Três dias depois de ser desafiado por Lula a abrir seus sigilos bancário e telefônico, Flávio Bolsonaro (PL) apresentou nesta quarta-feira (21) uma contraproposta ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE). O senador ofereceu acesso a dados dos últimos 20 anos, mas estabeleceu 19 exigências que ampliam o pedido para familiares, ex-assessores do presidente, empresas, investigações sobre o Banco Master e despesas do governo federal.

A resposta da campanha de Lula (PT) veio poucas horas depois. Em coletiva de imprensa em Brasília, o senador Camilo Santana, integrante da coordenação da campanha petista, afirmou que o presidente não se opõe às condições apresentadas por Flávio, desde que o adversário também cumpra integralmente a proposta original.

A equipe de Lula anunciou que apresentará sua resposta formal ao TSE nesta quinta-feira (22), às 11h, e cobrou que Flávio também entregue as autorizações necessárias até esse horário.

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A troca de documentos marca uma nova etapa do confronto iniciado durante o debate da Band, no domingo (18). Os dois candidatos agora manifestam disposição para abrir informações financeiras, mas condicionam a iniciativa a exigências recíprocas.

Até o fechamento desta atualização, os dados solicitados não haviam sido divulgados.

Flávio oferece 20 anos de sigilos, mas amplia as exigências

A petição de Flávio Bolsonaro tem 12 páginas e foi apresentada no mesmo processo iniciado pela campanha de Lula na terça-feira (20), de número 0603195-27.2026.6.00.0000.

No documento, o senador afirma autorizar o acesso aos próprios sigilos bancário, fiscal e telefônico dos últimos 20 anos, além de informações de familiares e de quatro empresas das quais declara ser sócio ou administrador.

A proposta amplia o período inicialmente oferecido por Lula, que colocou à disposição informações dos últimos oito anos.

Flávio também se dispõe a divulgar as mensagens trocadas com Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, relacionadas ao financiamento de Dark Horse, filme sobre Jair Bolsonaro.

O senador, entretanto, afirma que a abertura de seus dados dependerá do atendimento das condições apresentadas na petição.

A defesa de Flávio argumenta que o pedido de Lula seria insuficiente porque deixaria de fora pessoas e empresas que, segundo as acusações apresentadas pelo candidato do PL, teriam participado de movimentações financeiras relacionadas ao presidente.

As alegações fazem parte da argumentação da campanha e não representam comprovação das irregularidades mencionadas.

O que Flávio exige de Lula?

As exigências apresentadas por Flávio vão além dos dados bancários pessoais do presidente.

Uma das principais cobranças envolve Marco Aurélio Santana Ribeiro, conhecido como Marcola, ex-chefe de gabinete de Lula.

Flávio exige a abertura de informações bancárias e fiscais de Marcola para esclarecer repasses financeiros relacionados à empresária Roberta Luchsinger, investigada no caso das fraudes contra aposentados do INSS.

Marcola já havia declarado em agosto que colocava seus sigilos bancário e fiscal à disposição da Justiça. Na ocasião, afirmou que um repasse de R$ 249 mil recebido de Roberta correspondia a um empréstimo pessoal e negou irregularidades.

A petição também solicita acesso a informações de empresas ligadas aos filhos de Lula, de pessoas próximas à família e do Instituto Lula. Para parte dessas informações, Flávio pede dados desde 2003, início do primeiro mandato do presidente.

Outra frente envolve as investigações sobre o Banco Master.

Flávio solicita registros de encontros entre Lula e Daniel Vorcaro, informações sobre visitas do banqueiro a instalações da Presidência e documentos relacionados à atuação de Guido Mantega, ex-ministro da Fazenda.

O senador também pede dados do ex-tesoureiro do PT João Vaccari Neto, citado em relatos divulgados sobre uma proposta de delação de Vorcaro.

No caso das irregularidades do INSS, a lista inclui Roberta Luchsinger, o irmão de Lula, Frei Chico, e o Sindicato Nacional dos Aposentados, Pensionistas e Idosos (Sindnapi).

Por fim, a petição exige a divulgação de despesas do cartão corporativo da Presidência desde 2023, da agenda da primeira-dama Janja anterior a fevereiro de 2025, de registros de voos oficiais e de gastos relacionados ao Palácio da Alvorada.

Assim, o desafio inicialmente concentrado no patrimônio dos candidatos passou a envolver também as relações financeiras de terceiros e informações sobre o funcionamento do governo federal.

Campanha de Lula afirma aceitar as condições

A reação da campanha petista ocorreu na tarde desta quarta-feira, em coletiva conduzida por Camilo Santana, em Brasília.

Ao comentar a petição de Flávio, Camilo afirmou que Lula concorda com a ampliação do pedido, desde que o adversário cumpra as exigências já apresentadas pela campanha do presidente.

“Todas as condicionantes que ele colocou, a resposta do presidente é que ele não se opõe a absolutamente nada do que ele está propondo. Contanto que ele também cumpra e abra tudo que está no pedido protocolado junto ao TSE”, declarou Camilo, segundo registro da Agência Brasil.

A campanha informou que apresentará uma nova manifestação ao tribunal na quinta-feira (22), às 11h.

O coordenador petista cobrou que Flávio também formalize a abertura dos próprios sigilos até esse horário, argumentando que o assunto precisa ser esclarecido antes do segundo turno, marcado para domingo (25).

A manifestação foi feita por Camilo Santana em nome da campanha. A aceitação das condições adicionais ainda depende da apresentação dos documentos correspondentes, prometida para quinta-feira.

Alcazar Holdings vira novo ponto de divergência

Apesar de anunciar concordância com as exigências de Flávio, a campanha de Lula apresentou uma cobrança adicional envolvendo a Alcazar Holdings, empresa registrada na Ilha da Madeira, em Portugal.

A companhia está ligada ao advogado Willer Tomaz, conhecido de Flávio Bolsonaro e citado em investigações financeiras.

Na primeira petição, protocolada em 20 de outubro, a campanha petista incluiu a Alcazar entre as empresas cujas informações deveriam ser divulgadas.

O argumento é baseado em documentos atribuídos à Polícia Federal e divulgados pela imprensa, segundo os quais Flávio teria sido cadastrado como “usuário master” de uma conta bancária da companhia, perfil que pode permitir acesso e gerenciamento de operações.

Na resposta apresentada nesta quarta-feira, Flávio afirmou que não é sócio, administrador nem beneficiário da Alcazar Holdings e, por isso, não dispõe dos dados bancários e fiscais da empresa.

O senador e Willer Tomaz negam manter negócios em conjunto.

Camilo Santana questionou a exclusão da companhia e cobrou esclarecimentos sobre a relação financeira apontada nos documentos divulgados.

Banco Master também entra na troca de documentos

O Banco Master passou a integrar as exigências apresentadas pelos dois candidatos.

O senador reconheceu que procurou o banqueiro em busca de apoio para a produção, mas negou irregularidades e o recebimento de vantagens pessoais.

Na petição desta quarta-feira, Flávio afirma estar disposto a divulgar suas mensagens com Vorcaro relacionadas ao filme.

Ao mesmo tempo, exige que o governo Lula apresente registros de encontros com o banqueiro, informações sobre a circulação de representantes do Master em órgãos federais e detalhes das relações envolvendo Guido Mantega.

A ampliação das cobranças mostra como o escândalo financeiro passou a ocupar espaço na disputa presidencial. Lula questiona os vínculos de Flávio com Vorcaro, enquanto o senador cobra esclarecimentos sobre a relação do banqueiro com integrantes e pessoas próximas ao governo petista.

Como começou o desafio no debate da Band

A disputa começou no domingo (18), durante o primeiro debate presencial do segundo turno entre Lula e Flávio Bolsonaro.

Em meio a acusações sobre corrupção, Lula propôs que ambos autorizassem a abertura dos sigilos bancário e telefônico, incluindo informações de familiares.

O presidente afirmou que seu filho Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, já havia colocado dados à disposição de investigadores e desafiou Flávio a permitir uma análise equivalente.

O senador respondeu que não tinha nada a esconder, mas não aceitou expressamente a proposta naquele momento.

Na segunda-feira (19), Lula voltou a cobrar o adversário durante um ato de campanha em Porto Alegre.

No dia seguinte, a campanha do presidente protocolou no TSE uma petição oferecendo a divulgação de informações bancárias, fiscais e telefônicas de Lula, da primeira-dama Janja e dos cinco filhos, relativas aos últimos oito anos.

A proposta condicionava a divulgação à mesma iniciativa por parte de Flávio, incluindo familiares e empresas.

Na quarta-feira (21), o candidato do PL apresentou sua contraproposta e ampliou as exigências. Horas depois, a campanha petista anunciou que não se opunha às novas condições.

Em quatro dias, uma cobrança feita diante das câmeras se transformou em uma troca formal de manifestações perante a Justiça Eleitoral.

O que acontece nesta quinta-feira?

A próxima etapa está prevista para quinta-feira, 22 de outubro, às 11h.

A campanha de Lula promete protocolar uma resposta formal às exigências apresentadas por Flávio Bolsonaro.

Camilo Santana também cobrou que o senador apresente, até o mesmo horário, as autorizações correspondentes à abertura dos sigilos solicitados pelo presidente.

O horário foi anunciado pela coordenação da campanha petista, não como prazo estabelecido pelo TSE.

A nova documentação poderá esclarecer se a disposição manifestada pelos candidatos resultará na divulgação efetiva dos dados ou se permanecerão divergências sobre o alcance das informações solicitadas.

Com o segundo turno marcado para domingo (25), o confronto sobre os sigilos se tornou um dos principais desdobramentos da reta final da campanha presidencial.