita qualquer ação que considere interferência externa. Washington, por sua vez, pressiona por uma resposta mais dura contra cartéis e autoridades acusadas de colaborar com redes criminosas.