Nikolas Ferreira procurou Daniel Vorcaro em março de 2025 (veja) para intermediar uma demanda envolvendo um ativo minerário de Thiago Rodrigues de Faria, advogado apresentado pelo deputado como amigo e pessoa de confiança.
A conversa ganhou um peso diferente nesta quinta-feira (3) porque foi revelada um dia depois de Nikolas publicar um vídeo de quase 12 minutos cobrando explicações sobre a relação entre Vorcaro e Alexandre de Moraes e defendendo que o ministro deixasse temporariamente o STF enquanto o caso fosse investigado.
O que as novas mensagens fazem é revelar uma relação que passou por momentos bastante diferentes: Nikolas criticou publicamente um evento financiado pelo Master, Vorcaro reclamou dessas críticas, o deputado posteriormente se desculpou e procurou o banqueiro para ajudar uma pessoa próxima e, meses depois, voltou a se tornar um crítico contundente das conexões políticas e institucionais do Master.
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O pedido de 2025
O áudio foi enviado em 30 de março de 2025.
Nikolas explicou a Vorcaro que Thiago Rodrigues de Faria tinha um “ativo minerário” que, segundo havia sido informado ao deputado, já tinha passado por análise técnica e ainda estava pendente dentro de uma empresa.
Nikolas disse que não conhecia os detalhes da operação, mas confiava em Thiago e perguntou se poderia passar o contato para que os dois tratassem diretamente do assunto.
Vorcaro respondeu e autorizou o contato. No dia seguinte, Nikolas informou que Thiago estaria em Brasília e disponível para conversar. Depois, o banqueiro respondeu:
“Deixa comigo.”
As mensagens divulgadas não mostram o que aconteceu depois. Não há registro apresentado até agora de que o ativo tenha sido liberado, de que os dois tenham fechado negócio ou de que Nikolas tenha recebido alguma vantagem.
Thiago ainda trabalhava no gabinete
Há um detalhe importante para entender o episódio.
As reportagens desta quinta identificam Thiago como “ex-assessor” de Nikolas, o que é correto para sua situação atual. Mas ele ainda trabalhava no gabinete quando o deputado procurou Vorcaro.
O registro oficial da Câmara dos Deputados mostra que Thiago Rodrigues de Faria exerceu o cargo de secretário parlamentar do gabinete de Nikolas de 9 de março de 2023 até 17 de fevereiro de 2026. Portanto, em 30 de março de 2025, data do áudio, ele ainda era funcionário do gabinete.
Ao responder sobre o caso agora, Thiago disse que atua profissionalmente com mineração e que o contato com Vorcaro se referia a um ativo dessa área.
O que a mineração tem a ver com outra investigação
O histórico de Thiago na mineração já havia aparecido publicamente antes dos áudios desta semana.
Em janeiro de 2025, dois meses antes do contato feito por Nikolas com Vorcaro, o escritório de Thiago participou de um contrato de intermediação relacionado à negociação de uma lavra de minério.
A operação envolvia a Gmais Ambiental, empresa que meses depois apareceria na Operação Rejeito, investigação da Polícia Federal sobre suspeitas de corrupção e irregularidades no setor mineral em Minas Gerais. Segundo documentos da investigação obtidos pelo Estado de Minas, o escritório de Thiago poderia receber participação no resultado caso determinadas condições da operação fossem alcançadas.
Isso, porém, não permite concluir que o “ativo minerário” citado a Vorcaro seja a mesma lavra ou a mesma negociação investigada posteriormente pela PF. O áudio não identifica qual era o ativo.
Essa distinção é importante: existe uma conexão de Thiago com negócios de mineração naquele período, mas os documentos disponíveis não permitem unir automaticamente os dois casos.
Antes do pedido, houve uma briga por causa do Master
A aproximação de Nikolas com Vorcaro também não começou naquele áudio.
Em abril de 2024, Nikolas criticou publicamente a participação de ministros do STF e de outras autoridades em um fórum jurídico realizado em Londres. Ele anunciou pedidos via Lei de Acesso à Informação para descobrir quem havia pago as despesas e escreveu que era necessário esclarecer o “real motivo” da viagem e dos encontros.
O evento tinha financiamento do Banco Master.
Mensagens reveladas agora mostram que Vorcaro ficou irritado com a repercussão. Em uma conversa privada, o banqueiro afirmou sobre Nikolas:
“Esse Nikolas eu banquei todos os voos dele.”
A afirmação é de Vorcaro e não comprova, sozinha, que ele tenha efetivamente custeado “todos” os deslocamentos do deputado.
Existe, porém, um episódio anterior envolvendo uma aeronave.
Na campanha presidencial de 2022, Nikolas participou de uma caravana pró-Jair Bolsonaro que utilizou um jato operado pela Prime Aviation, empresa na qual Vorcaro tinha participação naquele período. Nikolas afirmou posteriormente que não sabia da ligação do banqueiro com a empresa quando realizou os voos. A própria operadora também ressaltou que Vorcaro não era proprietário daquele avião específico.
“Eu não teria postado”
No áudio de março de 2025, antes de fazer o pedido sobre o ativo minerário, Nikolas retomou justamente a polêmica do evento de Londres.
Ele contou ter conversado sobre o episódio com o pastor André Valadão e afirmou que não sabia, quando fez as críticas, que o Master estava por trás do evento.
Segundo o deputado, se soubesse que era o “Banco do Dani”:
“Não teria postado, já teria conversado anteriormente.”
Depois, disse esperar que o episódio estivesse esclarecido e sugeriu que ele e Vorcaro se encontrassem.
A frase é relevante porque mostra que a crítica pública de 2024 foi seguida por uma tentativa privada de recompor a relação com o banqueiro.
De pedido a Vorcaro a crítico do Master
A posição pública de Nikolas voltou a endurecer conforme o caso Master avançou.
Em janeiro de 2026, ele publicou um vídeo questionando as conexões do banco com Alexandre de Moraes e Dias Toffoli. Entre outros pontos, criticou eventos patrocinados pela instituição com a presença de integrantes do Supremo e cobrou explicações sobre as relações entre ministros e pessoas ligadas ao Master.
Nesta semana, a crítica ficou ainda mais intensa.
Depois da divulgação do novo relatório da Polícia Federal sobre as mensagens de Vorcaro, Nikolas publicou o chamado “Dossiê Moraes”, vídeo de quase 12 minutos no qual reuniu contratos, mensagens, encontros e benefícios relacionados ao banqueiro e ao círculo de Alexandre de Moraes.
O parlamentar também defendeu que Moraes deixasse temporariamente o Supremo:
“Enquanto isso não estiver completamente esclarecido, saia da cadeira de ministro e deixe o Brasil investigar.”
Nikolas afirmou ainda que havia pedido o afastamento cautelar do ministro e apoiado novo pedido de impeachment.
O que Nikolas diz agora
Após a divulgação dos áudios, Nikolas reconheceu nesta quinta-feira que manteve dois contatos com Vorcaro.
Segundo sua versão, o primeiro ocorreu depois da polêmica do fórum em Londres. O segundo foi o contato de 2025 para apresentar Thiago e tratar do ativo minerário.
O deputado nega ter recebido qualquer benefício financeiro.
“Não houve nenhum contrato fechado, nunca recebi nenhum centavo dele.”
Nikolas também disse que deixou de conversar com Vorcaro depois do avanço das investigações envolvendo o banqueiro.



