Os houthis mudaram o mapa da guerra no Iêmen em poucos dias e chegaram mais perto de uma das passagens marítimas mais importantes do mundo justamente quando outra rota essencial para o petróleo, o Estreito de Ormuz, continua sob fortes restrições.

O grupo tomou em 10 de setembro a cidade portuária de Mocha, na costa oeste do Iêmen, e continuou avançando em direção ao Estreito de Bab al-Mandeb. A ONU também registra relatos da tomada de ilhas no sul do Mar Vermelho.

A mudança importa porque os houthis já conseguiam atacar navios com drones e mísseis. Agora, passaram a controlar mais território na própria costa que acompanha os acessos ao estreito.

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Quem são os houthis?

Os houthis, ou Ansar Allah, são um movimento armado iemenita apoiado pelo Irã. O grupo controla a capital, Sanaa, e grande parte do oeste do país e combate forças ligadas ao governo iemenita reconhecido internacionalmente.

A guerra do Iêmen ganhou sua configuração atual depois que os houthis tomaram Sanaa em 2014. Uma coalizão liderada pela Arábia Saudita interveio no conflito no ano seguinte.

A trégua mediada pela ONU em 2022 reduziu fortemente a intensidade dos combates, embora não tenha encerrado a guerra.

Agora esse equilíbrio voltou a se romper.

No Conselho de Segurança, o enviado especial da ONU para o Iêmen, Hans Grundberg, disse que o risco de retorno a um conflito em grande escala havia se tornado uma “dura realidade”. Ele confirmou que os houthis assumiram o controle de Mocha, cerca de 75 quilômetros de Bab al-Mandeb.

O pesquisador iemenita Farea Al-Muslimi, do Chatham House, classificou a ofensiva como a mudança mais relevante no controle territorial do país em anos.

Por que Bab al-Mandeb importa tanto?

Bab al-Mandeb é um estreito entre o Iêmen e o Chifre da África. Ele liga o Golfo de Áden ao Mar Vermelho.

Na prática, é uma das portas da rota que conecta o Oceano Índico ao Canal de Suez e, depois, ao Mediterrâneo e à Europa.

Um navio que sai do Mar Vermelho em direção ao Oceano Índico precisa passar por ali. Se essa passagem fica perigosa, embarcações podem ser obrigadas a contornar toda a África pelo Cabo da Boa Esperança, uma viagem maior, mais cara e que consome mais combustível.

O próprio Trendahora já mostrou esse risco em julho, quando petroleiros passaram a alterar rotas diante da pressão simultânea sobre o Mar Vermelho e Ormuz.

O problema agora é que Bab al-Mandeb se tornou ainda mais importante do que antes.

Ormuz explica por que este avanço é diferente

O Estreito de Ormuz é a saída marítima do Golfo Pérsico e normalmente concentra volumes muito maiores de petróleo.

Mas a guerra com o Irã mudou esses fluxos.

Dados da Administração de Informação de Energia dos Estados Unidos mostram que o volume de petróleo e derivados transportado por Ormuz caiu de 14,9 milhões de barris por dia no primeiro trimestre de 2026 para apenas 4,9 milhões no segundo.

Enquanto isso, Bab al-Mandeb fez o caminho contrário: passou de 5,6 milhões para 8,1 milhões de barris por dia.

Ou seja: enquanto uma passagem perdeu capacidade, a outra ganhou importância.

A Arábia Saudita também passou a usar mais seu oleoduto Leste-Oeste para levar petróleo até Yanbu, no Mar Vermelho, evitando Ormuz. Dependendo do destino final dessas cargas, Bab al-Mandeb passa a fazer parte desse caminho.

Por isso, a crise agora envolve dois gargalos diferentes: de um lado, o Irã mantém pressão sobre Ormuz; do outro, os houthis, aliados do país, avançaram territorialmente na direção de Bab al-Mandeb.

O Trendahora acompanha desde agosto as negociações para uma possível normalização de Ormuz, que continuam sem restabelecer o funcionamento anterior à guerra.

Bab al-Mandeb está fechado?

Não.

Esse é um ponto importante para entender o tamanho real da mudança.

Em 15 de setembro, a ONU afirmou que o tráfego comercial pelo Mar Vermelho ainda parecia continuar, apesar do avanço houthi e da preocupação dos mercados.

Portanto, os houthis não simplesmente “fecharam” Bab al-Mandeb.

O que mudou foi a posição militar do grupo: ele ganhou presença territorial muito mais próxima da rota e, com isso, aumenta sua capacidade de ameaçar navios, pressionar adversários ou transformar a passagem em instrumento de negociação.

A U.S. Energy Information Administration já descreve os fluxos pelo Mar Vermelho como restritos e variáveis e avalia que as limitações simultâneas em Ormuz e Bab al-Mandeb seguem afetando a produção e o comércio de petróleo da região.

A guerra do Iêmen também voltou

A disputa por rotas marítimas não pode esconder outra consequência: a população iemenita voltou a enfrentar uma guerra terrestre de grande escala.

Depois do avanço dos houthis, forças ligadas ao governo lançaram uma contraofensiva, enquanto a ONU registrou novos confrontos em várias frentes do país.

A Organização Internacional para as Migrações contabilizou cerca de 101 mil pessoas deslocadas apenas entre 1º e 15 de setembro. Considerando a escalada iniciada em junho, o total registrado já ultrapassava 104 mil.

A maior concentração estava na província de Taiz, justamente uma das regiões mais atingidas pela nova ofensiva na costa oeste.

A Arábia Saudita também voltou diretamente ao centro da escalada, com ataques cruzando a fronteira e novas ações militares dentro do território iemenita.