Donald Trump e Xi Jinping voltam a se encontrar nesta quinta-feira (24), em Washington, numa tentativa de avançar uma relação que melhorou desde a reunião dos dois em Pequim, em maio, mas continua atravessada por disputas comerciais, tecnológicas e estratégicas.

Xi chegou aos Estados Unidos na quarta-feira para uma visita de Estado de três dias. A Casa Branca programou para esta quinta uma cerimônia formal de recepção, reuniões entre as delegações e jantar de Estado. É a primeira visita de Estado do presidente chinês aos EUA desde 2015.

Não existe uma lista pública detalhando cada item que Trump e Xi discutirão a portas fechadas. Mas as negociações realizadas nos dias anteriores e os acordos ainda em implementação desde maio mostram onde estão os principais pontos de pressão: comércio, inteligência artificial, minerais críticos e a disputa estratégica em torno de Taiwan.

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O encontro não começa do zero

Trump esteve na China em maio, quando os dois governos anunciaram uma tentativa de estabilizar a relação econômica e criaram mecanismos permanentes de negociação.

Um deles é o U.S.-China Board of Trade, pensado para administrar o comércio de produtos considerados não sensíveis e discutir possíveis mudanças tarifárias. O USTR abriu posteriormente uma consulta pública para definir como esse mecanismo funcionará.

Nos dias que antecederam a chegada de Xi, equipes lideradas pelo secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, e pelo vice-premiê chinês He Lifeng voltaram à mesa em Nova York. O governo chinês informou que foram discutidos temas econômicos e comerciais, a implementação dos entendimentos anteriores e questões relacionadas à inteligência artificial.

O desafio agora é transformar a aproximação política em medidas que funcionem na prática.

Terras raras: onde o Brasil entra nessa disputa

Um dos pontos mais importantes dessa relação está escondido em materiais que aparecem em celulares, veículos elétricos, equipamentos médicos, turbinas, sistemas eletrônicos e aplicações militares: as terras raras, grupo formado por 17 elementos químicos.

A China possui a maior reserva de terras raras do mundo. Além disso, ela construiu uma posição dominante principalmente nas etapas que vêm depois da retirada do minério. Dados do USGS indicam que o país responde por mais de 70% da extração mundial e cerca de 87% do processamento de terras raras.

É isso que transforma esses minerais em instrumento estratégico.

No acordo anunciado depois do encontro de maio, a própria Casa Branca afirmou que a China se comprometeu a tratar das preocupações americanas com o fornecimento de terras raras e outros minerais críticos, além de restrições envolvendo equipamentos e tecnologias utilizados na produção e no processamento.

E é justamente aqui que o Brasil entra.

A versão atual do Mineral Commodity Summaries 2026, do USGS, lista o Brasil com cerca de 21 milhões de toneladas de reservas de terras raras, diante de 44 milhões atribuídas à China. A diferença fica muito maior quando se olha para a produção: o Brasil produziu cerca de 2 mil toneladas em 2025, enquanto a China produziu 270 mil.

Isso resume a posição brasileira: o recurso geológico existe, mas possuir minério no subsolo não equivale a controlar a cadeia. O maior desafio está em ampliar extração, separação, processamento e fabricação de produtos de maior valor tecnológico.

O tema ganhou ainda mais peso no Brasil poucos dias antes do encontro Trump–Xi. Em 16 de setembro, o governo sancionou a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos, que prevê estímulos à pesquisa, lavra, beneficiamento e transformação desses minerais dentro do país.

Por isso, uma mudança na relação entre Washington e Pequim nessa área interessa diretamente ao Brasil. Quanto maior a busca americana e de outros países por fornecedores e cadeias de processamento fora da China, maior tende a ser o interesse estratégico por projetos brasileiros. Uma estabilização do fornecimento chinês, por outro lado, muda a pressão imediata por essa diversificação.

Inteligência artificial virou outra frente de negociação

A inteligência artificial também avançou para dentro do diálogo bilateral.

O governo chinês confirmou que as delegações discutiram o tema nas reuniões preparatórias realizadas em Nova York nesta semana. Não foi anunciado, porém, um acordo concreto antes do encontro presidencial.

Nesse campo, existe uma contradição semelhante à das terras raras: Washington e Pequim tentam criar canais para administrar riscos e evitar que a competição saia do controle ao mesmo tempo em que disputam liderança tecnológica.

Assim, a reunião não é simplesmente uma tentativa de aproximar EUA e China. Os dois governos procuram estabelecer espaços de cooperação sem abandonar a competição em setores considerados estratégicos.

Taiwan continua sendo o limite político

Há ainda assuntos em que o espaço para compromisso é muito menor.

Taiwan permanece entre os pontos mais sensíveis da relação. Pequim considera a ilha parte de seu território e trata a questão como um interesse central, enquanto os Estados Unidos mantêm relações não oficiais com Taiwan e apoio à sua capacidade de defesa.

Na reunião de maio, Xi já havia colocado Taiwan diretamente nas conversas com Trump. A nova visita acontece, portanto, com avanços possíveis na área econômica convivendo com uma divergência estratégica que permanece aberta.

Essa é a lógica que acompanha Trump e Xi em Washington: negociar onde existe espaço para acordo sem eliminar a competição entre as duas maiores economias do mundo.

O que sair da Casa Branca nesta quinta mostrará até onde essa fórmula consegue avançar.