Uma operação de R$ 35 milhões ligada a um resort no Paraná virou uma das peças mais sensíveis da relação entre Daniel Vorcaro e o ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal.
O motivo vai muito além do resort.
Enquanto Vorcaro movimentava esse negócio, o Banco Master tinha bilhões de reais envolvidos em disputas judiciais que passavam pelo STF. Mensagens apreendidas pela Polícia Federal mostram que o banqueiro acompanhava decisões de interesse do banco e esperava posições favoráveis de Toffoli.
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Agora, documentos obtidos pelo UOL mostram outra peça dessa história: quando tentou explicar sua relação com o ministro em uma proposta de delação, Vorcaro apresentou uma cronologia que não bate com as mensagens do próprio celular. A proposta também foi modificada em pontos que tratavam justamente de contrapartidas e dos interesses do Master no Supremo.
O resort e os R$ 35 milhões
O Tayayá é um resort em Ribeirão Claro, no Paraná, às margens da represa de Chavantes. O empreendimento funciona como um complexo turístico e condomínio com diversos proprietários.
O negócio investigado não envolve a compra do resort inteiro.
Em 2021, um fundo de investimento comprou por R$ 20 milhões uma participação ligada aos irmãos de Toffoli no empreendimento. Segundo o próprio Vorcaro relatou posteriormente às autoridades, o acordo total havia sido de R$ 35 milhões.
Faltavam, portanto, outros R$ 15 milhões.
É esse dinheiro que passa a aparecer repetidamente nas mensagens de Vorcaro.
Por que isso interessa ao caso Master
Na mesma época, o Banco Master havia colocado muito dinheiro em créditos judiciais.
Alguns desses casos chegaram ao STF.
E Toffoli participava desses julgamentos.
Mensagens analisadas pela PF mostram que Vorcaro e pessoas próximas acompanhavam os votos porque as decisões poderiam afetar diretamente o patrimônio do Master. Em uma das disputas, envolvendo créditos do setor de açúcar e álcool, havia expectativa dentro do grupo de Vorcaro de um voto favorável de Toffoli.
É daí que surge o peso da relação entre os dois: de um lado, havia dinheiro de Vorcaro em uma operação ligada ao empreendimento da família do ministro. Do outro, havia bilhões de reais do Master dependentes de decisões no tribunal onde Toffoli votava.
O que Vorcaro contou às autoridades
Anos depois, já pressionado pelas investigações do caso Master, Vorcaro tentou fechar uma colaboração premiada.
Em termos simples, ele oferecia informações às autoridades numa tentativa de negociar um acordo que poderia lhe trazer benefícios caso a colaboração fosse aceita.
A proposta acabou rejeitada pela Procuradoria-Geral da República.
Um dos capítulos era dedicado justamente à relação com Toffoli.
Vorcaro explicou que os R$ 15 milhões restantes do negócio do Tayayá não haviam sido pagos porque Toffoli teria se afastado dele.
Segundo sua versão, a situação só voltou a avançar depois de um reencontro, no início de 2025. Nesse período teria surgido também um empresário interessado em assumir a participação ligada ao resort.
Só que o celular mostra outra linha do tempo.
As cobranças começaram antes
A Polícia Federal mapeou 12 ocasiões de contato ou encontro entre Vorcaro e Toffoli entre outubro de 2023 e fevereiro de 2025.
E os R$ 15 milhões já eram cobrados por Vorcaro em 2024.
Em 24 de maio daquele ano, horas depois de receber uma ligação de Toffoli, Vorcaro procurou a pessoa responsável por organizar seus pagamentos e cobrou uma solução para o dinheiro do Tayayá.
Disse que estava em uma “situação ruim”.
A negociação para transferir a participação no empreendimento também aparece nas mensagens ainda em 2024, meses antes da sequência apresentada por Vorcaro em sua proposta de colaboração.
Ou seja: contatos com Toffoli, cobranças pelo dinheiro e negociações envolvendo o Tayayá já estavam ocorrendo antes do momento apontado por Vorcaro às autoridades.
O que desapareceu da versão final
Há outro ponto relevante.
O UOL comparou diferentes versões do texto que Vorcaro preparava para a tentativa de delação.
Na primeira, havia uma afirmação expressa de que o negócio não envolvia qualquer contrapartida ou pedido relacionado a Toffoli.
Essa afirmação foi retirada.
Também desapareceu uma frase em que Vorcaro dizia que, naquele período, não existiam causas específicas de interesse dele ou do Banco Master sob responsabilidade do ministro.
As mensagens mostram que o Master acompanhava justamente processos com impacto bilionário e tinha expectativa sobre a posição de Toffoli.
Outra mudança ocorreu na forma de explicar o próprio investimento.
Na primeira versão, Vorcaro dizia que faria o negócio mesmo sem qualquer ligação com Toffoli.
Na versão final, passou a dizer que o investimento se tornava mais interessante por estar relacionado ao ministro.
Ao explicar por que queria completar os R$ 15 milhões, Vorcaro também registrou que pretendia cumprir a palavra dada a Toffoli levando em consideração quem era o ministro.
O ponto central da investigação
A sequência deixa a polêmica mais clara.
Vorcaro mantinha uma relação pessoal com Toffoli.
Havia R$ 35 milhões envolvidos em uma operação relacionada ao empreendimento de familiares do ministro.
Ao mesmo tempo, o Banco Master tinha interesses bilionários em decisões do STF e acompanhava votos de Toffoli.
Quando Vorcaro posteriormente tentou explicar essa relação às autoridades, partes da cronologia não bateram com as mensagens registradas quando os fatos estavam acontecendo.
E, entre as versões da proposta, foram retiradas justamente afirmações que separavam o negócio do Tayayá dos interesses do Master perante Toffoli.
O que diz Toffoli
Toffoli não respondeu ao UOL sobre a nova comparação entre as mensagens e a proposta de Vorcaro.
Em manifestação anterior, o ministro afirmou que a empresa familiar envolvida nas operações era regularmente constituída, que as vendas ocorreram por valores de mercado e que os atos da empresa e dos sócios foram declarados à Receita Federal.
Em fevereiro, Toffoli deixou a condução dos processos do Banco Master no STF. Posteriormente, passou a declarar suspeição por foro íntimo em julgamentos relacionados ao caso.
A defesa de Vorcaro afirmou que não reconhece a origem, a autenticidade e a integridade dos anexos divulgados sobre a tentativa de colaboração e criticou o vazamento das tratativas.



