A dois dias do segundo turno das eleições presidenciais de 2026, bispos católicos de diferentes regiões do Brasil divulgaram uma carta com críticas à candidatura de Flávio Bolsonaro (PL) e uma avaliação favorável ao histórico político do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
O manifesto, datado de quinta-feira (22), apresenta sete pontos em que os religiosos consideram haver conflitos entre as posições atribuídas a Flávio e a Doutrina Social da Igreja Católica. Entre os temas estão direitos trabalhistas, soberania nacional, combate à pobreza, armas, meio ambiente, tortura e democracia.
A carta não menciona nominalmente os dois presidenciáveis. Entretanto, identifica o candidato criticado como filho de um ex-presidente condenado por atentar contra a democracia, numa referência a Jair Bolsonaro.
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A manifestação também revela uma continuidade histórica: seis anos antes, em 2020, um grupo de 152 bispos havia publicado uma carta contra o governo Jair Bolsonaro. Em 2022, religiosos ligados ao movimento Bispos do Diálogo pelo Reino voltaram a se posicionar durante o segundo turno entre Lula e Jair. Agora, a mobilização se repete diante da candidatura de Flávio.
Por que os bispos decidiram se manifestar?
Os religiosos afirmam que o Brasil enfrenta uma escolha que ultrapassa a disputa convencional entre partidos. Para eles, estão em jogo princípios fundamentais da Igreja, especialmente a proteção dos mais pobres, o respeito à democracia e a dignidade humana.
O manifesto utiliza ensinamentos sociais da Igreja e cita documentos de diferentes papas, incluindo Leão XIV e Francisco, para sustentar que a fé cristã também exige responsabilidade diante das escolhas políticas.
Os signatários defendem que não podem permanecer neutros diante do cenário apresentado e convocam os católicos a participar da votação de domingo, 25 de outubro.
Trata-se de uma manifestação política fundamentada na interpretação religiosa dos próprios bispos. O documento não equivale a um posicionamento do Vaticano ou a uma orientação oficial de voto da CNBB.
O que os bispos criticam na candidatura de Flávio Bolsonaro?
A carta apresenta sete argumentos centrais, organizados a partir da Doutrina Social da Igreja.
Trabalho e direitos dos trabalhadores
Os bispos criticam a oposição anterior de Flávio ao fim da escala de trabalho 6×1 e a proposta de flexibilizar contratos com remuneração por hora trabalhada. Para os religiosos, a proteção da renda e do descanso é parte da dignidade do trabalhador.
Soberania nacional e Estados Unidos
O documento acusa a candidatura de Flávio de defender uma aproximação subordinada aos Estados Unidos. Os bispos também questionam sua atuação nas disputas comerciais envolvendo tarifas contra produtos brasileiros, sua posição sobre interferência estrangeira e declarações relacionadas à exploração de terras raras.
Pobreza e programas sociais
Os religiosos criticam posições históricas atribuídas ao PL em relação aos programas sociais e ao combate à pobreza.
O manifesto reconhece que Flávio declarou intenção de preservar determinados benefícios, mas questiona a coerência entre essas promessas e a atuação política anterior de seu partido.
Armas e segurança
A carta rejeita a ampliação do acesso da população a armas de fogo, associando essa proposta às medidas adotadas durante o governo Jair Bolsonaro.
Os bispos recorrem ao princípio de promoção da paz presente nos ensinamentos sociais da Igreja.
Meio ambiente
O documento acusa Flávio de negar a gravidade da crise climática e de pretender retomar políticas ambientais associadas ao governo de seu pai.
Os signatários também criticam a Lei nº 15.190/2025, relativa ao licenciamento ambiental, que classificam como prejudicial à proteção da natureza.
Tortura e ditadura militar
Os religiosos condenam homenagens da família Bolsonaro a Carlos Alberto Brilhante Ustra, coronel do Exército reconhecido judicialmente como torturador durante a ditadura militar.
A carta também atribui ao candidato posições favoráveis à tortura.
Democracia e Constituição
O último ponto apresenta o alerta político mais contundente.
Os bispos afirmam que a continuidade das ideias de Jair Bolsonaro, combinada com uma eventual ampliação do poder de seus aliados no Congresso e nas instituições, poderia criar condições para uma concentração autoritária de poder.
Trata-se de uma previsão e interpretação política dos signatários, não de um resultado institucional já estabelecido.
O que a carta diz sobre Lula?
Em contraste com as críticas a Flávio, o documento avalia que a outra candidatura, embora também possa ser criticada, demonstrou compromisso com os mais pobres, com a proteção ambiental e com a ordem democrática.
A referência é ao presidente Lula, que disputa a reeleição.
O manifesto, portanto, não apresenta os dois candidatos como equivalentes. Os bispos consideram que as diferenças entre suas trajetórias são relevantes para o exercício do voto católico.
Embora a carta não apresente uma orientação expressa com o nome ou número de Lula, sua argumentação favorece a candidatura do petista.
Uma mobilização que começou em 2020
A manifestação de 2026 não é um episódio isolado dentro da Igreja Católica brasileira.
Em 26 de julho de 2020, durante o governo Jair Bolsonaro, veio a público a Carta ao Povo de Deus, assinada por 152 bispos, arcebispos e bispos eméritos.
O documento criticava a condução do país durante a pandemia, as políticas econômicas, a situação das populações vulneráveis e os ataques às instituições democráticas.
Em 24 de outubro de 2022, a mobilização ressurgiu durante a disputa presidencial entre Lula e Jair Bolsonaro.
Na carta intitulada A gravidade do segundo turno das eleições 2022, os Bispos do Diálogo pelo Reino afirmaram que os eleitores estavam diante de projetos políticos distintos, contrapondo a defesa da democracia ao risco de autoritarismo.
O texto de 2022 chegou a recordar expressamente a mobilização iniciada em julho de 2020.
Quatro anos depois, a eleição presidencial novamente leva integrantes desse movimento a se posicionarem. A diferença é que agora o adversário de Lula é Flávio Bolsonaro, filho do ex-presidente criticado nas manifestações anteriores.
A sequência de documentos mostra como uma mobilização religiosa surgida durante o governo Jair Bolsonaro se prolongou por diferentes disputas políticas.
A CNBB está apoiando Lula?
Não. A carta divulgada em 22 de outubro é uma manifestação dos bispos que a assinaram, e não uma declaração oficial da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil.
Na quarta-feira (21), o Conselho Permanente da CNBB já havia publicado sua própria mensagem sobre o segundo turno.
O documento institucional defende o respeito à Constituição, ao resultado das urnas, aos direitos sociais e à liberdade de escolha dos eleitores. Também pede que os brasileiros examinem a trajetória e os compromissos dos candidatos.
Ao contrário da carta dos signatários, a mensagem oficial não apresenta críticas direcionadas a um presidenciável nem argumentos favoráveis ao outro.
A distinção importa porque os bispos possuem posições individuais e coletivas sobre assuntos políticos, enquanto a CNBB mantém uma orientação institucional de não apoiar candidatos ou partidos.
Quem assinou a carta de 2026?
A versão do documento publicada pela Rede Eclesial Pan-Amazônica (REPAM) e consultada pelo Trendahora contém 54 assinaturas de bispos, arcebispos e bispos eméritos. O número continuou aumentando ao longo desta sexta-feira (23), segundo novas reportagens.
Entre os signatários estão dom Roque Paloschi, arcebispo de Porto Velho; dom Zanoni Demettino Castro, arcebispo de Feira de Santana; dom Paulo Mendes Peixoto, arcebispo de Uberaba; dom Erwin Kräutler, bispo emérito do Xingu; e dom José Ionilton Lisboa de Oliveira, presidente da Comissão Pastoral da Terra.
Leia a carta original dos bispos
O documento é intitulado Carta de Bispos Católicos ao Povo de Deus diante do Segundo Turno das Eleições Presidenciais de 2026.
Está datado de 22 de outubro de 2026, possui quatro páginas e inclui a relação de signatários.
Também podem ser consultadas a mensagem oficial da CNBB de 21 de outubro e a carta dos Bispos do Diálogo pelo Reino, publicada em 2022.



