A relação entre o governo dos Estados Unidos e comunidades de imigrantes entrou em um dos momentos mais tensos dos últimos anos. Protestos contra operações de imigração se espalharam por cidades como Minneapolis, enquanto o Immigration and Customs Enforcement (ICE) passou a ocupar o centro do debate político, jurídico e social no país.

O aumento da tensão ocorre após episódios fatais envolvendo agentes de imigração, ameaças diretas do presidente Donald Trump e a possibilidade inédita de uso de leis emergenciais para conter manifestações civis.

Protestos e confrontos após mortes ligadas a ações do ICE

Segundo a Reuters, confrontos se intensificaram em Minneapolis depois que um agente do ICE matou a tiros uma cidadã americana, Renee Good, de 37 anos, em 7 de janeiro de 2026. Uma semana depois, outro episódio elevou ainda mais a tensão: um agente de imigração atirou e feriu um homem venezuelano que fugia de uma abordagem de trânsito na cidade.

Esses episódios provocaram protestos contínuos contra o ICE, com manifestantes denunciando o tratamento dado a imigrantes e o uso da força por agentes federais. As manifestações passaram a ser classificadas por autoridades federais como “confrontos cada vez mais tensos”.

Trump ameaça usar lei de 1807 para conter manifestações

Diante da escalada dos protestos, Donald Trump declarou publicamente a possibilidade de acionar o Insurrection Act, uma lei de 1807 que permite ao presidente empregar forças militares em território nacional para conter distúrbios civis.

De acordo com a Reuters, o presidente afirmou que “instituirá o Insurrection Act” caso as autoridades locais não consigam controlar a situação. A legislação já foi utilizada 30 vezes na história dos Estados Unidos, mas sempre cercada de forte controvérsia.

Como resposta imediata, o governo federal enviou cerca de 3.000 agentes federais adicionais para a região de Minneapolis, ampliando a presença do Estado em áreas de protesto.

Ameaça de corte de verbas e cidades-santuário no alvo

Além da possibilidade de uso das Forças Armadas, Trump também ameaçou cortar o financiamento federal de estados e cidades que mantêm políticas conhecidas como “cidades-santuário”, que limitam a cooperação entre autoridades locais e o ICE.

Segundo a Reuters, o presidente afirmou que qualquer estado que inclua cidades-santuário pode perder recursos federais já no próximo mês, ampliando o embate entre o governo central e administrações estaduais.

O que é o ICE e como funciona

O Immigration and Customs Enforcement é uma agência federal subordinada ao Departamento de Segurança Interna dos EUA (DHS). O órgão foi criado em 2003, após os atentados de 11 de setembro, com foco em imigração, deportações e crimes transnacionais.

Dados oficiais do ICE:

• Orçamento em 2024: US$ 9,99 bilhões

• Participação no orçamento do DHS: 11,2%

• Número de funcionários: 20.606 agentes e servidores

• Custo médio diário para deter um imigrante: US$ 187,48

O financiamento do ICE é aprovado pelo Congresso dos Estados Unidos, por meio do Subcomitê de Apropriações de Segurança Interna da Câmara, que define os recursos destinados ao DHS e às suas agências, incluindo o ICE.

Opinião pública dividida

Uma pesquisa Reuters/Ipsos, citada pela própria agência, revela o grau de polarização do tema:

• 59% dos eleitores republicanos afirmaram apoiar o uso da força federal mesmo que pessoas se machuquem

• 39% discordaram dessa abordagem

Os números mostram que a resposta do governo à crise migratória e aos protestos divide profundamente a sociedade americana, especialmente em um contexto de crescente tensão política.

Um conflito que vai além da imigração

A crise envolvendo o ICE deixou de ser apenas uma discussão sobre política migratória. O debate agora envolve uso da força do Estado, direitos civis, autonomia dos estados e os limites do poder presidencial em situações de instabilidade interna.

Com protestos ativos, ameaças de sanções financeiras e a possibilidade de uso de leis emergenciais, a relação entre governo federal, imigrantes e autoridades locais entra em uma fase crítica, observada de perto por aliados e críticos dos Estados Unidos em todo o mundo.