O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) fugiu do Brasil rumo aos Estados Unidos após perder a eleição presidencial para Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e ser proibido de deixar o país pelo Supremo Tribunal Federal (STF). A saída foi confirmada publicamente por um deputado aliado e relatada por fontes próximas ao parlamentar e por uma fonte do governo americano nesta terça-feira (27).

A fuga ocorreu depois que o ministro Alexandre de Moraes determinou que Flávio entregasse seus passaportes à Polícia Federal e permanecesse em território brasileiro. O senador havia prometido cumprir a decisão, mas não apresentou os documentos até o prazo das 11h desta terça-feira. A PF cancelou seus passaportes comum e diplomático e decidiu comunicar o descumprimento ao STF.

Pessoas próximas à família Bolsonaro afirmam que Flávio viajou acompanhado da esposa e das duas filhas, motivado pelo receio de ser preso. Aliados também dizem que o governo de Donald Trump foi informado da operação e sinalizou a possibilidade de conceder asilo político ao senador.

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A viagem provocou uma reação imediata em Brasília. Parlamentares do PT pediram a prisão preventiva de Flávio e sua eventual inclusão em um alerta da Interpol. Em outra iniciativa, a deputada Sâmia Bomfim (PSOL-SP) solicitou que o Senado apure a possibilidade de perda do mandato e suspensão da remuneração parlamentar.

Da promessa de permanecer no Brasil à fuga

Na segunda-feira (26), um dia depois da derrota eleitoral, Flávio divulgou um vídeo contando que havia sido intimado pela Polícia Federal ao deixar a residência do pai, Jair Bolsonaro, em Brasília.

O senador criticou Alexandre de Moraes, afirmou que a determinação representava uma tentativa de intimidação e negou qualquer intenção de viajar ao exterior.

"Eu nunca pensei em sair do país. Eu vou entregar os meus passaportes", declarou.

Naquele momento, Flávio também anunciou que permaneceria no Brasil para organizar a oposição ao novo governo Lula e buscar medidas judiciais contra o resultado da eleição.

Horas depois, seus próprios advogados perderam contato com ele.

Segundo relato da defesa divulgado nesta terça-feira, a última conversa com Flávio ocorreu às 16h30 de segunda-feira. Ficou combinado que os documentos seriam entregues aos advogados na manhã seguinte, antes do encerramento do prazo judicial.

O senador, porém, deixou de responder às ligações e mensagens.

A falta de contato surpreendeu integrantes da campanha. Pela manhã, aliados chegaram a negar a notícia da saída do país. Com o avanço das informações, passaram a admitir que não sabiam onde ele estava.

À tarde, o deputado federal Mauricio Marcon (PL-RS), vice-líder da oposição na Câmara, confirmou publicamente que Flávio havia seguido para os Estados Unidos.

Marcon apresentou a viagem como uma busca por exílio político e afirmou que o senador continuaria liderando a oposição a partir do exterior.

A investigação que levou Moraes a proibir a viagem

A decisão de Alexandre de Moraes foi tomada no contexto de uma investigação sobre suspeitas de lavagem de dinheiro envolvendo Flávio Bolsonaro e o advogado Willer Tomaz, amigo do senador.

Willer é investigado por operações financeiras relacionadas ao setor de apostas. Na semana anterior, Moraes havia determinado o bloqueio de até R$ 6 bilhões em bens e valores ligados ao advogado.

A Polícia Federal também analisa possíveis vínculos financeiros de Flávio com a Alcazar Holdings, empresa sediada na Ilha da Madeira, em Portugal.

Segundo as informações divulgadas sobre a investigação, registros de e-mails apontam o senador como possível operador de uma conta no exterior relacionada ao advogado. Os investigadores avaliam se estruturas financeiras fora do Brasil poderiam facilitar a movimentação de recursos investigados.

A Alcazar Holdings já havia entrado no centro da campanha presidencial. Em reportagem publicada em 22 de outubro, o Trendahora mostrou como a empresa apareceu nas cobranças entre Lula e Flávio pela abertura de sigilos bancários, fiscais e telefônicos.

Flávio nega irregularidades financeiras e afirma que sua relação com Willer Tomaz é de amizade.

O senador também é investigado em outro procedimento, relacionado ao financiamento do filme Dark Horse, sobre Jair Bolsonaro, com recursos ligados ao empresário Daniel Vorcaro, do Banco Master. Essa investigação é distinta da que motivou a ordem de entrega dos passaportes.

Como Flávio saiu do Brasil?

A primeira notícia sobre a fuga surgiu na Argentina, ainda durante a madrugada de terça-feira.

A suspeita inicial era de que Flávio tivesse atravessado a fronteira brasileira e chegado a Puerto Iguazú, onde embarcaria em um avião particular rumo aos Estados Unidos.

Uma aeronave Gulfstream G400, de matrícula LV-JQW, realmente chegou à cidade argentina na noite anterior. O avião, porém, não realizou a decolagem internacional inicialmente prevista.

O governo argentino informou que seus sistemas de imigração não registraram a entrada de Flávio Bolsonaro. As autoridades também afirmaram que a fiscalização da aeronave não identificou um plano de voo envolvendo a família do senador.

A viagem aos Estados Unidos foi posteriormente corroborada por relatos de aliados e de uma fonte do governo norte-americano, mas a rota efetivamente utilizada ainda não foi esclarecida publicamente.

A suspeita de passagem pela Argentina permanece em investigação. As informações mais recentes dos aliados não permitem estabelecer por qual fronteira Flávio deixou o Brasil nem em qual aeroporto embarcou.

Aliados falam em asilo e possível ajuda do governo Trump

A chegada de Flávio aos Estados Unidos abre uma nova dimensão política para o caso.

Pessoas próximas à família Bolsonaro afirmam que a administração de Donald Trump tinha conhecimento da viagem e teria sinalizado disposição para conceder asilo político ao senador.

Esses aliados apresentam a fuga como uma reação ao que classificam como perseguição judicial contra a família Bolsonaro. O próprio Flávio tem acusado Alexandre de Moraes de atuar politicamente contra ele e contra seu pai.

Um empresário mexicano ligado ao movimento político de Trump, Simón Levy, afirmou nas redes sociais que o senador chegou em segurança aos Estados Unidos. Levy também atribuiu ao secretário de Estado americano, Marco Rubio, a organização de uma operação para viabilizar sua saída.

A participação de Rubio não foi confirmada pelo governo americano. Tampouco houve anúncio oficial de concessão de asilo a Flávio até o fechamento desta reportagem.

Uma eventual decisão americana de proteger o senador poderá transformar o episódio em mais um foco de atrito entre Brasília e Washington, especialmente se o STF determinar novas medidas judiciais.

PT pede prisão e oposição tenta justificar a fuga

A saída de Flávio provocou reações opostas no Congresso Nacional.

Os deputados Lindbergh Farias (PT-RJ) e Rogério Correia (PT-MG), ao lado da deputada federal eleita Ana Elisa Santos (PT-MG), acionaram Alexandre de Moraes para solicitar a prisão preventiva do senador.

Os parlamentares argumentam que o descumprimento da ordem de entrega dos passaportes, somado à viagem ao exterior, demonstra risco de fuga e dificuldade para a continuidade das investigações.

Também pediram que, caso seja expedido um mandado de prisão, o nome de Flávio seja incluído em um alerta vermelho da Interpol. A medida permitiria solicitar sua localização internacional e eventual prisão provisória, conforme as regras aplicáveis.

Em outra frente, Sâmia Bomfim encaminhou uma solicitação ao presidente do Senado, Davi Alcolumbre, para que a Mesa Diretora examine eventual abandono das atividades parlamentares e avalie a perda do mandato e a suspensão da remuneração.

Do lado bolsonarista, aliados passaram a defender a saída como uma forma de evitar que Flávio fosse usado como instrumento de pressão política dentro do Senado.

Mauricio Marcon argumentou que uma eventual prisão do senador poderia interferir nas articulações para a presidência da Casa e nas iniciativas de impeachment de Alexandre de Moraes. Trata-se de uma interpretação política apresentada pelo deputado, sem demonstração de que essa fosse a intenção do ministro.

A derrota eleitoral e o futuro do bolsonarismo

A fuga acontece apenas dois dias depois da derrota de Flávio Bolsonaro para Lula no segundo turno presidencial.

De acordo com os resultados oficiais do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Lula foi reeleito com 51,79% dos votos válidos, contra 48,21% de Flávio. A diferença foi de 4.430.191 votos.

No domingo (25), Flávio questionou o resultado e anunciou que buscaria a anulação da eleição. Na segunda-feira, passou a defender um pedido de cassação da chapa Lula–Alckmin.

A direção nacional do Partido Liberal, entretanto, adotou outro caminho. Em comunicado assinado por Valdemar Costa Neto, o partido reconheceu a vitória de Lula e anunciou que atuará como oposição.

Agora, a saída de Flávio acrescenta uma nova tensão ao processo de reorganização do bolsonarismo.

O episódio também lembra o caminho seguido por Jair Bolsonaro depois da derrota presidencial de 2022, quando o então presidente viajou aos Estados Unidos antes de Lula assumir o governo. A diferença é que, desta vez, Flávio deixou o Brasil em meio a uma ordem expressa do STF que o proibia de viajar.

Na semana anterior à eleição, Eduardo Bolsonaro, que permanece nos Estados Unidos, já havia defendido publicamente que o irmão deixasse o Brasil caso fosse derrotado.

Flávio encerra seu mandato no Senado em janeiro de 2027. Até lá, sua permanência no exterior poderá afetar tanto a articulação da oposição quanto o andamento dos procedimentos que o envolvem.

As próximas decisões de Alexandre de Moraes, a resposta das autoridades americanas sobre eventual asilo e a definição do paradeiro oficial do senador serão os principais desdobramentos do caso.