A Colômbia decidiu formalizar a entrada de equipes oficiais de busca e resgate de Estados Unidos, Israel, Equador e El Salvador para reforçar as operações após o terremoto de magnitude 7,4. A seleção provocou uma disputa política depois que o ex-presidente Gustavo Petro acusou o novo governo de aplicar um “filtro ideológico” à ajuda internacional.
A decisão, porém, não significa que apenas resgatistas desses quatro países estejam trabalhando na Colômbia. Em Cali, integrantes da brigada internacional Topos Azteca, formada por voluntários latino-americanos e ligada ao México, já participam das buscas sem integrar uma missão oficial enviada por um governo estrangeiro.
A diferença é central para entender a controvérsia: a lista anunciada pela Unidade Nacional para a Gestão do Risco de Desastres (UNGRD) se refere às equipes estrangeiras que serão incorporadas formalmente à resposta coordenada pelo governo colombiano.
Publicidade
Governo mudou posição sobre resgatistas estrangeiros
Na primeira fase da emergência, a então direção da UNGRD avaliou que não era necessário ativar equipes internacionais de busca e resgate. A justificativa era que a Colômbia possuía capacidade própria suficiente, com 23 grupos nacionais especializados, e precisava prioritariamente de hospitais de campanha, alimentos, equipamentos e outros insumos.
A estratégia mudou após a saída de Javier Pava do comando da entidade e a chegada de David Tamayo. O novo diretor anunciou que o país passaria a formalizar solicitações de equipes internacionais para reforçar e permitir o revezamento dos socorristas colombianos que trabalham desde o início da emergência.
Tamayo informou que seriam recebidas equipes de Estados Unidos, Israel, Equador e El Salvador e afirmou que a seleção considera o cumprimento de padrões internacionais de busca e resgate.
A mudança ocorreu mais de dois dias depois do terremoto, quando as operações já entravam em um período considerado especialmente crítico para encontrar sobreviventes sob estruturas desabadas.
Petro acusa governo de usar “filtro ideológico”
Petro reagiu publicamente à seleção dos países. Em publicação no X, o ex-presidente afirmou ser um erro aplicar um “filtro ideológico” à ajuda internacional e defendeu que a assistência humanitária seja tratada como uma questão de proteção à vida.
A crítica coloca pressão política sobre a justificativa apresentada pela nova direção da UNGRD. A acusação de Petro, porém, não comprova que afinidade ideológica tenha sido o critério utilizado pelo governo para escolher as quatro equipes.
O ponto em disputa é quais requisitos técnicos foram considerados suficientes para que uma equipe estrangeira fosse incorporada formalmente às operações colombianas.
Registros da própria UNGRD mostram sistema mais complexo
Uma publicação da própria UNGRD feita antes do terremoto mostra que a classificação das equipes internacionais não se resume à lista anunciada agora pelo governo.
Em junho, ao divulgar a renovação da classificação internacional da equipe colombiana USAR COL-1, a entidade afirmou que a Colômbia integrava, ao lado de Estados Unidos, Chile e Equador, o grupo de países das Américas com equipes classificadas internacionalmente dentro do sistema do INSARAG.
El Salvador, que aparece entre os quatro países selecionados agora pelo governo colombiano, foi citado naquele mesmo processo como participante observador da avaliação realizada na Colômbia.
Isso não significa que uma equipe salvadorenha esteja fora dos padrões internacionais necessários para atuar no desastre.
O INSARAG diferencia a Classificação Externa de equipes, processos de reclassificação e mecanismos nacionais de acreditação que seguem sua metodologia. Uma equipe pode atuar dentro de padrões reconhecidos internacionalmente sem necessariamente ocupar a mesma categoria de classificação externa destacada pela UNGRD em junho.
Por isso, os registros disponíveis não permitem concluir que a lista dos quatro países tenha sido determinada por critérios políticos. Eles mostram, porém, que a expressão “padrões internacionais” abrange mecanismos diferentes e não equivale simplesmente a uma lista única de países certificados.
Voluntários mexicanos já trabalham em Cali
Enquanto a discussão ocorre no governo, uma brigada estrangeira que não integra a lista oficial já participa diretamente das buscas.
Cerca de 20 integrantes dos Topos Azteca chegaram a Cali após trabalhar em outra emergência sísmica na Venezuela. O grupo atua de forma voluntária, sem representar oficialmente o governo mexicano e sem configurar uma missão internacional enviada por um Estado.
Os resgatistas começaram a trabalhar no edifício Ana Pilar, no sul de Cali, utilizando drones, sensores infravermelhos e equipamentos capazes de procurar sinais de pessoas presas sob os escombros.
A presença do grupo evidencia a distinção entre duas formas de ajuda que passaram a coexistir após o terremoto: equipes estrangeiras incorporadas formalmente à operação colombiana e brigadas voluntárias que conseguem chegar às áreas afetadas por outros meios.
O México também preparou separadamente um contingente oficial de 255 militares, médicos, resgatistas e equipes com cães para uma eventual missão na Colômbia, dependente de solicitação formal do governo colombiano.
Ajuda humanitária não está restrita aos quatro países
A seleção anunciada pela UNGRD diz respeito especificamente às equipes oficiais especializadas em busca e resgate. Ela não significa que a Colômbia esteja aceitando alimentos, medicamentos, recursos financeiros ou outros tipos de assistência apenas dos quatro governos escolhidos.
A resposta internacional ao terremoto que atingiu a Colômbia envolve diferentes países e modalidades de apoio. México, Peru, El Salvador, Estados Unidos e outros parceiros mobilizaram recursos ou pessoal para auxiliar as regiões atingidas.
A controvérsia política, portanto, está concentrada no critério adotado para incorporar formalmente equipes estrangeiras de busca e resgate em um momento em que socorristas ainda trabalham contra o tempo para localizar pessoas sob os escombros.



