O Partido Missão afirma ter identificado o endereço IP utilizado no cadastro que resultou na filiação indevida de Flávio Bolsonaro à legenda e entregou os dados ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) para tentar chegar ao responsável pela operação.
Segundo informações atribuídas à representação do partido, o acesso ocorreu em 2 de agosto, data em que começou o processo que, dez dias depois, terminou com Flávio aparecendo oficialmente no cadastro da Justiça Eleitoral como integrante do Missão.
Uma consulta realizada em ferramenta pública de geolocalização associou o IP apresentado pelo partido a Belo Horizonte. O dado, porém, não permite afirmar que o autor estava fisicamente na capital mineira nem identifica quem realizou o acesso.
Publicidade
O Missão pediu que provedores sejam acionados para fornecer informações como a origem e a titularidade do IP, contas associadas à conexão e registros técnicos que possam ajudar a reconstruir de onde partiu o cadastro.
O que o IP pode revelar, e o que ainda não revela
O endereço IP funciona como um identificador utilizado na comunicação de dispositivos e redes pela internet. Ele pode fornecer uma pista importante para uma investigação, especialmente quando combinado com registros mantidos por provedores.
Mas uma consulta pública de geolocalização não equivale à localização física de uma pessoa.
A MaxMind, empresa especializada em bases de geolocalização de IP, explica que esse tipo de dado é destinado a associar endereços a regiões aproximadas e não é preciso o suficiente para identificar uma residência, indivíduo ou endereço de rua. A precisão também pode ser afetada por redes móveis, VPNs, proxies e pela forma como os provedores distribuem seus endereços.
Por isso, o fato de uma ferramenta apontar Belo Horizonte funciona como uma pista inicial, não como prova de que o responsável pela filiação estava na cidade.
Para avançar sobre a autoria, será necessário cruzar o IP com registros de conexão e outros dados técnicos referentes ao horário em que o acesso ocorreu.
Missão leva caso ao TSE
Renan Santos e o Partido Missão apresentaram nesta sexta-feira (14) uma notícia-crime ao TSE e pediram investigação por possível falsidade ideológica relacionada à filiação de Flávio. A legenda também afirma ter registrado boletim de ocorrência na Polícia Federal.
O partido sustenta que também foi vítima da fraude e nega ter autorizado a entrada de Flávio em seus quadros.
A representação reúne registros relacionados ao processo de filiação, incluindo mensagens enviadas ao e-mail institucional de Flávio e informações sobre entrega, abertura e cliques. O Missão afirma que esses dados serão disponibilizados para auxiliar a investigação.
Cadastro tinha CPF e endereço falsos
O IP apresentado pelo Missão estaria ligado ao cadastro inicial realizado em nome de Flávio.
Segundo o partido, o formulário continha informações deliberadamente inconsistentes, entre elas o CPF “123.456.789-09” e um endereço preenchido como “Rua dos Bandidos”, número 666, “Bairro Miliciano”. O e-mail utilizado, por outro lado, era o endereço institucional do mandato de Flávio no Senado.
O partido também afirma que, depois de identificar divergências, tentou reverter o envio ao sistema Filia em 12 de agosto, mas recebeu uma resposta de erro de permissão. No dia seguinte, a filiação apareceu como regular no cadastro eleitoral.
O episódio levou o presidente do TSE, Kassio Nunes Marques, a restabelecer a filiação de Flávio ao PL, preservar os logs relacionados ao caso e determinar investigação. O tribunal também afirmou que seu sistema não foi hackeado e atribuiu o episódio ao uso indevido da ferramenta por alguém que possuía credenciais da legenda para efetivar filiações.
Duas trilhas técnicas ainda precisam ser conectadas
A divulgação do IP acrescenta uma peça à investigação, mas não resolve a principal pergunta do caso.
O Missão apresenta dados relacionados ao cadastro feito em sua plataforma, aos e-mails enviados durante o processo e agora ao endereço IP que teria iniciado a operação.
O TSE, por sua vez, já informou que a efetivação no sistema eleitoral ocorreu por meio do uso indevido de credenciais da legenda.
Ainda precisa ser esclarecido se a pessoa que iniciou o cadastro utilizando os dados de Flávio é a mesma que posteriormente utilizou as credenciais partidárias necessárias para efetivar a filiação no sistema da Justiça Eleitoral.
Também não há, até esta publicação, identificação pública do responsável pelo IP apresentado pelo Missão.
O novo dado transforma o IP em uma pista que pode ser cruzada com os logs já preservados pelo TSE, os registros do sistema do partido e as informações que poderão ser requisitadas aos provedores.
A autoria e a motivação da filiação indevida continuam sob investigação.



