O governo Trump propôs uma tarifa punitiva de 25% contra parte das importações brasileiras, em uma nova tentativa de pressionar o Brasil por práticas comerciais consideradas injustas por Washington.
A medida foi apresentada pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos, o USTR, com base na Seção 301 da Lei de Comércio de 1974. A proposta ainda não está em vigor e passará por consulta pública antes de uma decisão final.
O USTR afirma que práticas brasileiras seriam “irrazoáveis” e afetariam o comércio dos Estados Unidos. A investigação cita temas como comércio digital, serviços de pagamento eletrônico, tarifas preferenciais, proteção à propriedade intelectual, acesso ao mercado de etanol e desmatamento ilegal.
A proposta prevê consulta pública até 1º de julho, uma audiência pública em 6 de julho e prazo até 15 de julho para que o governo americano tome uma ação dentro da investigação comercial.
Nova tentativa após derrota judicial
A nova proposta ocorre depois de a Suprema Corte dos Estados Unidos derrubar, em fevereiro, tarifas anteriores impostas pelo governo Trump contra produtos brasileiros.
Naquele caso, a medida havia sido adotada com base em uma lei de emergências econômicas internacionais. Parte da tarifa tinha motivação política explícita, ligada à reação de Trump ao processo contra o ex-presidente Jair Bolsonaro.
Agora, a estratégia da Casa Branca é diferente. O governo americano tenta sustentar a nova tarifa em uma base comercial mais tradicional: a Seção 301, instrumento já usado por Trump contra a China durante seu primeiro mandato.
A Associated Press destacou que tarifas baseadas na Seção 301 já resistiram a contestações judiciais em outras ocasiões, o que torna essa nova ofensiva juridicamente diferente da anterior.
Café, carne e energia ficam fora da proposta
Apesar do impacto político da medida, a proposta americana não atinge todos os produtos brasileiros.
Ficariam fora da nova tarifa itens como carne bovina, café, terras raras, outros metais, energia e peças de aeronaves. Também aparecem entre as exceções muitos tipos de frutas e nozes, petróleo bruto, derivados de petróleo, compostos farmacêuticos, químicos orgânicos e fertilizantes.
Essa lista de exceções reduz o alcance imediato da medida sobre alguns setores sensíveis da economia brasileira, mas não elimina o peso político da proposta.
O próprio representante comercial dos EUA, Jamieson Greer, classificou a ação como “bastante nuançada”, justamente por causa das exclusões. Ao mesmo tempo, defendeu tarifas substanciais como resposta ao que Washington considera práticas comerciais injustas.
Relação entre Brasil e EUA volta a ficar sob pressão
A proposta tarifária surge em um momento de tensão crescente entre Brasília e Washington.
Nos últimos dias, os Estados Unidos também avançaram em uma frente de segurança ao classificar as duas maiores facções brasileiras como organizações terroristas estrangeiras, decisão que enfrentou objeções do governo brasileiro.
Flávio Bolsonaro havia defendido essa classificação em viagem a Washington, onde participou de encontros com autoridades americanas, incluindo Marco Rubio, JD Vance e Donald Trump.
Após a notícia da nova tarifa, Flávio escreveu no X que pediu expressamente a Trump para não tarifar empresas brasileiras e afirmou que tarifas não são a solução.
Do lado brasileiro, dois funcionários ouvidos pela Reuters disseram que as justificativas americanas ignoraram argumentos apresentados por Brasília nos últimos meses, sugerindo que a motivação da medida seria mais política do que técnica.
O Itamaraty não havia respondido imediatamente ao pedido de comentário da Reuters no momento da publicação da reportagem.
Por que isso importa para o Brasil
A proposta recoloca o Brasil no centro da política comercial de Trump e amplia a pressão americana sobre o país em duas frentes: comércio e segurança.
Mesmo com exceções relevantes, uma tarifa de 25% contra parte das importações brasileiras pode afetar empresas exportadoras, cadeias produtivas e negociações bilaterais. O impacto final dependerá da lista definitiva de produtos atingidos e da decisão do governo americano após a consulta pública.
A medida também reforça um movimento mais amplo da política externa dos Estados Unidos sob Trump: usar tarifas, sanções e classificações de segurança como instrumentos de pressão sobre países considerados resistentes aos interesses de Washington.
Para o Brasil, o desafio será responder sem transformar a disputa comercial em uma crise diplomática mais ampla, especialmente em um contexto em que a relação com os Estados Unidos já foi tensionada por temas políticos, judiciais e de segurança pública.
A decisão final deve sair em julho.



